Precisamos de lideranças para o desafio da criação de uma sociedade amorosa e justa. Lideranças são formadas também nas ações educativas. Esse é um desafio para os processos de formação profissional e educação comunitária. Mas que tipo de liderança?
Há um modelo dominante de liderança forte e eficaz. Para ele, é preciso criar um mito em torno do líder, para que as pessoas passem a projetar nele suas esperanças de realização das suas expectativas. E ouvi-lo. Seria o caminho para melhor influenciar socialmente de forma progressista. Espalhar verdades e mensagens capazes de gerar emancipação. E mobilizar grupos para as ações transformadoras. Há, assim, um grande esforço de comunicação, marketing e adequação da imagem pública às expectativas. Sucesso gera visibilidade, elogios e divulgações, ampliando o poder irradiador do lider. O investimento não pode parar.
Mas esse lugar mitificado de liderança corrompe. Exige que se passe a ser o que não é. A esconder contradições e precariedades que todos têm. A reprimir discordâncias dos que estão próximos. A desqualificar críticas, ao invés de esforçar para compreendê-las, indo além de eventuais formulações com grosseria e imprecisão.
O contínuo esforço, para manter e ampliar essa liderança, acaba por esvaziar os tempos de meditação, leituras realmente críticas (não aquelas voltadas para ampliar a eficácia de ação), contemplação e convivência espontânea e gratuita. Todo o gesto passa a ser calculado. A máscara social vai sufocando os surpreendentes dinamismos vitais presentes no que é humano.
O poder seduz. Gera reconhecimento e valorização, gratificando amplamente. Se antes, ele era buscado para se ter maior eficácia de ação política e cultural, passa a despertar um desejo avassalador, que vai transformando o jeito de ser. O estar no lugar mitificado de liderança tende a corromper.
Precisamos de um outro tipo de líder. Uma liderança que chega, como resultado do serviço amoroso e da dedicação desinteressada. Da capacidade de ouvir, promover diálogo e articular iniciativas coletivas. E que não se apega aos reconhecimentos e valorizações para poder, em momento próximo, transitar facilmente para a posição de liderado. Uma liderança que se gratifica com o assistir a emergência de novas lideranças e o crescimento de protagonismo autônomo dos que antes o tinham como líder.
Essa liderança chega e vai. Não é fruto de um esforço para ser alcançada e sim da necessidade do grupo. É provisória, mas tem exigências. Exige conhecimentos próprios e habilidades emocionais para lidar com o lugar de maior visibilidade e centralidade. Quem está na frente de processos públicos é alvo de maiores pressões, pois gere recursos e ações institucionais ambicionadas. Suas palavras repercutem, de forma ampla e imprevista, para além dos ambientes em que foram ditas. É preciso saber ocupar funções hierárquicas diferenciadas, sem muito se irritar, perdendo a escuta sensível e a ternura no agir. E sem apego aos bônus trazidos pelo poder, para não ter dificuldade de deixá-lo caso o caminho, para a verdade e o compromisso com os mais necessitados, exija.
É um lugar social exigente e difícil. E necessário. Processos educativos podem valorizar esse aprendizado. Tenho acompanhado o desenvolvimento de uma pedagogia para essa valorização em muitas experiências de extensão universitária orientadas pela Educação Popular.
Texto elaborado por Eymard a partir de reflexão de Laurence Freeman, da Comunidade Mundial de Meditação Cristã (fonte: http://www.wccm.org.br/ ), com a finalidade de torná-la mais adequada à sua própria jornada de aprendizagem.
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