Maria Emília Bottini
Andamos rotineiramente pelas
cidades sem ver o que há ao redor: os sons, os movimentos, os cheiros, as cores,
as escritas, os grafites, a arquitetura, os carros, a humanidade, os homens, as
mulheres, as crianças... Andamos e não vemos. Andamos e não sentimos. Nas ruas
tem o mundo todo, expressões de quem somos. Ruas são as veias por onde percorre
o oxigênio das cidades.
Ao andar pelas calçadas de
Brasília percebe-se que nada tem de regular, pois cada comerciante fez ao seu
bel prazer. Critico o tipo de mobilidade urbana da capital de um país em
frangalhos, calçadas que nada facilitam a vida das pessoas com necessidades especiais,
enfim a todos que dela dependem para circular, calçadas que revelam como
funcionamos.
Sempre podemos ser
surpreendidos se estivermos atentos e soubermos observar. Fui surpreendida positivamente.
Nesse caminho há uma loja que vende bolos, onde já comprei delícias ao paladar
por lá. Sou fã de bolo, meu favorito é de morangos. Nesta loja que transito com
frequência, há um quadro negro e nele estão escritas algumas frases com giz
branco; sempre há frases que fazem pensar ou que fazem rir, de qualquer sorte
sou atingida, pois lhe dou atenção.
Num certo dia estava escrito:
“Receita para realizar sonhos: comece onde está, use o que tem e faça o que
pode”. Li rapidamente e fui para o trabalho.
Ao retornar estava acompanhada com duas amigas e as fiz ler a frase e eu
a fotografei para manter comigo o registro de tal provocação vinda de um lugar
que não se espera. Uma loja de bolos deveria vender tão somente bolos e não
reflexão, essa última gratuita e para quem se interessar em ler, talvez não
seja tão somente isso, alguém deste local pensa e quer que outros também o
façam.
Essas palavras contém sabedoria,
um universo de possibilidades que nos permitem viajar para além das calçadas e
dos bolos, para dentro de nós. Provocação feita. A reflexão, a escrita, o
registro, não é uma receita pronta como a de bolo e por vezes mesmo que sigamos
na integra os ingredientes não sairá um bolo ao final do processo.
Resolvi me debruçar sobre
essas frases:
Comece onde está. Do lugar em
que você se encontra neste exato momento, é deste espaço que sua vida acontece
e pode melhorar, não há outro meio de começar que não de onde se está. É
impossível estar em outro lugar fisicamente falando. Este é o ponto de partida para
onde almeja chegar, nem sempre onde deseja, mas ao menos comece e você pode se
surpreender com o que vai encontrar no caminho.
Use o que tem. Quantas vezes suas
desculpas para fazer algo novo e desafiador são usadas por medo de não
conseguir ou mesmo porque não tem as ferramentas certas. Quanto tempo mais vai
esperar? Porque não iniciar com o que já tem? Geralmente para fazer algo de que
desejamos é preciso começar um movimento interno e ele é de dentro para fora.
Ninguém pode querer por você.
Faça o que pode. Por vezes dedicamos
pouco ou quase nada do melhor de nós mesmos, fazemos as mesmas coisas e desejamos
resultados diferentes, o fato é que não existe milagre, é preciso encarar isso,
existe sim esforço, vontade. Fazer o que pode é assumir que é o timoneiro de
nossas vidas, somos nós, é se colocar no movimento correndo o risco de que os
mares não são sempre calmos, mas você fará o melhor possível para não naufragar
e nem ir de encontro aos rochedos, mas se por ventura isso ocorrer encontre
forças internas para seguir navegando.
Pode ser que executando a
“receita dos sonhos” da loja de bolos, o resultado final não seja o esperado,
mas mesmo se isso acontecer sua vida terá mais sentido, é isso que importa.
Vi e ouvi uma senhora ao piano no auge de seus
92 anos, dizia ela antes de iniciar sua apresentação: “não feche o baú de seus
sonhos”. Por que dizia tal frase? Ao final do percurso de sua existência essa
longeva senhora, ainda mantem aberto o seu baú de sonhos, de possibilidades, de
desejos porque a vida se encarrega de fechá-lo quando nossa finitude chegar. Não
fechemos antes da hora, isso nos deixa vivos e esperançosos.
[Maria Emília Bottini publica no
Rua Balsa das 10 aos Sábados]

Muito bom esse texto. Insisto sempre que devemos encontrar motivos para fazer e nunca para deixar de fazer. Muito obrigado, Maria Emília.
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