01 dezembro 2020

OFERENDAS

Maria Amélia Mano

No fim do dia a gente se junta, se chega, se encontra e se conta de pequenas histórias de fazer chorar, chamar, chover. E me ofereces esse por-de-sol rosa choque. 

E me contas da ventania que limpa o céu. Céu desse mundo mugido, tangido, rogado, regido, rimado, rezado, rangido na roda da carroça que atravessa rio seco de leito rachado a espera. Céu desse anjo Serafim ou Valentim, nomes que são afirmação definitiva ou desejo de igualdade,  qualidade pequenina. Céu que parece longe de nós, mas é onde te e me reconheço e te e me des-cubro todos os dias e noites na estrela primeira que admiramos. Promessa em cachos de palavras suculentas, sumo, saliva, sabor, hálito de mormaço, quentura que despenca feito escombro no crepúsculo, tentáculos líquidos, queda livre de água e alívio, colírio. Corpo cangaceiro, alma aguaceira, poça, pingo e a bicicleta de menino entregador, enfeitada para o Natal. Ternura necessária.

No fim do dia a gente se deseja, agradece, fala e silencia com olhar de bobeira, brejeira, guerreira, arteira e canseira. E te ofereço essa chuva fina e esperançosa.

E te conto desse céu artesão que esculpe nuvens carregadas, desenha plumas, ruas, muros, morros, terras e amarras, mapas de urgências e exílios. Morador de rua, trapos, travas, quebras, pragas, dobras, crostas e pedras que ardem, abre os braços grato pela chuva que chega mansa, molha e liberta, refresca, refaz vias, veredas, vontades, verdades, caminhos de carvão e fuligem na face, escorre, corre em palha, capim, grama, asfalto, chão, pele. Abre a boca como se quisesse beijar, beber, sorver, sugar, suprir. Ninguém nota. Todos ocupados. Mas ele engole chuva invisível. Sente paz, poder, paixão e pena. Pena de todos os que passam com seus velhos medos, criando novos, maiores, melhores. Mísseis imaginários. Utopias raras como carícia, carência de presente. Pressa sem fim. 

No fim do dia a gente imagina encontro de menino e homem. E nos oferecemos esse sonho de não serem solidão. E sorrimos dormindo enquanto anoitecemos em abraços. Que nem crianças pequenas.


Ilustração: Anna Cunha

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