Meus pais, certa vez, foram passear na casa de uma tia no interior do Rio Grande do Sul, (zona rural chamada Esperança Alta). Minha tia Clotilde convidou-nos para assistir no salão paroquial da comunidade, a um filme. O salão paroquial estava lotado e uma tela de lençol branco, esticada na parede, projetava imagens de Teixeirinha e Mary Terezinha (casal de artistas da música gauchesca). Teixeirinha e Mazzaropi foram os maiores fenômenos populares do cinema sul-americano regional. No caso do cantor gaúcho Teixeirinha seus filmes chegaram a superar 1,5 milhões de espectadores, obtidos apenas nos três estados do sul. Um feito memorável para a época. Eventos como esses aconteceram na Itália conhecidos como cinema paroquial, não sem a censura dos padres em cenas “não permitidas” aos paroquianos. Eu teria uns quatro anos de idade. Algumas experiências, iniciadas em tenra idade, demarcam nossa trajetória de gosto, de sabores, de saberes e com eles podemos construir conhecimentos para entender o mundo que nos cerca e a nós mesmos e nossas circunstâncias.
Via, também, alguns filmes que passavam aos sábados à noite.
Lembro de minha mãe levantar de sua cama uma noite e me fez desligar a televisão e ir dormir, para minha lástima o filme estava quase acabando, mas era madrugada, lembro de ter desligado a luz para não chamar a atenção. Fui até o quarto e me deitei, porém depois de algum tempo e sem dormir levantei pé ante pé e decidi voltar à sala para ver o final do dito filme. Era impossível não vê-lo. Decidi levar a televisão para o quarto e a coloquei aos pés da cama, era pequena. Adormeci sem ver o final do filme e a televisão caiu no chão acordando a todos na casa, não vou nem registrar o que aconteceu comigo depois disto.
De alguma forma tudo isso me acompanhou ao longo da vida, amo as histórias contadas pelo cinema, pelos livros, pelas pessoas tanto que me tornei psicóloga para escutá-las profissionalmente. E isso me levou para muitos lugares até culminar no meu doutorado em educação, não poderia ser outro, em que estudei o cinema, a educação e a morte através de um filme japonês "A partida" (2008). Quando morei em Brasília fiz muitos cursos, participei de cine debates criei espaços de discussão de filmes, fui mediadora de outros e realizei muitos movimentos usando o cinema como recurso em sala de aula para educar para a sensibilidade.
Quando voltei a morar em Erechim criei em novembro de 2017 o projeto com recurso público "No cinema e na vida", o nome retirado do livro resultado da minha tese No cinema e na vida: a difícil arte de aprender a morrer. O projeto envolveu a discussão de filmes com a comunidade e também oficinas com adolescentes de obras que se transformaram em filmes. A experiência foi gratificante e a comunidade acolheu e seguiu após o término do recurso público. Com a pandemia migramos para a modalidade online com o nome "Filmes para pensar a vida", chegaram pessoas dos quatro cantos do mundo, muitos de perto e outros de muito longe, do além-mar. Conseguimos congregar diferentes pessoas e pensamentos de forma respeitosa para falar da percepção e sentimentos que imagens provocam e tem sido uma experiência de intenso prazer e crescimento.
Um bálsamo para o viver permitindo que a gente se veja e se perceba em um mundo que, por vezes, se mostra duro, mas que estar junto para discutir filmes é fazer movimentos de leveza e esperança na busca por melhores ventos que sopram sobre nós fazendo que nos sintamos tão sós.
[Maria Emília Bottini publica no Rua Balsa das
10 aos Sábados]

Querida Maria Emília, eu utilizo até hoje a experiência do cinema na formação em graduação, pós graduação e, agora com meus netos... o que me encanta mesmo é buscar filmes aleatórios e provocar as discussões... mas alguns deles, nunca mais assisti de forma tranquila feito "Uma linda mulher"... é, agora, para mim, só consigo assistir analisando... foi-se o lúdico e entrou o trabalho... que tal? Vou procurar sua pesquisa prá ler
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