Em março de 2020 uma pandemia se instalou
no Brasil e trouxe com ela um vírus chamado Covid-19. Na China já havia chegado
no ano anterior em dezembro. Mudanças na rotina da vida diária se fizeram
presentes entre nós, a movimentação social foi substituída por isolamento
social, foi preciso passar a usar máscaras diariamente, álcool, higienização
frequente das mãos, mudanças necessárias para que a vida fosse preservada. A
vida e não a morte. E a morte se achegou entre nós.
A pandemia trouxe a morte escancarada, ultrapassamos
os 290.000 mortos pela Covid-19 neste mês de março e segue ceifando vidas,
outras mortes seguem acontecendo, pois a morte não tem folga trabalha 24 horas
por dia, ou seja, já existia antes da pandemia. Somos uma nação em luto, os pais, esposas, maridos e filhos que choram
a dor de suas perdas, a dor da partida e das despedidas sem rituais funerários.
Conversava com Amélia, amiga de longa
data, juntas estivemos em uma das experiências mais lindas de trabalho em
equipe em saúde pública que vivenciei, uma contadora de histórias, escritora e
apaixonada pela medicina popular, uma médica de almas. Amo essa amiga, moramos distantes,
mas isso não nos impede que nossa amizade e trocas existam e que vez ou outra
nos encontremos. Ela me convidou para participar de um grupo que escreve para
entender a vida e isso me faz bem, sigo acreditando nas palavras e que elas tem
efeito sobre nós.
Durante a conversa ela me diz: “Emília
quando estamos atravessando uma floresta densa é preciso ter uma luz nas mãos.
Qual é a sua luz para atravessar a floresta?”
Seguiram-se os dias e com eles me desafiei
a pensar no que me faz seguir em frente diante da floresta densa, espessa,
escura a me provocar medo, angústia, revolta, adoecimento, raiva... Encontrei entre
as minhas ideias e pensamentos minha maior luz, alimentada por outras tantas
coisas que precisei fazer uma lista para não esquecer de que minha luz não é
somente minha é alimentada, também, por faíscas de muitos outros inclusive
alguns que não estão mais vivos.
Essas faíscas estão em meus pais, meus
irmãos, cunhadas, marido, amigos de longe e de perto, Maria Valentina minha
sobrinha de 8 aninhos, livros, filmes, escrita, pacientes, projetos, sentimentos,
alimentação, atividade física, respiração, moradia e tantas coisas que no
caminhar a própria floresta vai permitido conhecer possibilidades. A floresta
nos ensina, também, se desejarmos aprender a travessia ensina.
Fiquei pensando na urgência que temos de
ultrapassar momentos de floresta, mas é preciso ter paciência e persistência,
além de luz interna é preciso fé na travessia. Fé de que vai passar, que vai se
conseguir ultrapassar os momentos difíceis, mas é preciso manter o movimento
mesmo que com passos mais curtos, quase que imperceptíveis.
Por vezes mesmo tendo luz para a travessia
sentiremos momentos ruins e a escuridão pode nos penetrar, então é necessário
parar e calmamente observar a floresta, respirar profundamente e ir se
acalmando e acolhendo o medo, pois ele nos paralisa, é preciso dar o próximo
passo para enfrentar o que vier, não temos escolha senão o movimento.
[Maria Emília Bottini publica no Rua Balsa das
10 aos Sábados]

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