Há 10 mil anos houve uma terrível guerra,
não foi como outras, por simples disputa de território ou por conquista de
riquezas, bens naturais e estratégicos, quer dizer, não foi só por isso. O
principal objetivo também não era impor a cultura de uma espécie sobre outras,
eram mais que isso. Havia um total desprezo por outras formas de vida, mesmo as
formas de vida vegetais, mesmo a dos animais não inteligentes e civilizados.
Não se reconhecia o direito à vida, de vida nenhuma que não a humana, que não a
do homem civilizado. O desejo de extermínio era tão grande que nem mesmo se
respeitava os próprios interesses dos vencedores pelo território conquistado, pelos
bens materiais e naturais, tudo era, mais cedo ou mais tarde, arrasado de um
modo que a vida não pudesse mais voltar a florescer, não ao menos naquele
lugar.
Foi uma guerra nunca declarada de fato.
Primeiro os humanos, sem que nenhum outro povo entendesse exatamente porque ou
tivesse interesse em entender, invadiu a civilização mais próxima e iniciou a
extração de bens naturais. Para isso bastou transformar a espécie mais fraca em
vassalos, lhe obrigando a trabalhar e produzir. E tudo que produzia era
transferido para a colônia. Quando a ocupação acabou, nenhuma vida restava, nem
vegetal, nem animal, nenhuma cultura, nenhum recurso. Só restaram da
civilização, entes próspera e florescente, os que fugiram para outros lugares e
escravos levados para trabalhar na colônia.
Foi o primeiro genocídio provocado
artificialmente por uma espécie inteligente e supostamente civilizada. Depois,
com a experiência adquirida nesta primeira invasão e conquista, os humanos
partiram para outras conquistas, cada vez mais rápidas, cada vez mais
eficientes e devastadoras. Então, outras espécies se deram conta do que estava
acontecendo e entenderam os riscos que os seres humanos representavam para
todas as outras espécies inteligentes, estando elas próximas ou não.
Povos inteiros estavam sendo exterminados,
culturas estabelecidas a milhares de anos estavam sendo subjugadas e
destruídas. Até aquele momento a violência desmedida da espécie humana e suas
incursões militares, eram entendidas como uma situação que só dizia respeito às
partes envolvidas. Até então não se entendia que o cósmico era afetado quando
uma espécie deixava de existir, quando ecossistemas inteiros eram devastados.
Não se entendia que estas eram peças importantes para o todo e o equilíbrio do
universo.
Então um Conselho foi criado e começou-se a
estudar as invasões, as devastações e os sofrimentos já provocados pelos seres
humanos, suas motivações, seu modo de pensar, ser e estar no universo com
outras serves vivas.
As outras espécies inteligentes entenderam com
perplexidade, que para continuar se expandindo, para continuar perpetuando seu
modo de vida, a espécie humana precisava continuar invadindo, apropriando-se de
recursos de outros povos e essa sede, essa fome humana precisava ser contida,
uma vez que colocava toda vida existente em risco de extinção.
O Conselho forjou uma aliança de proteção
mútua com objetivo de frear as ambições humanas e proteger-se de futuras
incursões militares. A agressão a um povo, a uma espécie viva, mesmo que não
inteligente ou ainda não civilizada, seria considerada agressão ao equilíbrio
das espécies e as formas de vida como um todo.
Um emissário do Conselho foi enviado para
iniciar diálogo com a espécie humana, para buscar um pacto de paz. Ele nunca
voltou, nem notícias dele chegou até o Conselho. A resposta veio pouco tempo
depois. Era nítida e dirigida ao Conselho e como tal, grande, devastadora e
inequívoca. Armas radioativas arrasaram milhões de vidas em poucas horas. Nada
restou, nada, nem mesmo o que ser saqueado. A devastação foi total e completa.
Até a solidariedade entre as espécies foi impossibilitada. A ação do Conselho
não era possível naquela situação, uma vez que nada sobrou, nenhuma vida a ser
resgatada, nenhum bem cultural a ser preservado. Em um só dia foram extintas
milhões de vida, milhares de experiências acumuladas em milênios de existência.
Mais um genocídio, uma espécie a menos a aumentar o desequilíbrio do universo.
Estava entendido que a diplomacia não era
uma possibilidade. A espécie humana desejava o confronto e se imporia pelo
medo, pela força, pela brutalidade de seus propósitos. Iniciou-se assim os
preparativos para uma longa e inevitável guerra. De um lado o desejo de manterem-se vivos,
preservar a diversidade das espécies, do outro o desejo de morte, de exterminar
toda a confusa diversidade de vidas, culturas e construir um domínio único e
superior.
A guerra arrastou-se por várias décadas,
muitas vidas foram exterminadas, tantas que nem é possível saber com exatidão.
Outras tantas espécies foram expulsas de seus lares tradicionais e espalhadas
pelo universo, obrigadas a viver exiladas e do favor de aliados. Regiões
inteiras foram evacuadas, outras escravizadas. Além da guerra em si, a fome, o
desespero e a desesperança tiraram outras tantas vidas. No início de todo o
terror, a espécie humana parecia imbatível, por onde passava arrasava tudo,
nada sobrava. Porém, no final foram derrotados.
Imediatamente ao fim da guerra, iniciou-se
os preparativos para recuperar o que poderia ser recuperado, para preservar
vidas e o equilíbrio do universo. Decidiu-se que mesmo em tempo de paz, mesmo
com o fim desta guerra que lhe obrigaram a se unir, o Conselho, agora nomeado
Conselho dos Povos Unidos, deveria ser mantido para ajudar na reconstrução de
tudo que pudesse ser reconstruído, também para preservar a memória das espécies
exterminadas, das culturas extintas e principalmente, para prevenir que outra
guerra acontecesse.
Uma Conferência foi convocado para decidir
o que fazer com os seres humanos, agora derrotados e mantidos confinados em seu
território original. As delegações, representando todos os povos, acomodaram em
torno de uma enorme mesa redonda, especialmente construída para essa ocasião. A
conferência durou dias e nela havia posições bastante claras, embora nenhuma
definitiva. O diálogo era franco e sem subterfúgios. Ao redor da mesa redonda,
buscava-se realmente uma solução de consenso que contemplasse todas as
preocupações dos Povos ali reunidos.
Uma parte entendia e defendia o extermínio
total e completo até do último da espécie humana.
Outra parte, mais compreensiva e disposta a
perdoar e recomeçar, defendia que não se deve pagar o mal com o mal e o
genocídio não era honroso, mesmo nesta situação.
Uma terceira parte defendia que os seres
humanos, sobreviventes à guerra, deveriam ser esterilizados, assim, quando o
último, naturalmente, morresse, a espécie deixaria de ser uma ameaça para todas
as outras. Enquanto sobrevivessem, nesta proposta, os seres humanos deveriam
ser desprovidos de armas, do exército e da maior parte de sua tecnologia. Além
disso, não lhes seria permitido sair do território original, limitando-se as
fronteiras anteriores a guerra. A única
atividade econômica permitida seria o trabalho no campo. Deveriam plantar e
prover, além de si mesmos, outros povos prejudicados por eles.
O
temor generalizado e justificado, era que os seres humanos pudessem se
recuperar e outra guerra acontecer, uma vez que a espécie se achava superior a
toda as outras e a única diga de viver no universo. Todos os Povos Unidos reconheciam a
inigualável força de vontade, criatividade e os avanços científicos e tecnológicos
dos seres humanos, mas isso, a contrário de admiração, despertava temor. Mesmo
assim, era unanime o desejo da maioria de se afastar dos sentimentos e das
ações motivadas pela guerra. E exterminar uma espécie inteira, mesmo que tão
violenta, impiedosa e cruel, ao invés de preservar o equilíbrio das forças do
universo, iria causar mais desequilíbrio ainda, pois os igualariam aos seres
humanos na capacidade de desprezo ao próximo.
A vontade de todos, acima do temor, acima
da desconfiança, acima até do desejo legítimo de vingança, era construir a paz,
uma verdadeira e permanente paz. Coisa que não se pode estabelecer em cima de
um genocídio, mesmo que de um inimigo tão cruel. O entendimento final veio após
muitos dias de debates acalorados, porém jamais desrespeitosos e agressivos.
— O ser humano precisa do perdão, do nosso
perdão, talvez não por ele, que não parece merece-lo e nem o desejar, porém por
todos nós, que não merecemos carregar essa dor por toda a nossa existência,
esse ódio que facilmente pode se tonar a semente de uma nova guerra.
Foi redigido, naquela época, uma Declaração
Universal dos Direitos dos Povos e pactuado que todos ali reunidos, além de
outros direitos universais básicos, têm o direito de perdoar.
— Perdoar sim, porém não esquecer. Perdoar,
seguir em frente, dar a possibilidade de redenção, jamais esquecer e nem
relegar a indiferença, como se nada de errado, neste caso, de muito errado e
horrendo, houvesse acontecido.
Na Conferência, decidiu-se que o ser humano
deveria compreender todo o mal que causou, deveria reconhecer todas as centenas
de milhões de vidas que deixou de existir por sua causa, reconhecer que motivou
o desequilíbrio do universo, que perduraria por centenas de anos, durante os
quais não estava afastada a possibilidade de outras guerras. Deveria, o ser
humano, ter tempo para se arrepender e mudar e então poderia até ser admitido
no Conselho dos Povos Unidos.
Ficou estabelecido que o ser humano seria
preservado, mas toda a cultura e a tecnologia seriam expropriadas e os seres
humanos sobreviventes da guerra seriam transferidos e espalhados por diferentes
latitudes de um novo planeta, o mais longe possível de qualquer outra espécie
com capacidade de viajar pelo espaço e se comunicar com outras civilizações.
Nenhum recurso tecnológico, nenhuma
ferramenta lhes seria disponibilizado, nenhum contato com a espécie seria
realizado por nenhum dos membros do Conselho dos Povos Unido. O ser humano
seria exilado e a sobrevivência da espécie deveria ser obtida a partir dos
recursos naturais do novo planeta, cuidadosamente escolhido por ter capacidade
de preservar a vida humana. Nada além disso. Uma nova civilização poderia
começar, mas a sobrevivência ou não só dependeria dela.
E assim aconteceu. A espécie humana, não mais
do que alguns milhares de sobreviventes da guerra, foi realocada no sistema
solar, no planeta terra, o terceiro a partir de seu sol e o único habitável.
planeta cheio de recursos naturais, onde poderiam sobreviver a partir de seus
esforços e recomeçar a civilização humana e assim fizeram. O planeta natal do
ser humano foi transformado em um museu, onde estudantes e turistas de todas as
espécies visitam regularmente para não esquecer dos horrores da guerra. Esta
foi uma das formas de preservar a memória e através dela perpetuar as
lembranças da guerra para as próximas gerações, assim, preservando a história,
concluíram os povos, a guerra poderá ser evitada e a as chances da paz ser
perpetuada é maior.
Além das memórias da guerra, o museu
preserva a história da espécie humana, desde a evolução de espécies inferiores,
as mudanças físicas nos corpos e geológicas na crosta do planeta, até seus
feitos artísticos, a cultura e a tecnologia. Faz parte dos planos dos Povos
Unidos, um dia, caso o ser humano consiga se redimir e evoluir, devolver o
planeta a espécie. Até lá o planeta é administrado pelo Conselho dos Povos
Unidos como um instrumento de estudo, aprendizagem e lembrança constante da
importância da paz para preservar a diversidade das espécies e o equilíbrio do
universo.
Por precaução, o Conselho resolveu que a
evolução humana seria monitorada periodicamente no novo planeta e isso vem
acontecendo desde então. Uma estação sentinela, atualmente nomeada Planeta 9,
foi construída na borda do sistema solar, de onde monitora a colônia
humana. A estação Sentinela Planeta 9,
só ganhou esse nome nos últimos anos, graças a descoberta, pelos seres humanos,
de uma influência gravitacional aparentemente inexplicável sofrida por objetos
transnetunianos em órbita estável no cinturão de Kuiper.
— Os humanos nos descobriram, somos o Planeta 9,
essa era a piada que se espalhou na
Estação, tão logo a informação capitada pelos equipamentos de monitoramento foi
divulgada.
A estação foi projetada cuidadosamente para
seguir uma trajetória elíptica em torno do Sol, com um período orbital de dez
mil anos, a uma distância orbital média de cerca de seiscentas unidades
astronômicas, o que equivale a 90 bilhões de quilômetros. Distância que não
representa dificuldade para monitorar os seres humanos e nem memo para a
realização de incursões ao planeta terra, utilizando-se da tecnologia
disponível aos membros do Conselho dos Povos Unidos. Por outro lado, essa é uma
distância quase intransponível para os seres humanos, no atual estágio de
desenvolvimento tecnológico.
A inclinação da estação sentinela é
estimada em mais ou menos 30 graus, formando uma órbita altamente excêntrica. A
previsão inicial era que seria impossível detecta-la, ao menos pelos próximos
quinhentos anos. No entanto, é nítido que a criatividade humana foi
subestimada.
Embora nenhum astrônomo, até então, tenha
detectado a estação, já é consenso entre as diferentes agencias e centros de
pesquisas espaciais da Terra, que algo exerce influência nos corpos celestes,
nesta região do espaço, embora não possa ser detectado. A hipótese mais aceita
até o momento, entre os astrônomos humanos, é que se trada de um novo planeta,
o nono do sistema solar. Especula-se, a partir de projeções matemáticas, que
este planeta seja provavelmente um gigante gelado ejetado, de composição
similar à de Urano ou Netuno, numa mistura de rocha e gelo com uma camada de
gás e que esteja na borda do Sistema Solar.
A hipótese de um novo planeta no Sistema
Solar é absurda, porém é inegável a criatividade em, não podendo visualizar
diretamente um corpo celeste, conseguir medir sua influência gravitacional. No
momento, mesmo diante destas descobertas e dos contínuos esforções humanos em
olhar e entender o céu, a existência da Estação Planeta 9 continua distante de
ser descoberta, até porque ela continuará a ser confundida com objetos
transnetunianos do cinturão de Kuiper, por muito tempo, até que os humanos
consigam observá-lo diretamente.
Todas as atribuições, da equipe
multiespecie da Estação Planeta 9, foram previstas em um protocolo escrito há
dez mil anos. Na última página consta as seguintes instruções:
Art. 342: na hipótese do ser humano
conseguir sair do sistema solar, o Conselho dos Povos Unidos deverá ser
informado imediatamente;
Art. 343: na ocorrência prevista no artigo
342, o Conselho dos Povos Unidos deverá convocar uma Conferência com a
finalidade de discutir e deliberar novas ações a respeito do futuro da espécie
humana;
Art. 344: este protocolo entra em vigor
agora e tem validade enquanto a espécie humana for considerada viável.
Há
poucos dias uma sonda não tripulada da Terra, a Voyage 1, chegou e atravessou à
borda do sistema solar. Esse feito extraordinário em tão pouco tempo de
evolução da civilização humana, acendeu um sinal de alerta. O comunicado enviado ao Conselho dos Povos
Unidos, pela equipe de monitoramento da Estação Planeta 9, informa:
Em 13 de dezembro de 2010, conforme
contagem de tempo da espécie humana, na cultura ocidental do planeta, a sonda
não tripulada Voyager 1, lançada da terra
em 5 de setembro de 1977 para estudar Júpiter e Saturno (designação humana),
prosseguiu ruma ao espaço interestelar. A sonda, no momento em que atingiu a
zona de heliopausa, soma 43 anos, 6 meses e 7 dias em operação, recebendo
comandos de rotina e transmitindo dados para a Terra. A sonda viaja a uma
velocidade de 17 km/s e é o primeiro artefato humano a chegar à fronteira do
Sistema Solar, desde a realocação da espécie no planeta terra do sistema solar.
Alguns povos acham cedo para a realização
da Conferência que irá rediscutir os destinos da espécie, afinal, foi apenas
uma sonda não tripulada que saiu do sistema solar, com uma velocidade irrisória
e centenas de anos devem se passar até que a espécie consiga descobrir a
existência de inteligências fora da Terra. Outros povos, sobretudo os que
tiveram seus planetas arrasados, acreditam que uma intervenção do Conselho, no
sentido de evitar a contínua evolução tecnológica da espécie humana, deve ser
feita já. Há ainda uma terceira parte que julga não ser necessário, afinal,
dizem, os seres humanos podem se destruir sozinhos. Para confirmar seus
argumentos, citam as constantes guerras entre as nações terrestres, as brigas e
desentendimentos por religião, crenças de superioridade intelectual de uma
cultura sobre a outra, como se não fossem da mesma espécie e sobretudo a
degradação ambiental causada ao planeta em tão pouco tempo de ocupação
humana.
Nos próximos anos o Conselho irá se reunir
para decidir em definitivo o que será feito com os seres humanos. Até isso
acontecer, um longo estudo foi encomendado e duas Equipes, formadas na Estação
Sentinela Planeta 9, foram formadas. A primeira deve produzir um relatório
favorável a permitir a continua evolução tecnológica do ser humano e sua volta
ao convívio com outras nações inteligentes da galáxia. A segunda equipe deve
elaborar outro relatório detalhando os riscos desta contínua evolução, para a
vida e o equilíbrio no universo, na hipótese de o humano voltar a conviver com
outras espécies.
Até lá a gente espera.
[Ernande Valentin do Prado publica na Rua Balsa das
10 às 6tas-feiras]

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