LÁ VEM HISTÓRIA 1
Todo mundo
que lida com público tem história pra contar, médico não é diferente. De coisas
engraçadas a coisas escabrosas que a ética recomenda serem guardadas como segredo,
sempre tem coisa que fica marcada na memória. Entretanto não é antiético contar
o que aconteceu publicamente ou se não há como identificar o ator principal do
causo. Neste caso é fácil não mencionar o nome, visto que já não me recordo
mesmo. Num dos poucos sábados que estava de sobreaviso no serviço onde atendia
durante a semana, chegou uma criança de uns 10 anos carregado pelo padrasto, gemendo
de dor. Achei que pedir a presença de uma das pediatras era inadequado diante
da urgência que pressenti. Examinei a
criança e identifiquei a dor na articulação coxofemoral com sinais de flogose.
Sem identificar trauma nem outra causa aparente fiz contato telefônico com um
ortopedista que considerou a possibilidade de uma necrose asséptica de quadril,
que confirmada teria resolução cirúrgica. Entre atendimento, procura de vaga
hospitalar, remoção etc passou-se a manhã toda. Criança atendida pela clínica
ortopédica, caso resolvido, uma semana depois recebo a visita de mãe e filho com um colar feito pela mãe em argila
e um vaso de violetas antes da segunda consulta do dia. Felizes pela boa
resolução do caso vieram agradecer. Senti o carinho deles como presente mesmo.
Eu havia feito minha tarefa: atender e encaminhar.
Segunda,
terceira, quarta e quinta consultas já resolvidas, e entra uma paciente antiga,
que vinha ao consultório com frequência. Ficou me olhando sem sorrir (o que
nunca antes havia acontecido) até o meio da consulta. E parece que não se
aguentou mais e falou meio engasgada: “eu jamais esperava isto de você”! Não
entendi nada e devo ter feito uma cara de EPA... Aí ela apontou para as violetas que estavam
sobre a mesa.... secas, secas, secas!!! Aquelas frescas violetas do início da
manhã!!! COMO? Estavam tão secas que ao
tocar nas folhas esfarinhavam! Em alguma
hora antes da quinta consulta isto acontecera sem que eu me desse conta! Nem
sei o que disse naquela hora mas fiquei encasquetada e no fim do turno comentei
com o meu chefe que falou sorrindo: É, existe olhar de “seca pimenteira”! Você não
sabia? E eu lembrei que não tinha me sentido mal como costumava acontecer ao
atender uma certa paciente que viera neste dia... será????
Maria
Lúcia Futuro Mühlbauer
Escreve às segundas
feiras

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