26 abril 2021

LÁ VEM HISTÓRIA 1

 

 


LÁ VEM HISTÓRIA 1

Todo mundo que lida com público tem história pra contar, médico não é diferente. De coisas engraçadas a coisas escabrosas que a ética recomenda serem guardadas como segredo, sempre tem coisa que fica marcada na memória. Entretanto não é antiético contar o que aconteceu publicamente ou se não há como identificar o ator principal do causo. Neste caso é fácil não mencionar o nome, visto que já não me recordo mesmo. Num dos poucos sábados que estava de sobreaviso no serviço onde atendia durante a semana, chegou uma criança de uns 10 anos carregado pelo padrasto, gemendo de dor. Achei que pedir a presença de uma das pediatras era inadequado diante da urgência que pressenti.  Examinei a criança e identifiquei a dor na articulação coxofemoral com sinais de flogose. Sem identificar trauma nem outra causa aparente fiz contato telefônico com um ortopedista que considerou a possibilidade de uma necrose asséptica de quadril, que confirmada teria resolução cirúrgica. Entre atendimento, procura de vaga hospitalar, remoção etc passou-se a manhã toda. Criança atendida pela clínica ortopédica, caso resolvido, uma semana depois recebo a visita de mãe  e filho com um colar feito pela mãe em argila e um vaso de violetas antes da segunda consulta do dia. Felizes pela boa resolução do caso vieram agradecer. Senti o carinho deles como presente mesmo. Eu havia feito minha tarefa: atender e encaminhar.

Segunda, terceira, quarta e quinta consultas já resolvidas, e entra uma paciente antiga, que vinha ao consultório com frequência. Ficou me olhando sem sorrir (o que nunca antes havia acontecido) até o meio da consulta. E parece que não se aguentou mais e falou meio engasgada: “eu jamais esperava isto de você”! Não entendi nada e devo ter feito uma cara de EPA...  Aí ela apontou para as violetas que estavam sobre a mesa.... secas, secas, secas!!! Aquelas frescas violetas do início da manhã!!! COMO?  Estavam tão secas que ao tocar nas folhas esfarinhavam!  Em alguma hora antes da quinta consulta isto acontecera sem que eu me desse conta! Nem sei o que disse naquela hora mas fiquei encasquetada e no fim do turno comentei com o meu chefe que falou sorrindo: É, existe olhar de “seca pimenteira”! Você não sabia? E eu lembrei que não tinha me sentido mal como costumava acontecer ao atender uma certa paciente que viera neste dia... será????

 

        

                      Maria Lúcia Futuro Mühlbauer

                       Escreve às segundas feiras

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