02 abril 2021

O GRÃO DE FEIJÃO, ALICE E O MEDO DE IR AO SERVIÇO DE SAÚDE


Esse texto foi originalmente publicado em: 27 de julho de 2011, no Blog Cuidado, Saúde e Cidadania.

Domingo Alice introduziu um grão de feijão no nariz. Nada demais para uma menina de três anos e alguns meses. O curioso é que dois dias antes eu pensava na solidão de pai:

— essa menina não faz nenhuma loucura. Não coloca coisas no nariz, na orelha como as outras crianças.”

Foi só pensar e aconteceu. Será premonição ou mero acaso? Melhor nem pensar.

Hoje (passado o susto) perguntei a um colega que se prepara para ser pai, o que ele fará quando a filha enfiar um feijão no nariz. Ele disse que me ligaria (pois sou enfermeiro) para saber o fazer. Então perguntou por que eu queria saber e respondi que para lhe preparar. Ele pensou que era praga (a gente deve tomar muito cuidado com o que fala). Imaginei que estava lhe preparando para o que a filha poderá fazer, mas ele achou que era praga.

Tudo bem, comunicação é assim mesmo. O natural, dizia uma professora de linguística, é a gente não se entender. Um fala e quer dizer uma coisa e o outro entender coisa completamente diferente. Ela frisava que o fato de algumas pessoas se entender é espantoso. A raposa do Pequeno Príncipe diz a mesma coisa, de um jeito mais bonito.  Acho que a professora de linguística pode até ter citado a raposa, mas não fez a referência.

Por falar em ligar para um Enfermeiro, esperando que ele soubesse o que fazer, foi exatamente isso que fiz. Liguei para o Altair, que é pai e enfermeiro de pronto socorro. Por sinal o melhor que já vi trabalhando nesta função. Ela era capaz (no tempo de escola) de puncionar veias em membros superiores sem garrotear, puncionava veia subclávia com muita facilidade e até artéria. Entubava em três segundos contados no relógio. Também desenvolveu uma técnica para passar sonda vesical sem o equipamento necessário (e com segurança) em situação de emergência.

Altair é o cara, o Enfermeiro e trabalhava, na época, em um grande pronto socorro.

Depois de falar com ele fiquei mais tranquilo.

Alice enfio o grão de feijão no nariz por volta das 11 horas. Ele ficou preso na cavidade nasal, não estava profundo, dava para ver a olho nu sem nenhuma dificuldade. Não era grande, inclusive não impedia a passagem de ar e nem incomodava tanto a ponto de ela mudar sua rotina de brincadeiras ou de alimentação.

Tentei tirar com uma pinça caseira, e teria consegui sem dificuldade, se os reflexos naturais não a impedissem de colaborar um pouco mais do que já estava colaborando.

Fiquei muito nervoso e com medo quando percebi que não conseguiria retirar o feijão. Acho que qualquer pai ficaria. Ser Enfermeiro não muda essa natureza ou talvez não mude só a minha.

Meu nervosismo e o medo não eram só pelo risco de uma bronca aspiração, como deveria ser. O meu maior medo era ter de levar Alice em um hospital para fazer um procedimento profissional.

Pode parecer estranho um enfermeiro ter medo de hospital. (Na verdade não tenho nenhum medo de hospital, mas das pessoas que o habita – hoje em dia meu medo não é mais só de hospital, é também de UBS, de UPA de ESF, clinicas e de todo e qualquer aparato de saúde, seja público ou privado) infelizmente minha vivencia em hospital como paciente ou acompanhante é péssima.

Após o almoço, ainda muito nervoso, mas vendo Alice brincando sem dificuldade, fui dormir um pouco, pois quando se tem um grande problema e não se sabe o que fazer, às vezes pode ser bom não fazer nada. Pensei que ao acordar (caso conseguisse dormir) teria uma solução.

Quando acordei descobri que Larissa, (minha esposa) tinha levado Alice ao serviço de saúde. Relatou que foi bem atendida pelo médico, que ele foi muito atencioso e cordial. Isso para mim foi um espanto terrível (e bom). Disse ela que em compensação a enfermagem foi grosseira (coisa muito comum ultimamente). Para variar não tinha enfermeira, só técnicos. Mas de fato não muda quase nada quando tem. Em outra situação fui ao hospital e tinha enfermeira e foi ainda pior. Nem me deixou dizer o que sentia. Foi logo dizendo: não tem vaga.

Mesmo o médico sendo cordial, nada conseguiu fazer. Disse inclusive que não tinha feijão no nariz de Alice. Que poderia até ter antes, mas que já devia ter saído sozinho, pois nem com a luz do otoscópio conseguiu ver. Uma conclusão absurda, pois a olho nu eu continuava vendo o feijão. Porém a ida ao hospital serviu ao menos para deixar Alice satisfeita. Ela passou a acreditar que não tinha feijão no nariz. (Veja que poder tem a palavra do médico - até na cabeça das crianças esse poder funciona. Mesmo quando fala uma besteira sem tamanho.)

O fato é que o feijão continuava na cavidade nasal de Alice e eu não podia ignorar isto para me tranquilizar, como foi capaz de fazer o médico.

A situação dos serviços de saúde no interior é muito difícil. Trabalha-se em instituições que nem podem ser chamadas de hospitalar. Faltam equipamentos simples (como uma pinça para retirar feijão do nariz). Falta coisa mais elementar ainda: aparelho de pressão, termômetro, maca. Medicações. Enfim falta muita coisa básica. Mas, sobretudo, faltam profissionais capacitados, com consciência de sua importância, capacidade técnica, boa vontade, coragem de ser sincero e honesto com os princípios que jurou defender. Almeida-filho (2011, p. 11) diz que “a força de trabalho ideal para atendimento no SUS – ou seja, profissionais qualificados, orientados para evidência e bem treinados e comprometidos com a igualdade na saúde – não corresponde ao perfil dos profissionais que operam o sistema”.

Almeida está certo. A crise de recurso humano no SUS não é só quantitativa, é também qualitativa. Hoje há muitos profissionais trabalhando, mas infelizmente não têm o perfil necessário para atender a demanda da população. Mesmo quando o serviço de saúde oferece as condições necessárias. (O que é raro)

Os profissionais estudam em escolas públicas, ou seja, o custo do ensino, de sua preparação é dividido por todos, mas depois de formados querem escolher o que fazer e onde fazer. Não existe nenhuma lei, nenhuma norma que lhes diga que devem prestar serviço aonde à população precisa. Mesmo quando estudam em escolas particulares o custo é de todos, pois sempre há renúncia fiscal ou bolsa de estudo pago pelo estado. Isso é justo?

Pode-se imaginar que quando se paga (de novo) o atendimento é melhor. Na verdade, não é. Eu poderia ter levado Alice em um hospital particular, seria tão caro, certamente poderia pagar (desta vez), mas tenho tanto medo do serviço particular quanto tenho do serviço público. Os profissionais são os mesmos, formados nas mesmas escolas, são quase todos da mesma classe e têm, quase todos, a mesma índole. (sei disso na pratica – já trabalhei em hospitais com atendimento particular). A maquiagem a que se submetem no trato com os “clientes” não consegue disfarçar o pouco caso que vai na alma. Quem tem caráter, ética, vergonha na cara não consegue fazer diferença no tratamento, no procedimento necessário e insubstituível. Quem não tem...

O feijão que estava no nariz de Alice não apresentava nenhum efeito negativo, naquele momento e eu não via risco imediato. Não ao menos até ter que ir a um hospital.

Só de imaginar a truculência do atendimento, ficava nervoso, imaginava ela sendo segurando a força, sem paciência e um sujeito mal encarado e sem paciência enfiando uma pinça em seu nariz. Isso é o que eu conseguia visualizar.

Seria assim mesmo?

Foi mais ou menos assim no local de atendimento em nossa cidade. Depois de um atendimento equivocado e desqualificado concluíram que não tinha feijão no nariz de Alice. Não concluíram que estavam incapacitados para realizar o procedimento, mas que não tinha feijão. O que a mãe sabia e via. O que sentia Alice foi descartado porque o médico não viu o obvio. Não conseguiu admitir que não conseguia ver o feijão e por isso não poderia ajudar. Calil (2010) diz que a formação biomédica criou a possibilidade de experts em doenças, que não veem o doente e menos ainda a pessoa. E feijão no nariz também não, pelo visto. Pode até ter pensando, mas ao menos desta vez não disse, que a mãe estava inventando uma queixa só para ir ao hospital.

Neste caso era uma queixa que se enquadrava perfeitamente no modelo biomédico. Era uma “dor visível” em uma determinada parte do corpo. E quando essa dor não é localizada, o que acontece? O meu maior medo, além da dor física que sentiria Alice durante o procedimento, era ter o sentimento de dor subjetiva dela (do pai e da mãe) desqualificados diante da necessidade de retirar o feijão a qualquer custo.

Sei que com sedação seria mais simples, mas também sei que dificilmente usariam sedação, ao menos no interior, aonde falta até termômetro. Por isso protelei a ida ao serviço de saúde.

Por acaso alguém já se perguntou por que um serviço de urgência que não tem como retirar um feijão do nariz de uma criança ainda funciona? Não é o gasto com pessoal maior do que os reais benefícios à população? Não seria mais barato e eficiente investir em prevenção e promoção de saúde ou formar um consorcio com outras cidades e montar um serviço de urgência eficiente?

Então, por volta das 19 horas lembrei desse meu amigo que trabalha em um grande pronto socorro público. Liguei.  Ele disse que lá a sedação é feita com uma medicação apropriada, este é o procedimento que utilizam. Também disse que se trata de rotina esses acontecimentos. Aí fiquei tranquilo. Pensei comigo: durante o sono tento retirar o feijão e se não der certo, amanhã falto ao trabalho e levo Alice ao HUSE  - Hospital de Urgência de Sergipe, o mais próximo de Paripiranga, que era onde eu morava na época.

Para que fique claro: não tinha medo do feijão, mas de como seria feito a retirada do feijão. De ter que entrar em contato novamente com a capacidade dos profissionais de saúde de não ter nenhum cuidado, nenhum tato, nenhuma destreza. Isso é apavorante, principalmente para um profissional de saúde como eu ou para um profissional de educação que prepara profissionais de saúde.

Os profissionais de saúde, quase todos eles, parece que perderam a capacidade de cuidar. Cassell (1985), citado por Valla (1999) diz que a medicina do ocidente é pouco sensível para a expressão humana, enquanto a população apresenta sentimentos intensos que vão além da existência dos indivíduos. A dor e o sofrimento para o médico é física. Já a população não faz distinção tão clara entre as dimensões física e transcendental. E essa incapacidade de sentir a minha dor e da família, é o que me espantava e me afastava da ideia de ir ao serviço de saúde.

Felizmente minha intuição estava certa. Pela manhã, enquanto preparava Alice para ir ao hospital, o feijão saiu sozinho. Na minha mão, sem eu nada fazer.

Alegria? Não foi alegrei, isso não exprime o que senti, foi um alívio, foi um sofrimento a menos, foi... nem sei bem o que foi que senti.

Desta vez não precisei ir ao serviço de saúde, mas quantas outras pessoas foram? Quantas destas podem dizer que receberam um tratamento digno?

Mas será que precisa ser assim ou melhor, será que sempre será assim

REFERENCIAS

 VALLA, V. V. Educação popular, saúde comunitária e apoio social numa conjuntura de globalização. Cadernos de Saúde Pública, v. 15, p. 7-14, 1999.

ALMEIDA-FILHO, N. Higher education and health care in Brazil. The Lancet, v. 377, n. 9781, p. 1898-1900, 2011.

CALIL, L. C. Reflexões sobre Ética e o Custo da Consulta Médica. Psychiatry on line Brasil. Rio de Janeiro: 2006 mar 30 [acessado em 26 jul 2010]. Disponível em: http://www.polbr.med.br/ano99/calcons.php .


[Ernande Valentin do Prado publica na Rua Balsa das 10 às 6tas-feiras]

 


 

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