Domingo Alice introduziu
um grão de feijão no nariz. Nada demais para uma menina de três anos e alguns
meses. O curioso é que dois dias antes eu pensava na solidão de pai:
— essa menina não faz
nenhuma loucura. Não coloca coisas no nariz, na orelha como as outras
crianças.”
Foi só pensar e aconteceu.
Será premonição ou mero acaso? Melhor nem pensar.
Hoje (passado o susto)
perguntei a um colega que se prepara para ser pai, o que ele fará quando a
filha enfiar um feijão no nariz. Ele disse que me ligaria (pois sou enfermeiro)
para saber o fazer. Então perguntou por que eu queria saber e respondi que para
lhe preparar. Ele pensou que era praga (a gente deve tomar muito cuidado com o
que fala). Imaginei que estava lhe preparando para o que a filha poderá fazer,
mas ele achou que era praga.
Tudo bem, comunicação é
assim mesmo. O natural, dizia uma professora de linguística, é a gente não se
entender. Um fala e quer dizer uma coisa e o outro entender coisa completamente
diferente. Ela frisava que o fato de algumas pessoas se entender é espantoso. A
raposa do Pequeno Príncipe diz a mesma coisa, de um jeito mais bonito. Acho que a professora de linguística pode até
ter citado a raposa, mas não fez a referência.
Por falar em ligar para um
Enfermeiro, esperando que ele soubesse o que fazer, foi exatamente isso que
fiz. Liguei para o Altair, que é pai e enfermeiro de pronto socorro. Por sinal
o melhor que já vi trabalhando nesta função. Ela era capaz (no tempo de escola)
de puncionar veias em membros superiores sem garrotear, puncionava veia
subclávia com muita facilidade e até artéria. Entubava em três segundos
contados no relógio. Também desenvolveu uma técnica para passar sonda vesical
sem o equipamento necessário (e com segurança) em situação de emergência.
Altair é o cara, o
Enfermeiro e trabalhava, na época, em um grande pronto socorro.
Depois de falar com ele
fiquei mais tranquilo.
Alice enfio o grão de
feijão no nariz por volta das 11 horas. Ele ficou preso na cavidade nasal, não
estava profundo, dava para ver a olho nu sem nenhuma dificuldade. Não era
grande, inclusive não impedia a passagem de ar e nem incomodava tanto a ponto
de ela mudar sua rotina de brincadeiras ou de alimentação.
Tentei tirar com uma pinça
caseira, e teria consegui sem dificuldade, se os reflexos naturais não a
impedissem de colaborar um pouco mais do que já estava colaborando.
Fiquei muito nervoso e com
medo quando percebi que não conseguiria retirar o feijão. Acho que qualquer pai
ficaria. Ser Enfermeiro não muda essa natureza ou talvez não mude só a minha.
Meu nervosismo e o medo
não eram só pelo risco de uma bronca aspiração, como deveria ser. O meu maior
medo era ter de levar Alice em um hospital para fazer um procedimento
profissional.
Pode parecer estranho um
enfermeiro ter medo de hospital. (Na verdade não tenho nenhum medo de hospital,
mas das pessoas que o habita – hoje em dia meu medo não é mais só de hospital,
é também de UBS, de UPA de ESF, clinicas e de todo e qualquer aparato de saúde,
seja público ou privado) infelizmente minha vivencia em hospital como paciente
ou acompanhante é péssima.
Após o almoço, ainda muito
nervoso, mas vendo Alice brincando sem dificuldade, fui dormir um pouco, pois
quando se tem um grande problema e não se sabe o que fazer, às vezes pode ser
bom não fazer nada. Pensei que ao acordar (caso conseguisse dormir) teria uma
solução.
Quando acordei descobri
que Larissa, (minha esposa) tinha levado Alice ao serviço de saúde. Relatou que
foi bem atendida pelo médico, que ele foi muito atencioso e cordial. Isso para
mim foi um espanto terrível (e bom). Disse ela que em compensação a enfermagem
foi grosseira (coisa muito comum ultimamente). Para variar não tinha
enfermeira, só técnicos. Mas de fato não muda quase nada quando tem. Em outra
situação fui ao hospital e tinha enfermeira e foi ainda pior. Nem me deixou
dizer o que sentia. Foi logo dizendo: não tem vaga.
Mesmo o médico sendo
cordial, nada conseguiu fazer. Disse inclusive que não tinha feijão no nariz de
Alice. Que poderia até ter antes, mas que já devia ter saído sozinho, pois nem
com a luz do otoscópio conseguiu ver. Uma conclusão absurda, pois a olho nu eu
continuava vendo o feijão. Porém a ida ao hospital serviu ao menos para deixar
Alice satisfeita. Ela passou a acreditar que não tinha feijão no nariz. (Veja
que poder tem a palavra do médico - até na cabeça das crianças esse poder
funciona. Mesmo quando fala uma besteira sem tamanho.)
O fato é que o feijão
continuava na cavidade nasal de Alice e eu não podia ignorar isto para me
tranquilizar, como foi capaz de fazer o médico.
A situação dos serviços de
saúde no interior é muito difícil. Trabalha-se em instituições que nem podem
ser chamadas de hospitalar. Faltam equipamentos simples (como uma pinça para
retirar feijão do nariz). Falta coisa mais elementar ainda: aparelho de
pressão, termômetro, maca. Medicações. Enfim falta muita coisa básica. Mas,
sobretudo, faltam profissionais capacitados, com consciência de sua
importância, capacidade técnica, boa vontade, coragem de ser sincero e honesto
com os princípios que jurou defender. Almeida-filho (2011, p. 11) diz que “a
força de trabalho ideal para atendimento no SUS – ou seja, profissionais
qualificados, orientados para evidência e bem treinados e comprometidos com a
igualdade na saúde – não corresponde ao perfil dos profissionais que operam o
sistema”.
Almeida está certo. A
crise de recurso humano no SUS não é só quantitativa, é também qualitativa.
Hoje há muitos profissionais trabalhando, mas infelizmente não têm o perfil
necessário para atender a demanda da população. Mesmo quando o serviço de saúde
oferece as condições necessárias. (O que é raro)
Os profissionais estudam
em escolas públicas, ou seja, o custo do ensino, de sua preparação é dividido
por todos, mas depois de formados querem escolher o que fazer e onde fazer. Não
existe nenhuma lei, nenhuma norma que lhes diga que devem prestar serviço aonde
à população precisa. Mesmo quando estudam em escolas particulares o custo é de
todos, pois sempre há renúncia fiscal ou bolsa de estudo pago pelo estado. Isso
é justo?
Pode-se imaginar que
quando se paga (de novo) o atendimento é melhor. Na verdade, não é. Eu poderia
ter levado Alice em um hospital particular, seria tão caro, certamente poderia
pagar (desta vez), mas tenho tanto medo do serviço particular quanto tenho do
serviço público. Os profissionais são os mesmos, formados nas mesmas escolas,
são quase todos da mesma classe e têm, quase todos, a mesma índole. (sei disso
na pratica – já trabalhei em hospitais com atendimento particular). A maquiagem
a que se submetem no trato com os “clientes” não consegue disfarçar o pouco
caso que vai na alma. Quem tem caráter, ética, vergonha na cara não consegue
fazer diferença no tratamento, no procedimento necessário e insubstituível.
Quem não tem...
O feijão que estava no
nariz de Alice não apresentava nenhum efeito negativo, naquele momento e eu não
via risco imediato. Não ao menos até ter que ir a um hospital.
Só de imaginar a
truculência do atendimento, ficava nervoso, imaginava ela sendo segurando a
força, sem paciência e um sujeito mal encarado e sem paciência enfiando uma
pinça em seu nariz. Isso é o que eu conseguia visualizar.
Seria assim mesmo?
Foi mais ou menos assim no
local de atendimento em nossa cidade. Depois de um atendimento equivocado e
desqualificado concluíram que não tinha feijão no nariz de Alice. Não
concluíram que estavam incapacitados para realizar o procedimento, mas que não
tinha feijão. O que a mãe sabia e via. O que sentia Alice foi descartado porque
o médico não viu o obvio. Não conseguiu admitir que não conseguia ver o feijão
e por isso não poderia ajudar. Calil (2010) diz que a formação biomédica criou
a possibilidade de experts em doenças, que não veem o doente e menos ainda a
pessoa. E feijão no nariz também não, pelo visto. Pode até ter pensando, mas ao
menos desta vez não disse, que a mãe estava inventando uma queixa só para ir ao
hospital.
Neste caso era uma queixa
que se enquadrava perfeitamente no modelo biomédico. Era uma “dor visível” em
uma determinada parte do corpo. E quando essa dor não é localizada, o que
acontece? O meu maior medo, além da dor física que sentiria Alice durante o
procedimento, era ter o sentimento de dor subjetiva dela (do pai e da mãe)
desqualificados diante da necessidade de retirar o feijão a qualquer custo.
Sei que com sedação seria
mais simples, mas também sei que dificilmente usariam sedação, ao menos no
interior, aonde falta até termômetro. Por isso protelei a ida ao serviço de
saúde.
Por acaso alguém já se
perguntou por que um serviço de urgência que não tem como retirar um feijão do
nariz de uma criança ainda funciona? Não é o gasto com pessoal maior do que os
reais benefícios à população? Não seria mais barato e eficiente investir em
prevenção e promoção de saúde ou formar um consorcio com outras cidades e
montar um serviço de urgência eficiente?
Então, por volta das 19
horas lembrei desse meu amigo que trabalha em um grande pronto socorro público.
Liguei. Ele disse que lá a sedação é
feita com uma medicação apropriada, este é o procedimento que utilizam. Também
disse que se trata de rotina esses acontecimentos. Aí fiquei tranquilo. Pensei
comigo: durante o sono tento retirar o feijão e se não der certo, amanhã falto
ao trabalho e levo Alice ao HUSE -
Hospital de Urgência de Sergipe, o mais próximo de Paripiranga, que era onde eu
morava na época.
Para que fique claro: não
tinha medo do feijão, mas de como seria feito a retirada do feijão. De ter que
entrar em contato novamente com a capacidade dos profissionais de saúde de não
ter nenhum cuidado, nenhum tato, nenhuma destreza. Isso é apavorante,
principalmente para um profissional de saúde como eu ou para um profissional de
educação que prepara profissionais de saúde.
Os profissionais de saúde,
quase todos eles, parece que perderam a capacidade de cuidar. Cassell (1985),
citado por Valla (1999) diz que a medicina do ocidente é pouco sensível para a
expressão humana, enquanto a população apresenta sentimentos intensos que vão
além da existência dos indivíduos. A dor e o sofrimento para o médico é física.
Já a população não faz distinção tão clara entre as dimensões física e
transcendental. E essa incapacidade de sentir a minha dor e da família, é o que
me espantava e me afastava da ideia de ir ao serviço de saúde.
Felizmente minha intuição
estava certa. Pela manhã, enquanto preparava Alice para ir ao hospital, o
feijão saiu sozinho. Na minha mão, sem eu nada fazer.
Alegria? Não foi alegrei,
isso não exprime o que senti, foi um alívio, foi um sofrimento a menos, foi...
nem sei bem o que foi que senti.
Desta vez não precisei ir ao serviço de saúde, mas quantas outras pessoas foram? Quantas destas podem dizer que receberam um tratamento digno?
Mas será que precisa ser assim ou melhor, será que sempre será assim
REFERENCIAS
VALLA, V. V. Educação popular, saúde comunitária e apoio social numa conjuntura de globalização. Cadernos de Saúde Pública, v. 15, p. 7-14, 1999.
ALMEIDA-FILHO, N. Higher education and health care in Brazil. The Lancet, v. 377, n. 9781, p. 1898-1900, 2011.
CALIL, L. C. Reflexões sobre Ética e o Custo da Consulta Médica. Psychiatry on line Brasil. Rio de Janeiro: 2006 mar 30 [acessado em 26 jul 2010]. Disponível em: http://www.polbr.med.br/ano99/calcons.php .
[Ernande Valentin do Prado publica na Rua Balsa das 10 às
6tas-feiras]

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