OS LOUCOS DA VACINA
Cercados de
pessoas com medo, tédio, sem perspectiva, retirados da vida social, pensando em
evitar sermos “contaminados e contaminadores”, favorecidos pela aposentadoria,
comprometidos com a sobrevivência dos que nos cerca, mantendo os pagamentos da
fisioterapia, ginástica, natação, faxina etc, vivemos centrados e concentrados
no cuidado com a saúde física, mental e emocional da família. Meditação, arte,
música, leituras, conversas com as crianças e as célebres aulas virtuais que
reinventam as horas. Cerca de 377 dias
se passaram, com momentos de retorno às atividades individuais de exercícios,
algumas poucas idas ao dentista por ter quebrado um dente e uma ida ao oculista
por conta de já não conseguir enfiar a agulha de costura até que a vacina do
COVID chegou!
Como os mais
velhos têm prioridade e nem somos os mais, mais, mais velhos, demorou um pouco,
mas chegou. E de certa forma as filas de espera por causa das idades
diferentes entre o casal deram para se divertir. As conversas mais diversas
eram escutadas durante a espera. De pessoas reclamando da demora a outras se
sentindo privilegiadas, outras chateadas por terem que ficar um tempo em
abstinência de álcool (recomendado pelos vacinadores) e algumas inseguras se passariam mal. Claro que
sempre há os que fazem piadas e implicam com os amigos. “puxa, não veio no seu
dia para não dar bandeira da idade, né? Mas podia esperar mais uns dias, ...
seu cabelo ainda é preto!” E nitidamente o amigo pinta o cabelo visto que a
sobrancelha é bem branca e os pelos do braço também... Bom que o amigo não
levou a ferro e fogo e deu uma risada. Deve ser uma brincadeira comum entre
vizinhos. Outro recomendou à acompanhante da senhora que vacinou: não esquece
de por tranca na cozinha para ela não pegar cerveja na geladeira! E comentou baixinho, esta a gente conhece bem.
E claro que não faltou a piadinha do jacaré, dos rabinhos aparecendo da mudança
de cor da pele.
No dia da
vacina do marido, fui acompanhando para documentar, visto que a espera era
grande. Era dia de defesa de tese de uma
amiga recente e lá fui eu de celular em punho vendo a exposição encantadora.
Claro que a internet caiu umas duas vezes e dentro do prédio onde realmente
injetavam a vacina interrompeu-se a comunicação. Aproveitei para documentar a
vacinação e saí enviando para filhos e amigos que solicitaram o registro....
mas aí quem não se conectou mais foi o celular que ficou sem bateria. Sem poder
escutar a amiga, voltei a prestar atenção
no entorno e escutei uma senhorinha bem velhinha mesmo, acompanhada pelo filho
dizendo: “com esta segunda dose vocês não me pegam mais em casa!” “Vou mesmo é
cair na esbórnia!” E eu comigo : que será que ela considera esbórnia? Só rindo,
pois ela falava sério.
Maria
Lúcia Futuro Mühlbauer
Escreve às segundas
feiras
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