A notícia da morte é um trem complicado. Prá quem dá, prá quem recebe, prá quem escuta sem querer, prá quem lê no jornal. A depender do quantum de humanidade podemos nos indignar mais quando é violenta ou vamos nos acostumando quando vai se tornando cotidiana. É isso! Nenhuma notícia de morte é igual prá todo mundo. E cada um de nós viveu tantas notícias com impactos tão diferentes que seria interessante fazermos um mural de quantas notícias de morte fomos vivenciando.
Aos
quase 59 anos de idade vivenciei muitas notícias. Desde minha mãe aos 13 anos
até os dias atuais que morre uma conhecida por dia. Estaríamos nós mudando a
forma como lidamos com a morte e os corpos dos seres queridos? E dos não tão
queridos assim?
A
morte que era na família, de umas décadas para cá foi transferida para os
hospitais e, com tanta tecnologia, foi transferida para as UTIs. Isso quando
não é da violência com tiros, facadas, degolas como é o caso dos feminicídios.
As violências continuam a matar e a expor os corpos como monte de carnes
machucadas ou apodrecidas. Meninos negros e mulheres são os mais carnificados.
Mas
quem é que dá a notícia da morte? Quando se morre dentro de uma unidade de
saúde é dever do profissional de medicina. Em quaisquer outras situações, a
notícia é prá quem vê o corpo primeiro ou percebe que esse não mais respira.
Então a regra da notícia da morte pelo médico só serve para parte das situações.
Esses dias conversando com um moço novo, recém residente, ele me disse: “no
começo me emocionava todas as vezes, depois foi dependendo de cada caso. Agora,
parece que a notícia de morte virou uma rotina. Parei de sofrer, acho que
endureci. Dizem que amadureci.”
Esse
moço com um pouco menos que a metade da minha idade me levou a pensar sobre
como as equipes de saúde se apoiam no sofrimento. Lembrei da assistente social
que conversei, ela em pânico porque naquele dia duas mortes tinham ocorrido em unidade
de saúde que não era prá morrer ninguém. E me falou: nunca quis hospital, não
dou conta com morte e agora aqui tem morte. E nem vem o pessoal do nosso
Conselho falar que a notícia é obrigação do médico. Afeta todo mundo. E, depois
da notícia somos nós assistentes sociais e psicólogos que ficaremos com a
família. Lembro de uma profissional que
firmemente me disse: “eu estou em equipe e em equipe assumimos a dor da morte.
Já dei muita notícia junto com o médico, outras vezes com a enfermagem e outras
vezes sozinha. Quem está mais apto ou melhor emocionalmente apoia a equipe
inteira. Coletivo é coletivo e pronto!” O dia que falei disso numa aula a
estudante me disse que eu estava incentivando a desobediência da lei. Eu
discuti um pouco e depois fiquei quieta. Tem gente que só entende de regras,
não entende de humanidade. Melhor não discutir.
No
caso da minha mãe, a notícia chegou pelo telégrafo. Do papai, a notícia veio
pela PRF que comunicou o hospital que chamou minha tia que falou prá minha
prima que falou prá mim.
É,
não adianta ensaiar, preparar, respirar... notícia de morte é diversa para cada
um e quem são os comunicantes também o são. A morte do Ayrton Senna, por
exemplo, veio pela TV do guarda da TELEMS. Estávamos no Congresso Estadual da
CUT, em plena discussão das resoluções finais quando um dos fujões da plenária
trouxe a notícia. Pronto! Todos os homens se levantaram, sem importar com a
disputa de votos, foram ver a TV e as mulheres, algumas foram juntas e outras
queriam terminar o Congresso. Ali na Vila Margarida o Congresso Estadual
terminou sem votar todas as resoluções. Depois fizemos uma plenária prá aprovar
o relatório final. Só lembro que cantamos o hino nacional no final e uma porção
de homens machos choraram pela morte do ídolo.
Quem
recebe a notícia da morte esperada é uma coisa... e da inesperada é ouuuuuuutra
muito diferente. Será que é a minha mãe mesmo? Não estão errados? O que
aconteceu? Estava tudo bem... e aí se vai duvidando... até que não chega o
corpo há uma esperança que não seja a
pessoa querida. No meu caso, tinha a Lu no colo e estávamos voltando de uma
viagem a Ponta Porã. Tinha ganhado relógio e chiclet em forma de cartela. O que
fazer com o bebê no colo? Sair correndo, sentar-se no banco de madeira, no toco
da árvore? Começo a chorar ou fico quieta? Aviso as amigas ou fico parada?
Espero alguém chorar prá começar ou corro pro quarto?
Alguém
precisa ir providenciar o tal caixão e aí tudo começa a ficar objetivo,
concreto. Onde vai ser o velório, que hora chega o corpo, que roupa vou
colocar. Ainda chega gente com as camisas pretas, os vestidos pretos... No caso
de uma colega de trabalho, pôs-se a colocar a melhor roupa, sapatos de salto e
maquiagem. O pai lhe gostava assim e foi para o velório como que para uma festa
chique. É um jeito. Lá em casa era escolher uma roupa sóbria, sem coloridos e
sapatos discretos. E, esperar o corpo.
Ontem
conversei com uma amiga e ela dizendo que não ver o corpo da mãe, com caixão
lacrado foi dolorido demais. Não poder colocar sua roupa preferida, não lhe
maquiar, pentear seus cabelos. Era como se no caixão estivesse uma pessoa que
não era sua. Lembrei que a Pri refez a maquiagem da mãe quando morreu. Não
estava bonita como podia ser. A Polly maquiou tia Bia, sempre linda. Mas não
estávamos em COVID. Agora é saber da morte, receber a orientação do enterro, fazer
os distanciamentos em duas horas de velório e enterrar. Então... a dor ficou
resumida?
Não
lembro do que fiz nos dois dias, mas sei que ficamos sabendo da morte da mamãe
ao final da tarde do dia 4 de setembro e corpo chegou no dia 6 logo depois do
almoço, eu acho. E o avião sobrevoou Itaporã, as pessoas com carro foram para o
aeroporto que não sei onde era e de lá vieram em cortejo prá sala da casa
alaranjada. Veio vestida de mortalha roxa, num tecido meio brilhante. No caso
do papai, soubemos à noite, tia Rose providenciou tudo e no dia seguinte fomos
em cortejo de Campo Grande até Itaporã prá enterrar o corpo lá. Tinha camisa
azul clara e calças cinzas. Hoje que pensei se foram maquiados ou não... sem
chance de saber... num sei mesmo!
Nas
histórias que vivi, os choros intensos (sem óculos escuros) ocorriam na chegada
do corpo e na saída para o cemitério. Muita gente ficava de cara inchada e
outros, um lacrimejo aqui outro acolá. Parece que os mais pobres, os mais simples
choram do jeito que querem... Os mais letrados, ao que me parece não podem
chorar muito ou, se choram, não podem fazer de forma barulhenta. Quando os velórios eram de corpo presente na
sala da casa seguia-se a regra de cada família. Depois que passaram a ser nas
capelas dos cemitérios, se alguém chora aqui, escuta-se no outro velório. As
regras ficaram de contenção... é isso! Acabei de pensar isso...
E
agora? Há tantos cuidados sanitários, distanciamentos, controle de pessoas, de
flores... chora-se? Ainda lembro que em muitos velórios eu chorava abraçada a
outra ou mais pessoas. E agora que nem abraçar se pode?
Tem
gente falando que os milhões mortos por COVID no mundo é limpeza no planeta;
Outros fazem análise do comportamento epidemiológico da doença; da gestão
necrófila do oxiúros que está na presidência no Brasil; outros fazem promessas
e rezam prá Deus intervir e curar todo mundo; e ainda há aqueles compas que
confabulam se sairemos melhores ou piores desse pandemônio. Além dos espíritas
com suas diferentes linhas de pensamento... é explicação para todos os gostos e
posicionamentos políticos e religiosos.
E
eu?
Sigo
em afastamento social físico; abrindo as redes sociais com medo que a notícia
de morte de afetos chegue por elas; não assistindo jornais prá saber quantos
morreram no dia; fazendo luto enquanto ligo prá amigas comuns dos que morrem;
escrevendo como se fosse choro convulsivo da chegada do corpo; ouvindo música e
chorando durante o banho como se fosse a saída do corpo.
Depois
me recomponho, ligo para as pessoas que tiveram a notícia de morte e a chegada
do corpo e me ofereço para estar em energia junto. Ou, na impossibilidade,
posto no privado do watts ou no messenger do face. Talvez seja um novo
significado das redes.
Eu mudei
com cada morte cerquita... e, agora, com essa avalanche nem tenho tempo para
mudar a cada uma. Parece que estou em mudança por cambalhotas... meio de cabeça
prá baixo, outras vezes de pé, ajoelhada, sentada...vai saber... só sei que
estou mudando... e espero não estar ficando muito racional... cruzcredo!
Prá
fazer metáfora, os sentimentos que tenho é de alguém que está numa chalaninha
sem colete salva vidas, em pleno Rio Paraguai, em tempos de cheia e com vento
sul soprando... e de quebra, chuva de granizo. Mas antes que escureça fixo toda a minha
presença na flor de camalote.
E consigo ouvir uma viola dedilhando Chalana. Lembro dos ensaios dos corais, eu desafinada, dos grupos e do Loureiro, claro!
E fico cantando devagarinho, no ritmo do rio e na
altura do barulho do vento que farfalha a vida chaquenha.
Estela Márcia Rondina Scandola,
58 anos sorvendo a vida mulherida, publica no Rua Balsa das 10 aos domingos
como convidada. A foto é da última ida à
Isla Margarita, em 2020.

Vc le a alma, e conforta com palavras simples.
ResponderExcluiramiga, pensei em tantas histórias e na sua também... do cuidado e das lembranças de quem se vai. Que bom que lhe alcancei.
ExcluirUm texto pungente quando o céu arqueija em arco íris de dor para alcançar as lágrimas que na terra rolam feito pedras de gelo brilhante. Um texto preciso e doído, parabéns Estela escrever com certa leveza o peso da morte de corpo ausente não é para qualquer um . Um texto reflexivo com múltiplos desdobramento. Chorei. Choramos.
ResponderExcluirTenho pensado em como chorar coletivamente sem estar abraçadas... é preciso sentir isso senão aloqueamos. Choro sozinho é um desalento embora possa ser um desaguar.
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