OLHANDO PELA JANELA
De verdade nem sei se a água está na janela ou
se são meus olhos que choram. Desde cedinho pela manhã, uma imensa nuvem de
tristeza cobriu meu céu. Acordei sem dar conta de tanta coisa ruim que está
acontecendo. Eu tenho de comer, mas vejo a fome do meu lado, vejo rinhas de
gente tipo galo de briga que se pega e enfia o esporão... pra machucar mesmo, sei
de gente que morreu e deixou filho por criar... escuto gente ameaçar de morte!
As nuvens de fora eram também de dentro e eu nem consegui ver bem o que passava pela
janela. Um carro vermelho como o do meu pai que viajou um dia e nunca mais foi
visto, um vulto preto na parede amarela da casa de Siá Miranda agourando a
saúde das gentes.
Meus
olhos nem sabem mais ver direito, está um embaçado só, nas vistas, na janela,
no meu coração. Faz dias que ando escurecendo as nuvens, os ventos anunciando
tempo de recolher, vento ameaçando derrubar, revirar, dissolver. Meus olhos
ardem buscando foco e choram mais ainda por não verem direito. Quem sabe se
abro a janela limpa a vista? Ou se saio no vento e ele carrega meu choro? Ah,
mas cadê ânimo de enfrentar o vento e os vultos escuros da parede da casa de Siá
Miranda? Vou olhar por outra janela,
Abro devagarinho
a janela de madeira dos fundos da sala, enfrento uma rajada de vento e chuva. Molho
o rosto e deixo minha chuva se misturar com a do céu. Já sinto menos medo do
que está, e fico de rosto para fora, a chuva lavando os olhos, o choro lavando o
coração, um pouco ao menos...
Um sol desaparecido deve estar tentando espiar
por trás do mundaréu de nuvens escuras. Eu comparo ao meu coração querendo ver
por entre as maldades ao meu redor.
Por trás de mim vem minha avó velhinha, com
sua mão enrugada e toca meus cabelos, e diz apenas -Espera! Há de passar!
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