A epidemia da AIDS trouxe
para o mundo diferentes e contraditórios sentimentos e realidades. Para mim,
que me aproximei dela no início de 1990, foi uma das escolas que mais
frequentei... lidar com a perda de conhecidos e companheiros, a confirmação do diagnóstico chegava pela
manhã e à tarde era possível estar perdendo esse alguém. Trem difícil,
amedrontador... cheio da pergunta: quem será o próximo? A feminização da AIDS,
ainda não era nem discutida e nem conhecida... era quase tudo discutido no
masculino. As travestis ainda eram Os Travestis.
Foi nessa década que
chegou até mim a Milene. 35 anos, cabelos negros com cachos grandes, pele cor
de jambo, olhos escuros e profundos. Quando chegou à sala, olhava para todos os
lados e eu, como de costume, fui até ao seu encontro. Esse meu caminhar de dois
ou três passos, sempre considerei que era mais importante para mim do que para a
pessoa que eu teria que atender. Gosto da ideia que a acolhida é com os olhos,
com a forma da boca, com o movimento do corpo... acolhida é um movimento meu
que diretamente vai ao encontro do outro para que me acolha também.
- Olá, eu sou Estela.
Temos alguma coisa prá fazermos juntas?
- Sou a Milene, acabei
de receber o diagnóstico positivo de HIV. Eu acabei com a minha vida. Um
deslize, um pecado e eu me ferrei. Agora não tem volta e ver tudo ir acabando até chegar a morte.
Até hoje eu e ela nos
lembramos do nosso primeiro encontro no centro de saúde e depois no IBISS-MS. Meus
dois vínculos (um de trabalho remunerado e o outro de trabalho militante)
sempre se complementaram. No SUS não tínhamos muitos serviços de acolhimento,
grupalização... mas tínhamos uma grande oferta de apoio às organizações não
governamentais para capacitar seus militantes. Eu fui muito privilegiada. Por
vezes era inserida nas capacitações como trabalhadora em saúde e em outras eu
era chamada por ser de ONG, movimento da infância, movimento sanitário,
movimento feminista... enfim, eu estava metida na epidemia da AIDS.
Eu não tinha AIDS mas
as pessoas com AIDS me tinham. Como dizia o Óscar (trabalhamos juntos): nós já
estamos na AIDS sem termos o vírus.
Quando se trabalhava com a epidemia, seja na prevenção, no atendimento
ou na organização com pessoas posithivas, imediatamente o preconceito se
estendia. Era comum alguém começar o estágio no IBISS e sair, ou simplesmente
desaparecer.
Trabalhar na epidemia
da AIDS sempre foi um crescimento como gente minuto a minuto. No SUS era mais
difícil o tempo para atender e a grupalização, mas no IBISS isso era
prioritário e como a metodologia era sempre agregarmos mais pessoas vhivendo e
irem se apoiando. Isso facilitava bastante o tempo disponível para as pessoas
chegantes.
Marquei com Milene no
sábado e a esperei com um café e sopa paraguaia comprada na Veneza. Lembrava
sempre o ensinamento do padre Jota, argentino que atendia meninos de rua.
Coloca-se a mesa para receber o melhor amigo, duas xícaras bonitas e um
belisque para ajudar nas pausas da prosa. Comece falando de qualquer coisa boa,
menos do problema que os juntou. Essa orientação não falha nunca. Acalma os nervosos e anima os tristes. Eu havia aprendido isso no encontro de 1984
que criou o movimento de meninos e meninas de rua. Nunca esqueci e nunca deu
errado. A não ser quando eu estava despreparada para o encontro.
A acolhida depende mais
de quem recebe do que de quem é recebido. Ir ao encontro da Milene, perceber os
nossos olhares, a posição das mãos, o curvamento da coluna, a altura do queixo
e o ritmo dos passos ajuda sempre muito. Coei o café assim que ela chegou e
começamos conversando sobre a qualidade do pó e que o saber é sempre mais
prazeroso quando vem junto com o cheiro inebriante. Café sem cheiro nem é café,
é só cafeína prá acalmar os dependentes. Agora, café com cheiro bom, em xícara
bonita e com um bom papo, esse é um verdadeiro encontro.
Perguntou se tinha mais
alguém na casa e eu falei que chegaria algumas pessoas da Associação das
Travestis e que isso não nos atrapalharia... ficou com riso nervoso. Dizia
nunca ter visto uma travesti de perto. Rimos muito e quando a Elô chegou e deu
dois beijos na Milene, ela ficou com riso prá dentro. A Elô chegou e ia para um
evento na rodoviária com as prostitutas... perguntou se a Milene ia prá
Rodoviária também, se era nova estagiária... e isso já rolou conversa solta.
Pronto, já éramos vários mundos juntos. Falei que era uma amiga. No IBISS desde
sempre aprendemos que só falamos quem tem HIV, quem o tem. Ninguém mais está
autorizado.
A presença da Elô foi
providencial... havíamos entrado no mundo da conversa dos preservativos, gel,
tamanho de camisinha, cine pornô... e eu via a Milene se perguntando: onde eu
estou? Quando ficamos em duas novamente ela perguntou: ela sempre foi assim? E eu:
assim como? Alegre, despachada? Simmmmm. Ela riu.
- Mas sabe, eu levei um
susto com você lá no Cel. Antonino. Quando me falaram que eu ia falar com
assistente social logo me preparei prá responder um monte de pergunta, de falar
dos meus erros, de como contraí HIV... me preparei prá tudo e quando você não
perguntou, fiquei sem saber o que eu tinha que falar. Depois quando você falou
para conversarmos no sábado aí não entendi nada. Afinal, você não trabalha aos
sábados...
- Ontem, quando marquei
aqui foi prá conversarmos mais tranquilamente. Lá estava muita correria por
causa da campanha de vacina. E acho que poderíamos conversar sem muita gente
olhando. Ao meio dia vamos ter um almoço na rodoviária e já fico prá isso. Não
estou sendo boazinha, não... só estou juntando um trabalho com o outro...
Então, perguntei porque
havia me dito que tinha acabado com sua vida. Em resumo disse que tinha se
separado do marido há menos de um ano. Não tiveram filhos e ele falava que ela
não era mais atraente porque tinha engordado. Que há três meses começou a sair
de casa com amigas depois de ficar chorando e chorando. Como gosta muito de
dançar acabaram indo prum baile no Clube da Amizade.
Depois de umas duas
horas dançando rancheira com vários parceiros tocou um bolerão. Um rapaz olhou prá ela e fez sinal de dançar.
Quando ele lhe apertou contra o corpo foi uma coisa tão diferente que só se
lembrava daquele momento e do tesão que se apossou dela. Não havia mais nada.
Não se lembrava de a música terminar, mas se lembrava que foram para o carro
dele e ela se sentiu a mais linda e desejada. O nome era Moacir e não sabe ao
certo o tempo que ficaram, mas quando retornou ao salão as amigas riam porque
diziam que a pele estava exalando sexo.
- E foi bom, então?
- Nossa! Foi uma
delícia... só que daí aconteceu essa desgraça... Mulher que não é valorizada pelo seu homem fica à espera de um elogio... e
às vezes se estrepa.
Eu havia achado um
ponto que me ligava à Milene. Falei prá ela dos meus 4minutos e oito segundos
de paixão... No final do ano, fui destacada para aquelas comissões de
patrimônio. Éramos duas mulheres e dois homens. E, havia o Miguel na equipe que
eu acabava de conhecer. Serviço chato, braçal, sem nenhuma aventura. Conferir
placas de bens e lançar em uma planilha. E ainda tinha a poeira, os trem
quebrado... Um tédio! Miguel perguntou se gostávamos de música... ufa! Daí ele
colocou uma playlist dele e a gente foi ouvindo. De repente, eis que os acordes
me puxaram pro olhar dele. Era “my way” e, na primeira frase ouvi a sensual magníficante
voz do
Elvis. Ele me olhou, vários móveis entre nós, as outras duas pessoas em
missão e ele começou a sussurrar a letra... “And now,
the end is near, And so I face the final curtain” entrei na energia dele e ele na minha. E
segui: “My friend, I'll say it clear, I'll state my case, of
which I'm certain I've lived a life that's full I traveled each
and every highway” Minhas
mãos suando, os olhos que somente nos via,
os cheiros exalando... e eu vi aquele corpo negro, retilíneo e suas
curvas. E cantamos: And more, much more than this I
did it my way” ... Ele sabia a letra e eu também...E quando a voz do Sinatra
entrou no dueto, então... estávamos em êxtase! Ele viu-me
inteira, as bocas beijaram, as mãos se tocaram... uma intensidade de desejos
que não sentia mais no marido que me falava prá fazer plástica na barriga!
- E foi bom demais,
hein?
-Nossa, foi intenso! Foi
desses momentos que o Al Pacino fala no “Perfume de Mulher”. É viver o momento
único!
- É um filme?
- Simmmmm. Vamos marcar
prá assistir sábado que vem aqui...
Ali estava um encontro
entre duas mulheres... poderíamos não nos ver mais, mas o encontro estava
realizado.
- Mas Estela, vocês
transaram?
- Nada, menina. A
música acabou!
Estela
Márcia Rondina Scandola, 57 na inteireza de mulherices, publica no Rua Balsa
das 10 aos domingos, ainda como convidada.
