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01 março 2020

4m8s DE PURA PAIXÃO!






A epidemia da AIDS trouxe para o mundo diferentes e contraditórios sentimentos e realidades. Para mim, que me aproximei dela no início de 1990, foi uma das escolas que mais frequentei... lidar com a perda de conhecidos e companheiros,  a confirmação do diagnóstico chegava pela manhã e à tarde era possível estar perdendo esse alguém. Trem difícil, amedrontador... cheio da pergunta: quem será o próximo? A feminização da AIDS, ainda não era nem discutida e nem conhecida... era quase tudo discutido no masculino. As travestis ainda eram Os Travestis.
Foi nessa década que chegou até mim a Milene. 35 anos, cabelos negros com cachos grandes, pele cor de jambo, olhos escuros e profundos. Quando chegou à sala, olhava para todos os lados e eu, como de costume, fui até ao seu encontro. Esse meu caminhar de dois ou três passos, sempre considerei que era mais importante para mim do que para a pessoa que eu teria que atender. Gosto da ideia que a acolhida é com os olhos, com a forma da boca, com o movimento do corpo... acolhida é um movimento meu que diretamente vai ao encontro do outro para que me acolha também.
- Olá, eu sou Estela. Temos alguma coisa prá fazermos juntas?
- Sou a Milene, acabei de receber o diagnóstico positivo de HIV. Eu acabei com a minha vida. Um deslize, um pecado e eu me ferrei. Agora não tem volta  e ver tudo ir acabando até chegar a morte.
Até hoje eu e ela nos lembramos do nosso primeiro encontro no centro de saúde e depois no IBISS-MS. Meus dois vínculos (um de trabalho remunerado e o outro de trabalho militante) sempre se complementaram. No SUS não tínhamos muitos serviços de acolhimento, grupalização... mas tínhamos uma grande oferta de apoio às organizações não governamentais para capacitar seus militantes. Eu fui muito privilegiada. Por vezes era inserida nas capacitações como trabalhadora em saúde e em outras eu era chamada por ser de ONG, movimento da infância, movimento sanitário, movimento feminista... enfim, eu estava metida na epidemia da AIDS.
Eu não tinha AIDS mas as pessoas com AIDS me tinham. Como dizia o Óscar (trabalhamos juntos): nós já estamos na AIDS sem termos o vírus.  Quando se trabalhava com a epidemia, seja na prevenção, no atendimento ou na organização com pessoas posithivas, imediatamente o preconceito se estendia. Era comum alguém começar o estágio no IBISS e sair, ou simplesmente desaparecer.
Trabalhar na epidemia da AIDS sempre foi um crescimento como gente minuto a minuto. No SUS era mais difícil o tempo para atender e a grupalização, mas no IBISS isso era prioritário e como a metodologia era sempre agregarmos mais pessoas vhivendo e irem se apoiando. Isso facilitava bastante o tempo disponível para as pessoas chegantes.
Marquei com Milene no sábado e a esperei com um café e sopa paraguaia comprada na Veneza. Lembrava sempre o ensinamento do padre Jota, argentino que atendia meninos de rua. Coloca-se a mesa para receber o melhor amigo, duas xícaras bonitas e um belisque para ajudar nas pausas da prosa. Comece falando de qualquer coisa boa, menos do problema que os juntou. Essa orientação não falha nunca.  Acalma os nervosos e anima os tristes.  Eu havia aprendido isso no encontro de 1984 que criou o movimento de meninos e meninas de rua. Nunca esqueci e nunca deu errado. A não ser quando eu estava despreparada para o encontro.
A acolhida depende mais de quem recebe do que de quem é recebido. Ir ao encontro da Milene, perceber os nossos olhares, a posição das mãos, o curvamento da coluna, a altura do queixo e o ritmo dos passos ajuda sempre muito. Coei o café assim que ela chegou e começamos conversando sobre a qualidade do pó e que o saber é sempre mais prazeroso quando vem junto com o cheiro inebriante. Café sem cheiro nem é café, é só cafeína prá acalmar os dependentes. Agora, café com cheiro bom, em xícara bonita e com um bom papo, esse é um verdadeiro encontro.
Perguntou se tinha mais alguém na casa e eu falei que chegaria algumas pessoas da Associação das Travestis e que isso não nos atrapalharia... ficou com riso nervoso. Dizia nunca ter visto uma travesti de perto. Rimos muito e quando a Elô chegou e deu dois beijos na Milene, ela ficou com riso prá dentro. A Elô chegou e ia para um evento na rodoviária com as prostitutas... perguntou se a Milene ia prá Rodoviária também, se era nova estagiária... e isso já rolou conversa solta. Pronto, já éramos vários mundos juntos. Falei que era uma amiga. No IBISS desde sempre aprendemos que só falamos quem tem HIV, quem o tem. Ninguém mais está autorizado.
A presença da Elô foi providencial... havíamos entrado no mundo da conversa dos preservativos, gel, tamanho de camisinha, cine pornô... e eu via a Milene se perguntando: onde eu estou? Quando ficamos em duas novamente ela perguntou: ela sempre foi assim? E eu: assim como? Alegre, despachada? Simmmmm. Ela riu.
- Mas sabe, eu levei um susto com você lá no Cel. Antonino. Quando me falaram que eu ia falar com assistente social logo me preparei prá responder um monte de pergunta, de falar dos meus erros, de como contraí HIV... me preparei prá tudo e quando você não perguntou, fiquei sem saber o que eu tinha que falar. Depois quando você falou para conversarmos no sábado aí não entendi nada. Afinal, você não trabalha aos sábados...
- Ontem, quando marquei aqui foi prá conversarmos mais tranquilamente. Lá estava muita correria por causa da campanha de vacina. E acho que poderíamos conversar sem muita gente olhando. Ao meio dia vamos ter um almoço na rodoviária e já fico prá isso. Não estou sendo boazinha, não... só estou juntando um trabalho com o outro...
Então, perguntei porque havia me dito que tinha acabado com sua vida. Em resumo disse que tinha se separado do marido há menos de um ano. Não tiveram filhos e ele falava que ela não era mais atraente porque tinha engordado. Que há três meses começou a sair de casa com amigas depois de ficar chorando e chorando. Como gosta muito de dançar acabaram indo prum baile no Clube da Amizade.
Depois de umas duas horas dançando rancheira com vários parceiros tocou um bolerão. Um  rapaz olhou prá ela e fez sinal de dançar. Quando ele lhe apertou contra o corpo foi uma coisa tão diferente que só se lembrava daquele momento e do tesão que se apossou dela. Não havia mais nada. Não se lembrava de a música terminar, mas se lembrava que foram para o carro dele e ela se sentiu a mais linda e desejada. O nome era Moacir e não sabe ao certo o tempo que ficaram, mas quando retornou ao salão as amigas riam porque diziam que a pele estava exalando sexo.
- E foi bom, então?
- Nossa! Foi uma delícia... só que daí aconteceu essa desgraça... Mulher que não é valorizada  pelo seu homem fica à espera de um elogio... e às vezes se estrepa.
Eu havia achado um ponto que me ligava à Milene. Falei prá ela dos meus 4minutos e oito segundos de paixão... No final do ano, fui destacada para aquelas comissões de patrimônio. Éramos duas mulheres e dois homens. E, havia o Miguel na equipe que eu acabava de conhecer. Serviço chato, braçal, sem nenhuma aventura. Conferir placas de bens e lançar em uma planilha. E ainda tinha a poeira, os trem quebrado... Um tédio! Miguel perguntou se gostávamos de música... ufa! Daí ele colocou uma playlist dele e a gente foi ouvindo. De repente, eis que os acordes me puxaram pro olhar dele. Era “my way” e, na primeira frase ouvi a sensual magníficante  voz do  Elvis. Ele me olhou, vários móveis entre nós, as outras duas pessoas em missão e ele começou a sussurrar a letra... And now, the end is near, And so I face the final curtain entrei na energia dele e ele na minha. E segui:  My friend, I'll say it clear, I'll state my case, of which I'm certain I've lived a life that's full I traveled each and every highway”  Minhas mãos suando, os olhos que somente nos via,  os cheiros exalando... e eu vi aquele corpo negro, retilíneo e suas curvas. E cantamos:  And more, much more than this I did it my way” ... Ele sabia a letra e eu também...E quando a voz do Sinatra entrou no dueto, então... estávamos em êxtase! Ele viu-me inteira, as bocas beijaram, as mãos se tocaram... uma intensidade de desejos que não sentia mais no marido que me falava prá fazer plástica na barriga!


- E foi bom demais, hein?
-Nossa, foi intenso! Foi desses momentos que o Al Pacino fala no “Perfume de Mulher”. É viver o momento único!
- É um filme?
- Simmmmm. Vamos marcar prá assistir sábado que vem aqui...
Ali estava um encontro entre duas mulheres... poderíamos não nos ver mais, mas o encontro estava realizado.
- Mas Estela, vocês transaram?
- Nada, menina. A música acabou!


Estela Márcia Rondina Scandola, 57 na inteireza de mulherices, publica no Rua Balsa das 10 aos domingos, ainda como convidada.

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