Ernande Valentin do Prado
Dez minutos
antes da ligação contada antes, ligou um senhor para reclamar que o “empregado”
dele foi ao médico e este o mandou para casa sem mandar tomar nenhuma
medicação.
Essa é uma das
principais dúvidas que motivam as ligações para o serviço. Muita gente liga
logo após passar por atendimento nos serviços de saúde, sobretudo em serviços
particulares e de convênio. Queixam-se da falta de informações, de não saber o
que fazer após o atendimento, onde ir, como levar a vida.
Este senhor
começou dizendo que morava em uma chácara e abriu “parênteses” para frisar que não
era agricultor, só morava na chácara com a esposa, que também era “de risco”.
Segundo ele, os dois estavam se cuidando e não tiveram contato com seu
empregado e que o mandara para casa, bem longe, para ficar com a filha, que
inclusive o levou ao médico.
— Qual a
dúvida do senhor?
Perguntei.
— O senhor
não acha um absurdo o médico do SUS não ter passado tratamento para meu
empregado, não acha que ele pode me contaminar?
— Pelo que
o senhor está contando, o médico passou sim o tratamento e é esse mesmo: ficar
em casa, alimentar-se, tomar água e observar a evolução dos sintomas e em caso
de agravamento, principalmente sinais de falta de ar, voltar ao serviço de
saúde.
— Mas o
médico não passou nenhuma medicação.
— Ele tem
dor ou febre?
— Não,
disse o
homem,
— então o
tratamento é esse mesmo, ficar em casa em repouso, manter o isolamento social,
ficar atento aos sinais e sintomas. Ainda não existe medicação especifica para covid-19,
por isso o Médico não passou nada.
Foi aí que
o homem se irritou e disse;
— Eu sou
engenheiro, não sou nenhuma idiota, tenho mestrado e doutorado, não sou idiota.
Como pode o médico mandar a pessoa para casa sem tratamento?
Tentei
explicar que o médico passou o tratamento e estava correto e depois percebi que
por tratamento o engenheiro estava falando MEDICAÇÃO. E tinha bem claro em sua
cabeça qual deveria ser a medicação: cloroquina.
Falei sobre
a polêmica em torno da cloroquina, dos efeitos colaterais e da falta de
evidência de eficácia para o tratamento. O homem se irritou mais ainda e finalizou:
— o senhor deve
ser um PTista sem vergonha, eu não sou idiota, sou engenheiro, tenho mestrado e
doutorado e você é um PTista safado.
E desligou
na minha cara.
[Ernande Valentin do Prado publica no Rua Balsa das 10 às
6tas-feiras]
