PÁSCOA, VOCÊ
SE ENCANTOU NESSE PANTANAL?
À
Corumbá só se vai com coração acelerante e o meu anda apertadinho desde que
soube que o Páscoa tornou-se encantado. A ideia é que ele encantou-se por essas
bandas pantaneiras. Ele não voltaria para o velho mundo, embora seu corpo tenha
vindo prá cá há mais de 5 décadas. Talvez, quando nasceu por lá a vida o trouxe
para encontrar sua energia vital aqui, no meio dos paratudos, garças,
colhereiros, jacarés, águas que vem e vão, nascem e somem... flora chaquenha,
tuiuiús sempre em pose prá alçar vôo e, sem dúvida, encharcando-se de vida como
se fosse camalotes em flores nos encontros com as gentes fronteiriças do centro
do mundo...
É!
Ele próprio encantou-se... e está aí...
Schabib
falou que ele se eternizou... acho que é a ideia que ficará para sempre entre
nós. Suas ideias, seu jeito de fazer as pequenas revoluções, a sabedoria de
realizar a gestão dos conflitos, os olhos e a boca que combinavam as expressões
entre si... Uma vez rimos falando que eu era tão intensa que a cara mostrava o
que vinha na alma e meu espírito livre sempre me traía... E rimos... sua
sapiência manejava até suas expressões... lembro da cara dele na reunião com o
MP quando queriam azedar as eleições no FORUMCORLAD... Eu fazendo caras e bocas e ele calmo com
expressão de acreditar no que o promotor falava... só a expressão...
Eternizou
e encantou...
Quando
conversava com a Nanci, durante todo o velório feito por muitas solitariamente,
ficamos falando sobre o que nos marcou... lembrei da confiança que depositou em
mim quando estava construindo a origem do que viria a ser o Movimento Nacional
de Meninos e Meninas de Rua – MNMMR. Fui, viajei em nome da pastoral do menor,
voltei e expus as ideias no grupo e saí indo em busca de gente que podia ser
nosso primeiro núcleo em Mato Grosso do Sul... E ele deixou tudo sob minha responsabilidade...
era corajoso e eu saí por aí... toda me achando...
Nos
últimos 20 anos, quase nunca nos víamos pessoalmente, mas eu sempre avisava que
estava indo ou que estava na cidade branca. Parecia que só de saber que ele estava lá já
me aquietava, fazia com que eu sentisse
o fio da teia... tipo passarinho que encontra um galho firme e, sem precisar
pousar, sabe que está lá e que poderá ir descansar de forma segura se for
preciso. Assim eu ia a Corumbá.
Duas
cenas são fortes em minhas lembranças quando penso na cumplicidade do cuidado.
A primeira na Igreja São João Bosco, aqui na Vila Célia. Papai havia morrido (eu
não sabia nem de encantados nem eternizados na época) e eu estava ainda triste
e então enfiava a cabeça no trabalho... Numa segunda-feira à tarde, dia que os
padres descansam do pastoreio do domingo, sentada no interior da Igreja fazendo
o relatório do trabalho com os grupos de jovens, o Páscoa sentou ao meu lado:
-
Uai, você aqui hoje?
-
Uai, você aqui hoje!
Rimos...
ambos responsáveis demais da conta trabalhando em dia de descanso. E aí falei:
-
Páscoa, vou casar...
-
Sério?
-
Ontem combinamos...
-
Precisa?
-
Não precisa mas eu quero... você sabe que quero procriar... (rimos muito!)
-
Precisa casar?
-
Ah... vai ser bom... o moço vai ser um bom pai...
-
Sim... entendi...que bom!
Ainda
lembro que, sentados lado a lado, ele segurou minha mão direita entre as suas.
Está há mais de 30 anos assim... sinto a proteção das mãos macias e que me
envolviam... não era só aquela jovem ali sentada naquele momento. Era toda a
minha vida envolvida pelo seu amor cuidadoso.
Ele me conhecia bem... ter filhos era o forte desejo. Quando eu estava prá parir sempre conversávamos sobre os nomes... Havia sempre a Tainá se fosse menina. João veio primeiro porque era o apóstolo confidente de Jesus, depois veio o Luca (tiramos o S para ficar no italiano) que foi o evangelista que mais falou de Maria e falava o magnificat, quase um poema comunista... então, João e Luca se fizeram em mim, cheinhos de histórias e afetos nos seus nomes.
O
outro momento que ainda sinto suas mãos foi lá no interior da Igreja São João
Bosco em Corumbá. Eu estava no meio de um furacão em Mato Grosso do Sul, com a
cara do moço e um monte de gente nos jornais e fui encontrar aquela que havia
se constituído em família... eu precisava de colo. Quando cheguei ainda no
sábado de manhã, embotada em choro guardado pros meninos não desmontarem fui
recebida sem acolhimento do sofrimento... “ah, cunhada, falem mal, mas falem de
mim! Isso tudo vai ser esquecido!”. Calei-me e fui deslizante e entrei no
frescor do átrio.
Já
estava há muito sentada quando ele entrou. Olhou-me, pegou minhas mãos e
colocou entre as suas. Não falou nada. Só olhava prá minha alma e segurava
minhas mãos como se segura um passarinho assustado caído na tempestade. Eu
desabada em choro e desespero finalmente podia sofrer... já, já não poderia de
novo...
-
Fica quieta, só respira. Quando tem uma tempestade grande a gente se guarda em
lugar seguro e espera passar prá ver o tamanho do estrago. Mas é preciso
guardar-se, cuidar-se, sobreviver. E você precisa guardar também os meninos.
Sim,
ainda sinto suas mãos segurando um passarinho se debatendo sem forças para um
vôo comprido nem tampoco demorado. E, quando tive a notícia que o COVID-19
havia vencido suas células físicas, me
coloquei em velório tal qual fiz com todos da minha família. Dispus-me ao luto.
Durante todo o dia que velei pela sua memória no dia que se eternizou encantado
ouvi Albinoni... parecia que falava prá mim em seu Adágio...
Nao
sei onde te encontrar
Não sei como te procurar
Mas ouço uma voz que
No vento fala de você
Esta alma sem coração
Te espera
Devagar
Ouvia
repetidamente sua voz na última live que fui surpreendida por sua participação
e disse:
-
Estela, aqui é o Pascoal... um abraço prá você!
Ele
nem sabia, eu não lhe falei... que suas mãos e seus olhos, de verdade mesmo,
abraçavam eu inteira e você me dava e dá espírito livre. Eu
devia ter furado a bolha da live, o tema da amorosidade e falado da sua
importância em mim. Fiquei tão emocionada de você me chamar que emudeci... só falei: Páscoaaaaa, amo você! No dia seguinte teve o diagnóstico de COVID-19, veio às
pressas prá Campo Grande e não encontrei mais o seu corpo. Encontrei na letra
do Adágio uma forma de senti-lo perto... talvez devesse tocar ao piano...
As noites sem pele
Os sonhos sem estrelas
Imagens do teu rosto
Que passam de repente
Me fazem ainda esperar
Que te encontrarei
Devagar
Fecho os olhos e te vejo
Como
pode alguém nascido em Veneza, no século XVII, conhecer tanto o que preciso de
música nesse momento? Tomaso Giovanni Albinoni fez do seu Adágio em sol menor
as mãos carinhosas que me guardaram em velamento do Páscoa... E, nas vozes
atuais de El Divo, quando estava lá pela 10ª. um dia inteiro com muitas
versões, eu já cantava...
Encontro o caminho que
Me leve embora
Da agonia
Sinto bater em mim
Esta música que
Inventei pra você
Se você sabe como me encontrar
Se você sabe onde me procurar
Abraça-me com a mente
O sol pareçe apagado
Acenda o teu nome no céu
Me diga que vc esta ai
O que eu gostaria
Viver em você
O sol como parece apagado
Me abrace com a mente
Perdida sem você
Me diga que vc esta ai e eu vou acreditar
Você é musica
Devagar
E
Páscoa se fez brisa. Fui pensando em como continuar sentindo-o pertinho de
mim... talvez agora eu o sinta mais perto ainda. É como se estivesse na brisa
que entra pela janela, às vezes nos pores-do-sol menos bravos, na poeira baixa
do bocaiuval, no vento sul que faz o tremulum dos rios, nas aparentes águas
paradas dos corixos...
Talvez
porque não lembro de vê-lo gritar, mas do balançar da cabeça frente a alguma
desgraceira contra nossos movimentos por direitos; de ir sempre fazer a curva
prá voltarmos ao lugar de onde paramos... a sapiência, a sapiência. Devagar e
sem parar feito o Adágio que sinto e me mantenho abraçada por suas mãos.
Estela Márcia Rondina Scandola, 58 anos sorvendo a
vida mulherida, publica no Rua Balsa das 10 aos domingos, ainda como convidada.
Hoje com a imagem da região da Serra do Amolar, fotografada pelo compa amigo Joelson Soares.
