Olga chegou em Glória de Dourados em 1972 já congregada nas Irmãs de São José, tendo passado antes por Vicentina. O motivo da vinda do Rio Grande do Sul era apoiar a evangelização nas paróquias que tinha poucos padres.
Era um tempo de
ditadura que ninguém falava disso. Se quisesse ninguém ia nem ficar sabendo ou
perceberia. Veio com o magistério e, trabalhando como professora foi fazer o
curso de licenciatura em estudos sociais. Conta ela que juntava tudo – a missão
da Congregação, a vida de Professora e a licenciatura – e realizava os
encontros de evangelização.
No mesmo tempo,
1974 chegou à família do Carlos Ferrari. Vinham do interior de São Paulo onde
eram meeiros e aqui puderam adquirir uma terra prá família trabalhar. Ele tinha
18 anos, coração e cabelos vermelhos. Nunca tinha estudado nada de socialismo,
comunismo... mas lia a Bíblia e interpretava com a vida.
Somos gente nova vivendo a união
Somos povo semente de uma nova nação ê, ê
Somos gente nova vivendo o amor
Somos comunidade, povo do senhor, ê, ê
Parecia que a coisa
toda conspirava prá formar gente pensante na Igreja Católica e, com a fundação
da Comissão Pastoral da Terra – CPT a coisa toda desencadeou que a
evangelização também falava com e para os trabalhadores rurais. Como
diz Olga:
— Tínhamos um padre
amigo nosso de Caxias do Sul que foi para Goiânia que assumiu logo no começo do
CPT como secretário executivo... vinha nos visitar falando, ajudando
a refletir a realidade que além das celebrações da missa precisávamos avançar
mais junto com os trabalhadores. Começamos a fazer círculos bíblicos refletindo
bíblia e a vida do povo. Nós motivávamos nas comunidades de eles fizessem
durante a semana esse círculo bíblico. Por um tempo preparávamos juntos e com
outras pessoas leigas que também conhecia essa realidade.
Vou convidar os meus irmãos
trabalhadores
Operários, lavradores, biscateiros e outros mais
E juntos vamos celebrar a confiança
Nossa luta na esperança de ter terra, pão e paz, ê, ê
— Aquela forma do
governo de organizar os sítios por linhas era bom prá mobilizar. A gente saía
de bicicleta e logo encontrava os companheiros e convidava prá celebração, pros
círculos bíblicos... E as pessoas confiavam umas nas outras. Eu era um piá,
novo de tudo e, então fazia muito esse trabalho de ir nas casas passar os
recados. Depois da missa, das celebrações então a gente ia prá cozinha e a Olga
fazia um chá de alguma coisa que alguém trazia ou mesmo plantado por ali mesmo
e aí a gente planejava as próximas ações...
A ideia da saúde
como direito tinha presença constante nas rodas com muitos jovens e
praticamente todos eram agricultores familiares. Melhorar a vida na roça era
também trocar ensinamentos dos cuidados em saúde, como diz o Ferrari:
— As mulheres
cuidavam delas e dos homens. Então, uma ia ensinando a outra. Os chás,
emplastos, imobilizações - essas os homens até ajudavam -, parto, dor na
barriga, dor na coluna... tudo tinha uma troca entre as mulheres, mas faltava
mesmo era atendimento para quando precisava de alguma coisa na cidade.
— Não havia nenhuma
organização então começamos a pensar que a organização dos sindicatos dos
agricultores familiar e pequenos agricultores. Era uma possibilidade de começar
a conversar sobre os problemas que eles enfrentavam e como poder melhorar a
vida na roça. Aí trouxemos então estudos, buscando apoio da Comissão da
Pastoral da Terra, também da experiência da Cidade de São Marcos onde meu pai
foi o fundador do sindicato dos trabalhadores rurais daquele município. (Olga)
— Eu lembro que uma
vez, logo que começamos a falar de Sindicato, a Olga trouxe uma cartilha que se
chamava “O ABC do Sindicato” e lá tinha que o sindicato tem que lutar pela
saúde. Foi logo depois da missa que o Padre veio e a Igreja estava cheia que
falaram que era para escolher 9 pessoas para compor a chapa do Sindicato.
Várias pessoas começaram a falar meu nome, mas eu fiquei foi com vergonha
porque não tinha sido conversado em casa e era o pai que decidia. (Ferrari)
— Eu buscava
subsídio em tudo quanto é lugar. Precisava apoiar o povo na organização e o
sindicato era uma importante ferramenta. Aí surgiu o sindicato dos
trabalhadores rurais com o Carlos Ferrari como primeiro presidente. (Olga)
Vamos chamar Oneide, Rosa, Ana e
Maria
A mulher que noite e dia luta e faz nascer o amor
E reunidas no altar da liberdade
Vamos cantar de verdade, vamos pisar sobre a dor, ê, ê
Em Glória de
Dourados a realidade dos agricultores é que eles estavam organizados nas
comunidades pequenas da igreja que a gente chama de capelas porém, na luta por
direitos, por melhorias não havia um trabalho... então juntar as organizações
das capelas com as discussões do sindicato foi uma forma de dar força para a
organização dos trabalhadores.
O atendimento
ambulatorial era no FUNRURAL, instituição criada em 1963, funcionante durante
todo o período ditatorial militar e se destinava à saúde, assistência e
previdência dos trabalhadores rurais - era só o ambulatorial e funcionava no
Sindicato Patronal... então, os trabalhadores tinham dificuldades de
atendimento lá... e, quando se necessitava de hospital era mesmo na Maternidade
da Mãe Pobre. A marca de “mãe pobre” no nome do hospital já denotava a forma de
entender a saúde, ou seja, era coisa de dizer que eram os pobres e era na base
da caridade.
— Muita gente
pensava na saúde como atendimento médico e mais de urgência mesmo... mas a
gente que estava ali estudando, discutindo, organizando os trabalhadores, a
gente sabia que era mais que isso... era cuidar da vida da gente de forma mais
completa... e, o mais importante era manter a alimentação saudável. Isso era
uma conversa no cotidiano da gente. Comida é vida e, por isso que a gente lutou
e luta tanto contra os agrotóxicos. Antes não tinha tanto e todo mundo plantava
quase tudo que comia. E era com saúde na comida. (Ferrari)
Vou convidar a criançada
e a juventude
Tocadores, me ajudem, vamos cantar por aí
O nosso canto vai encher todo o país
Velho vai dançar feliz, quem chorou vai ter que rir, ê, ê
O tempo corria mais
devagar e a ditadura seguia matando gentes... Mas como registrou aquele povo ali
primeiro cuidava-se da terra prá depois colocar as sementes, uma a uma.
Plantavam-se sementes de grandes árvores, de médias árvores, sazonais
rasteiras, floreiras e trepadeiras... Ali, nas pedaladas de bicicleta, nas
leituras do Jesus libertador semeou-se o SUS... Será que é por isso que no
artigo 196 consagrou-se a universalidade e registrou que esse nosso Sistema tem
que começar pela Promoção, Proteção e depois a Recuperação da saúde?
É possível que o
movimento dos trabalhadores rurais não tenha sabido falar as palavras chiques
feito integralidade, equidade, descentralização... mas plantaram canteiros que
os legisladores e acadêmicos tiveram que aprender a colher!
Estela Márcia Rondina Scandola
60 anos de direito aos afetos e
dengos
Música: Baião das Comunidades- Zé Vicente