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14 março 2021

ÀS VELHAS, A MESINHA DE CANTO COMO DESTINO?


 


Quando estamos em capacitação no SUS, quem mais ganha somos nós mesmas, as tais facilitadoras. E, quando acompanhamos o mesmo tema por anos a fio, a cabeça da gente vai construindo um lastro de raciocínios e eu, como tantas outras, fui separando as pequenas histórias para pensar em minha própria vida. Uma dessas foi sobre a mesinha de canto.

A Cláudia, praticamente em todas as capacitações sobre violências contra as mulheres, quando começa a falar das velhas, faz a metáfora da mesa de canto. E sempre a faz no diminutivo: as idosas como mesinhas de canto.

Demorei muito prá trazer prá minha vida essa ideia. Há uns quinze anos achava exagerada, uns dez comecei a lembrar de alguns casos e há uns cinco anos comecei mesmo a pensar como possível a todas nós, sendo do SUS facilitadoras da educação ou sendo de quaisquer outros lugares.

Mas foi, no ano passado, já chegando a pandemia do COVID, numa fraterna conversa de pré-idosas, outra Cláudia e eu nos pusemos a pensar sobre o que nos amedronta na velhice e lhe falei da metáfora proposta pela Cláudia I.

A ideia de ser convertida naquela figura que serve para o enfeite da sala, que guarda os objetos históricos, que se arruma de forma combinante com os demais móveis, que não interfere em nada que possa acontecer na casa, mas pode servir para que crianças e cachorros fiquem perto (gatos não obedecem, mas poderiam esconder-se à noite, ao afago dos outros objetos que estão sobre a mesinha). Lembramos que talvez possam colocar um abajur sobre a mesinha. É, a mesinha tem a serventia que queremos dela, desde que não se meta a fazer o papel que não lhe destinamos.

Sim, dá medo o andador, a bengala, as muletas, a cadeira de rodas... tudo amedronta a quem nunca precisou desses suportes. Diminuiria nossa independência funcional... que palavras esquisitas... esquisitices puras...

Mas nada dá mais medo que o envelhecimento comprometesse nossa autonomia. Estávamos na curtição de buscar música boa enquanto conversávamos e o Ney passou a ser uma audição obrigatória... é muita coisa boa cantada pela expressão do Ney. Ele não é voz, é um ser inteiro. A voz e corpo são uma unidade e a forma como se expressa é sempre um todo. Lembramos dos Secos e Molhados, dos Homens com H, rimos...  E, quando veio Mulheres de Atenas, a interpretação do Ney nos fez em silêncio. Aquietamos. O que será que o Chico queria com essa letra, hein? Que porra é essa mulher de Atenas? Daí ficamos em nossos celulares procurando na internet e descobrimos que o Chico compôs junto com o Boal, que é de 1976 e que foi para a peça Lisa! Pronto, já desviamos prá falar da política na música, do regime militar... e a música tornou-se a discussão sobre o silêncio imposto às mulheres e como fazem o bordado da vida enquanto isso... nas suas quietudes fazem seus registros revolucionários do dia-a-dia.

E quando envelhecem? Por certo, até meados do século passado, cinquenta anos já eram velhas... agora, quando passaram a ter renda com aposentadoria, quando começaram a morar sozinhas... a falar de sexualidade entre as amigas, quando é que se tornaram envelhecentes?

-Eu não quero ser idosa...

- Nem melhor idade

- Cruzcredo!

- Vamos ser velhas...sem espírito jovem!

- Espíritos da nossa idade... é... e alegres, viajantes, cantantes, dançantes, escreventes...Como a Rita... “ Cor de rosa choque”



E nos pusemos a cantar.... oh Rita fodástica! Era um riso só o que podemos ser sendo velhas. Lembramos da cena do Aquárius em que a tia que fazia 70 cobrou dos sobrinhos os seus registros de amantes e sexo... rimos! A maioria das pessoas que assistiu ao filme não entendeu a cobrança da tia. Lembrei que tive que dizer a um dos filhos: é que na nossa velhice há um movimento de negar nossa vida sexual. Nada! O filho não entendeu e falou que a cena era desnecessária... rimos!

- Mas, mas... e a mesinha de canto!

Novamente o silêncio. Lembrei que nas ILPI (Instituições de Longa Permanência de Idosos), aquelas que são da rede socioassistencial, bancadas pela política de assistência social, mais de 60% são homens. Tem lugares que chega a 80%. Então, tá explicado, os homens vão prá ILPI e as mulheres são transformadas em mesinha de canto. No diminutivo mesmo... algo de enfeite, sem importância funcional!

Sim, ninguém pergunta à mesinha de canto onde quer ficar... aliás, já é desenhada triangular prá fazer o encaixe! Pior, ainda dirão alguns do relevante papel de filhos e filhas no acolhimento das velhas... E, a elas, alguém terá perguntado?

Aquelas com mais condições financeiras talvez consigam sair do canto... aquelas que ganharem pouco ou nenhuma renda, talvez não! Então, lá vem de novo a questão de classe econômica também determinando a vida das velhas... e, junto com ela, o machismo e jovencismo... E esses vão se adonando de nós!

Talvez nos reduzam a avós, bisavós... de novo, nos reduzindo... à maternidade e ao cuidado... e muitas não conseguiremos sair da doce condição tão aceita e querida da sociedade... faremos sucesso no facebook, nas fotos do insta, nos discursos lindos e cristãos... Desde que não sejamos inteiras... só parte combinante com a hipocrisia coletiva.

Às velhas... bem, às velhas.... ainnnnn! Lá vem de novo a contínua luta: o grito da autonomia, sermos adonadas de nós mesmas!  Que nenhuma diminuição da nossa independência funcional seja motivo prá não respeitar nossa autonomia... nenhuma!

Eu, Cláudias, Bias, Lias, Tânias, Nancis, Miranes e.... tantas Marias, Cleuzas e Marlenes... mulheres da crasse trabaiadora, sem posses ou grandes rendas, precisamos sair do destino de ser mesas de canto! Não nos esqueçamos: estamos no limbo – nem somos sem renda prá ser atendida pela assistência social e nem renda suficiente para pagar um apart e muito menos uma clínica... somo limbo, limbo!

Tô desconfiada que sozinha não daremos conta. Só se nos juntarmos mesmo... Se sozinhas, nos comprarão um batom rosa, esmaltes nudes e roupas pastéis. E nos chamarão de boneca.... uiiiiiii

Vamos manter chamadas emergenciais nos celulares (aumentando a letra dos teclados)!

E, pelas nossas histórias de enfrentamentos, não fazendo os silêncios das mulheres de Atenas, vamos sair por aí: Velhas Unidas jamais serão vencidas!

E vamos já comprar chapéu roxo! Ou rosa choque! E todos com flores.

Estela Márcia Rondina Scandola, 58 anos sorvendo a vida mulherida, publica no Rua Balsa das 10 aos domingos como convidada 

 

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