Quando se vive uma situação de violência às vezes
é preciso mais que 25 anos prá parar de engasgar ao falar dela. Outras vezes,
querem lhe arrancar a fórceps em roda de conversa amiga e aí, sai rasgando as
entranhas. E, para muitos profissionais do cuidado em saúde, o fato de ser na
outra pessoa, pensam que se vai falando como se não gorfasse os amargos féis.
É também difícil relatar por escrito as
violências e, quando o fazemos é sempre a vista vista de um ponto. A alteridade
de quem ouve é um exercício imenso, mas só sabe a dimensão mesmo do sofrimento
quem sofreu. A racionalidade de quem ouve e registra é sempre colonizadora, sem
os sentimentos, embora possa se emocionar. É a interpretação racionalizada,
filtrada com sua própria história. Quem ouve a outra pessoa, a ouve a partir de
si. Talvez, por isso, fico a pensar na história da Edith contada... eu a ouvi,
mas não tenho ainda a dimensão do sofrimento. E, isso já me deixa mais perto do
real, proporcionado pela humildade tão necessária aos humanos. Muitos a perdem
na busca desenfreada de a tudo saber opinar sobre os outros.
Mas falar das violências sofridas depois de cervejas demoradas no Park´s, com amigas feministas e o menino da boca bonita cantando é, segundo a Edith, abrir a porta e soltar o sofrimento e ir voar com os passarinhos da praça Itanhangá. Tem o sentido da liberação dos espinhos e poder saborear melhor a matula pantaneira com pimenta. Os segredos do Park´s ainda estão por lá e nos corações, ah, estão....
Quando Hilda ligou para Edith ela estava ainda no
centro da cidade já chegando na Cel. Antonino. Atendeu o celular e a cuidadora
do dia perguntou se podia chegar um pouco mais cedo, pois ainda queria ir na
novena da Perpétuo Socorro. Avisou que a fralda do Sr. Verardo tinha acabado.
Estava com diarreia novamente. Parou, comprou dois pacotes de fraldas e pensou:
eu que pensei que só compraria fraldas até as meninas crescerem... agora compro
todas as semanas. As despesas divididas entre as filhas só aumentavam. Ainda
bem que agora o marido estava em um trabalho bem remunerado. Pela primeira vez
não era ela a responsável pelo sustento maior. Agora dividiam.
Quando chegou em casa, as meninas assistiam
Castelo Ra-tim-bum.
- Meninas, fiquem de olho no vovô. Vou levar
Hilda até o terminal e volto correndo. Não deixem ele sair... de jeito nenhum!
Enquanto iam para o terminal do Galosório
começaram a conversar sobre a rapidez com que a doença foi tomando o cérebro do
Verardo. Homem garboso, gostava de dançar, cantava a mulherada toda e, quando
começou a ter falhas e ficar ausente da realidade, nem se suspeitou de
cisticercose. Doença tão antiga, tão desprezada nos atuais consultórios
médicos... tão cruel. Lembramos do charme com que o velho se vestia, os
perfumes que gostava, as calças brancas e os sapatos sempre limpos e
brilhantes. Conviver com o outono de quem gostamos e admiramos é sempre um
exercício de revolta, aceitação e sofrimento. Eram dois cuidadores contratados
e vários no entorno, especialmente nos dias de folga e nos horários de passagem
dos plantões - duas horas a tarde e uma pela manhã sem cuidadores externos.
Sim, homens e mulheres vivenciam o cuidado de
forma diferente. Mulheres falam e falam com as demais pessoas e vão expulsando
as dores, colhendo histórias e vão construindo o cuidado com partilha. Os
homens cuidadores geralmente são mais calados, falam quando são instigados e
costumam conversar de outros assuntos que não o foco do que estão fazendo. Cada
um vai regulando o sofrimento do cuidado à sua maneira..., da forma como homens
e mulheres foram sendo constituídos nas relações de gênero, especialmente no trabalho
reprodutivo, tão fundamental na manutenção do mundo produtivo.
Hilda e Edith perderam-se conversando por uns 10
minutos. Quando retornava começou a se programar para aprontar a janta, brincar
com as meninas e quando Eugênio chegasse para o turno do cuidado, então se
entregaria a terminar a dissertação de mestrado. O marido, nesse trabalho
público novo, sem hora prá voltar... nunca mais estava nas partilhas dos
deveres e prazeres do cotidiano... então, o jeito mesmo era programar sem
ele... caso chegasse, entraria na programação feita.
Quando tentou abrir a porta verde prá entrar, ela
estava trancada. Bateu forte e Lucía veio abrir de olhos arregalados e com as
roupas molhadas... escutou os rumores altos do banheiro, jogou a bolsa e os
pacotes de fraldas no sofá e correu. Juanita chorava e dizia: mãe, não sei
cuidar do vô... ele é forte... e não deixa a gente dar banho nele..! Era uma
cena difícil de descrever. As meninas com suas camisetas e shorts sujos de
merda, as paredes, o fedor tomando conta da casa e Verardo tentando tirar a
fralda e, com as mãos emerdava os azulejos e se mostrava bravo porque queria
sair e ir comprar cigarros.
Edith olhou e falou firme para ele: Verardo, olha
prá mim! Agora vamos tomar banho. Ele olhou prá ela e entrou no seu mundo
novamente. Ficava totalmente dominável. Teria sido a bronca ou os minutos de
lucidez que tinham findado novamente? Quanto tempo demoraria prá ficar lúcido
de novo? Meia hora, um dia? Não se sabia quando os neurônios funcionariam
novamente. Oh doença terrível!
Olhou prás meninas e elas ainda assustadas agora
choravam sem medo. Tirou as roupas sujas e fedidas, cuidando prá nada pegar nos
cabelos. Falou prá irem no outro banheiro brincar no chuveiro. E, quando
começava a dar banho no Verardo, sentiu que precisava chorar também. Podia! As
meninas estavam no outro banheiro, Verardo podia ficar sentado no vaso (ele
ficava muito nesse lugar, sempre quieto!) e ela tinha que limpar o quarto prá
depois ele deitar. Quando entrou no quarto havia um rastro de merda... Papel? Pano? Detergente? Desinfetante? Água
sanitária? Ligar ventilador? Abrir janelas? Vomitar? Gritar? Sem tempo prá
chorar... depois chegaria uma hora certa.
- Estou aqui, Edith!. A voz mais incrível que
podia vir naquele momento. Era Eugênio, o cuidador da noite que chegara mais
cedo. Depois você me conta, ele disse. Agora vai ficar com as meninas... Vamos
passar água sanitária, sentamos o Verardo na cadeira da sala e, depois que
secarmos tudo, passamos desinfetante no quarto. Vou colocar os três ventiladores
da casa prá ver se espanta o cheiro.
Ainda teimou desfez rolos e rolos de papel
higiênico, juntou as merdas maiores e colocou numa sacola plástica e fechou.
Quando levou na lixeira grande do fundo começou a vomitar. Usou o tanque de
roupa. Estava nova quando entrou no banheiro com as meninas. Sentia o cheiro do
shampoo e ficou brincando com elas. Quando a fome chegou, pediu sanduiche no
carrinho do bairro, fez suco de polpa e estendeu toalha na varanda. Fizeram
piquenique em quatro. Brincaram de contar história em círculo e riram muito.
Há seres masculinos diferentes... via o cuidador
contratadoscomo sendo um pouco mais ligado ao universo do trabalho reprodutivo.
Era menos rude, conversava sobre o cotidiano, lides domésticas... É! Poderiam
os netos serem melhores como cuidadores... ou mesmo os meninos que estiverem no
seu redor... boa conversa! Ela e o cuidador não se olhavam, era um pacto prá
ninguém desmanchar a coragem.
Às nove da noite colocou as meninas prá assistir
televisão por uma hora, espalhou os livros sobre a mesa da cozinha e pegou o
computador prá saber onde tinha parado na dissertação. Abriu o word e precisava
fechar as tais conclusões. Era final de maio e a orientação seria no dia
seguinte. Então era desligar da vida do cuidado e ligar na vida de estudante de
mestrado. Quando já ia girar a chave escutou o carro do marido chegando.
Pensou: ufa! Agora posso ir até a hora que eu conseguir. Ele vai tomar cuidado
da situação!
- Oi, baixinha! Tudo bem por aqui? Aconteceu
alguma coisa? Tá um cheiro forte de desinfetante...
- Então... foi muito difícil tudo o que
aconteceu... ainda bem que o Eugênio chegou mais cedo...
Ao iniciar a narrativa começou a chorar feito
catarse... esperou o abraço, a acolhida... mas logo lembrou que tinha que
terminar a dissertação... falou: mas olha, toma conta de tudo agora que preciso
me concentrar... tenho prazos... e orientação amanhã cedo.
- Mas tô vendo que tá tudo tranquilo. Você é que
ficou nervosa... vou assistir TV com as meninas. Antes quero lhe falar uma
coisa: tem um pessoal que está aqui no estado fazendo cirurgias plásticas e
acho que você podia ser encaixada...
- hum... cirurgia plástica? Como assim?
- Então, daria prá você tirar a barriga... é
fácil e aí você ficaria mais bonita.
Ela olhou prá tela e escreveu: Eu, a merda e o
macho! Depois pensou melhor: O cuidado, a merda e o canalha... e foi brincando
com as palavras. Selecionou tudo digitado e deletou. A orientadora, feminista e
companheira entenderia a não produção das conclusões da dissertação.
Olhou prá ele fixamente. Não falou nada.
Tentou quebrar o biscoito ao meio, não deu... ,
bolacha de água e sal quando quebra não junta mais... só espatifa.
Ainda hoje não consegue rir e nem chorar. Mas consegue ler e melhorar o registro que
fiz.
Estela Márcia Rondina Scandola, 58
anos sorvendo a vida mulherida, publica no Rua Balsa das 10 aos domingos, ainda
como convidada
