Maria Amélia Mano
Na
rodoviária de Uruguaiana, ela me diz decepcionada: “só tem ônibus, agora, às 22
horas...” Eram recém 16 horas e já não me importava a espera. A riqueza dos
dias me fazia conformada no cansaço e na alegria de partilhas e descobertas.
Estou voltando de andança. Andança de recolher pequenos tesouros para caminhos
que se seguem. Querência.
E
observo os andarilhos de fronteira, todos com seus cobertores cinza, barbudos,
guardando culpas, vícios, vozes e vultos e algum sorriso quando olhados, de lado,
de longe, com respeito. Personagens tantos de estradas longas, retas, onde os
ventos seguem livres. Histórias. Estão em mundo de eterna caminhança e
mistério.
“Por
favor! Quero um xis filé com bastante tomate e uma cerveja dessas aí!”, digo
para a menina da lancheria. Já que a espera é inevitável, que venha com algum
prazer e brindo sozinha. Em seguida a senhora de sorriso aberto como o caminho,
me traz o lanche: “Caprichei pra senhora!”. Agradeço! Ficamos amigas.
A
fome vai passando enquanto os caminhos percorridos aparecem. Amigos em
estradas. Um mineiro falante se une. Cantamos Anunciação do Alceu Valença com
múltiplos sotaques. Sol se pondo e o mineiro diz: “eu já escuto os seus sinais”.
E fala de política, livro, filme, de novela e dos discos voadores. Muitos, dizem, muitos.
O
sabor simples dos mundos mágicos das minas de ametista me alimenta a alma.
Homens e seus sonhos. Gotas d’água dos túneis escuros. Ecos de vozes curiosas. Natureza
que se abre em gemas lilases, violetas flores, transparentes algumas, energias
de limpar e proteger. Sustos em buscas e descobertas de um tempo em que toda a
pampa foi mar.
“Gostou
do meu lanche?”. É a pergunta da senhora sorridente que chega para limpar a
mesa. Digo que sim, que amei, que ela realmente caprichou e que vou ficar ali a
tarde inteira esperando. Que mais tarde pediria mais alguma coisa. E ela segue
em limpeza de chão. E eu sigo em espera, em lembrança. Homens chegam para o
jogo. Movimento. Torcidas.
Estrada.
Ao longe, luzes vermelhas se acendem e se apagam como enfeites de uma árvore de
natal. Um aviso de extraterrestres? Apenas as pás dos imensos cataventos
brancos e finos dos parques eólicos. Energia de vento. Vento que atravessa os
andarilhos, os discos voadores, as pedras mágicas, as esperas e os sorrisos. E
quando vejo, são 21 horas.
“Quero
só um café com leite com mais café e um pãozinho com manteiga, por favor!”.
Logo a senhora me traz o pão em um prato e a xícara: “Aqui em cima é a natinha
do leite que ferveu, não se importa?”. Não me importo nada! O movimento já é de
fim de dia e despedida. Abraço, elogio, agradeço. Seu nome? Ela diz, humilde:
“Nice”.
Partida.
Cansaço. Sonho. Andança, caminhança, espera, esperança, querência, chegança entre sonhos
lilases de vento andarilho que canta com os discos voadores da fronteira. Eu,
já desperta, pronta para o dia novo, novo dia, que se abre em sol e sorriso
humilde. Em carinho passageiro de caminho.
No fundo da alma, nesta manhã, sinto saudades de Nice.


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