Maria Amélia Mano
DOS CÓDIGOS E RECUSAS
Faz tempo e, no calor de crenças
e julgamentos, uma pediatra não quis atender mais uma criança porque seus pais
eram de partido político contrário. Sem detalhes da forma como o fez e dos
argumentos que usou, o caso ganhou repercussão na mídia e redes sociais as falas
eram acusatórias se reportando ao código de ética médica, omissão de cuidados e
outros possíveis crimes cometidos pela profissional. Não era uma situação de emergência/urgência, mas um acompanhamento de rotina.
Por
três momentos na vida profissional, eu “passei adiante” por não querer mais
atender uma pessoa. Uma vez, ainda residente, era uma mulher etilista que não
aceitava o diagnóstico, não queria parar de beber e tampouco atribuía seus
sintomas óbvios à bebida. A história poderia ter sido outra. Eu poderia ter
sido mais hábil, o que exigia uma maturidade que eu não tinha. É sempre bom
testar nossa frágil humanidade. Mas há limites e não fui pior que ninguém, por
isso. Aprendi.
A
outra pessoa foi bem mais tarde. Houve quebra de confiança quando fui ameaçada por um paciente. No
entanto, apesar de ser mais grave que a primeira vez, eu era mais madura e, com
o tempo e outros encontros em sala de espera e com familiares, fui
reconstruindo a relação e hoje, temos respeito mútuo e até faço minhas
brincadeiras para descontrair, nas consultas. Ele até ri. São desafios mas,
também não sou melhor do que ninguém por ter revertido.
Uma
outra situação foi no ano passado. Um homem jovem, sempre no final do turno de
atendimento, sempre comigo, sempre com queixas urológicas em que, obviamente,
mostrava o órgão sexual. E nunca tinha nenhuma lesão. O meu desconforto foi
aumentando até que eu pedi para colegas homens atenderem ele. Assim, em pouco
tempo ele não mais vinha consultar. Não problematizei. Foi recusa silenciosa e pactuada com pares. Sempre me pergunto se era o melhor jeito. O fato é que ele não veio mais. Perdeu a graça...
Como
admitir: “não consigo te atender”. Nós, por um lado semideuses desprovidos de
sentimentos “inferiores” como antipatias e rechaços e até, nojos? Nós,
maravilhosos e benevolentes que não fazemos julgamentos, somos compreensivos e
afastamos quaisquer impeditivos para realizar nossa mais nobre missão de
cuidar. Nós que somos imparciais e estamos ali, sempre, inteiros e dispostos a
escutar, afastando nossas questões pessoais...
Será
que existimos?
Sinto em dizer que fazemos o que podemos e os desafios internos são
maiores e mais árduos. Dizer que política é motivo fútil, não serve. Cada um
com suas histórias compõem um conjunto de fortalezas e fragilidades e algo
simples para um, pode ser imenso para outro. Por que, para mim, era mais
difícil o etilismo mal resolvido de uma mulher frágil do que a ameaça à minha
integridade física por um homem maior que eu? E resolvi facilmente algo mais difícil como um
possível assédio, mas perdi o vínculo.
Fiz certo? E, hoje? Como
seria?
Hoje,
talvez, algumas questões se resolvessem mais facilmente e outras, fossem mais complicadas
porque não sou um livro com um título para cada caso. Uma saída mágica. A saída
perfeita. Sou uma pessoa com uma história e uma vida e, um dia, mais triste,
outro dia, mais animada e ainda, mais um dia, no fim do dia, mais cansada.
Exigência
cotidiana, desafio que não é só para o outro, sentado na minha frente, tentando
se fazer entender, mas para mim e minhas possibilidades não só de entendê-lo, mas
de aceitá-lo e de construir relação, vínculo e saídas, com e apesar dos meus
sentimentos e medos. Não há códigos. Não há receitas. Não há. Mas é preciso
entender de limites, de limiares, de lumiares.
Essas luzes
que nos aparecem, em parceria, construindo o pacto possível do cuidado possível.
Conversa entre humanos e não entre um Deus e um humano. Iguais nas
imperfeições. Mas, exatamente porque há uma intencionalidade, a de ajudar, a de
não prejudicar, há o doloroso e necessário momento da recusa.
Não dar conta
e reconhecer não é fracasso. É maturidade. É ampliar as chances do outro de ser
mais bem assistido. É diminuir as violências. É se permitir a humanidade. É
aprender e, quem sabe, o que recusamos hoje, poderemos abraçar com competência,
em outro momento. Quando poderemos olhar para o outro e para nós ao mesmo
tempo. Arte de ser junto. Arte de buscar juntos. Escuta. Cuidado. E aquele
abraço no fim da consulta que vale todo o dia.

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