Maria Emília Bottini
Adentra pela porta uma mulher com uma pasta verde em suas mãos usando luvas cinzas, roupas simples e um chapéu na cabeça. Não está frio, são utensílios a lhe proteger do sol e de olhares de estranheza. Ela se aproxima de mim e tira suas luvas e me oferece uma rifa que está vendendo. As marcas de queimaduras estão pelo corpo e são visíveis, são feias, são amassadas e moldam a dor que ainda imagino que sinta. Ela carrega em sua pele, ou que sobrou dela, cicatrizes que o fogo deixou para trás.
Vende rifas pela cidade, os recursos são para uma nova cirurgia, a décima segundo relata.
Acidentes domésticos podem acontecer, em uma rápida distração e pronto lá se vai a vida que tínhamos e este evento pode mudar para sempre o percurso da história e o modo como somos. A vida é frágil, muito frágil. Portanto é preciso ter cuidado, mas não se iluda não temos o controle de tudo.
Sua história poderia ser a de qualquer um de nós em um dia comum.
Narra que foi acender o fogo na churrasqueira em um domingo qualquer para fazer um churrasco em família. Em suas mãos seguravam o frasco de álcool. Ela jogou sobre o carvão um pouco dele (não precisa muito para causar estragos) que acendeu imediatamente e a explosão atingiu o frasco, ao se assustar puxou contra seu corpo o objeto e o fogo queimou parte do seu rosto, pescoço, braços, mãos, barriga e pernas. As roupas grudaram e aderiram em sua pele, as queimaduras foram de terceiro grau causando danos à pele e tecidos mais profundos. O que vejo são muitas cicatrizes que denunciam o acidente muito tempo decorrido, e a lembram da dor dos segundos de distração e descuido. Bem que dizem por aí que com fogo não se brinca.
Permaneceu na UTI por longos e intermináveis dias e segue em tratamento para reconstituir o perdido, mas jamais recuperado, a beleza de uma pele sem cicatrizes. Ela tem clareza que não está atrás da beleza que se fora, sua busca é por sentir menos dor e isso já seria muito. O corpo transmutou e é preciso aceitar e continuar.
As marcas são visíveis nas partes em que as roupas não podem cobrir, não dá para esconder todo o corpo é preciso conviver com o feio, o enrugado, com a dor de ser quem se tornou após o acidente, aceitar que as coisas mudam e fazer o possível e o necessário para conviver com as mudanças.
As cicatrizes doem, mas ela sobrevive. As dores são persistentes, mas segue lutando para seguir em frente, o fogo não queimou sua vontade de continuar, de seguir adiante, não sem esmorecer vez ou outra, eu suponho que seja difícil está luta.
Conhecer está mulher me comovi com a sua história, com sua luta. Conheço muitas mulheres em busca de beleza estética e vejo programas de televisão a retratar a busca desenfreada por tirar costela para afinar a cintura, botox em lábios, colocar silicones exagerados, tirar, arrumar, colocar as vezes sem necessidade alguma a não ser consertar por fora o que não conseguem concertar por dentro.
Ao contrário essa mulher busca apenas conviver melhor com suas cicatrizes a lhe proporcionar menos dores, ela é jovem, mas está aposentada por invalidez devido ao acidente e as impossibilidades de trabalhar, sua renda não dá conta dos vários tratamentos, pomadas e cirurgias que ainda precisa fazer.
Me questiono de onde vem sua motivação para sair de casa quase que todos os dias para conseguir migalhas alheias? Certamente tem muita força interna e desejo de transformar cicatrizes em luta, em vida. Quando ela saiu pela porta, deixou no ar uma vitalidade permeadas pela crença de que a vida vale a pena ser vivida da forma que ela se apresenta, deste que se aceite o percurso. A vida por vezes não é nada fácil e para alguns se torna um rosário de tentativas para aplacar marcas que carrega.
[Maria Emília Bottini publica no Rua Balsa das 10 aos Sábados]

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