Maria
Emília Bottini
Não
conheço o homem alto e magro que chega até mim, vestes simples e mãos de
trabalhador, fala rápida e ansiosa, precisa voltar ao trabalho. Veio buscar uma
sacola que sua irmã esqueceu em cima da mesa e precisa levar para ela antes do
meio dia.
Conheci
rapidamente sua irmã, mulher magérrima, estava acompanhada de uma amiga a quem
descreveu como irmã da vida, de escolha; saíram distraídas e sorridentes de
estarem juntas. Saiu rapidamente esquecendo sobre a mesa uma sacola.
Horas
depois seu irmão apareceu para buscar os objetos esquecidos. A pressa inicial
deu lugar à fala necessária, aquela que nunca fora dita a um desconhecido.
Ele,
de forma espontânea, sem pergunta ou curiosidade de minha parte, narra a
história da irmã com o coração partido dizendo que ela era transtornada pela
vida e que o esquecimento era consequência do sofrimento que viveu. “Essa minha
irmã já sofreu muito nessa vida”, diz ele.
Senti-me
instigada a ouvir, pois parecia apelar pela escuta silenciosa de minha parte e
assim o fiz. Afinal, sou psicóloga onde quer que eu esteja e o sofrimento
humano é coisa séria e me interesso por ele.
Muitas
histórias de vida são carregadas de poucos momentos de alívio, de prazer, mas
sim feitos de muito sofrimento e dor.
Ele
conta que sua irmã teve câncer nos seios e precisou retirar as mamas.
O
marido morreu afogado (seria suicídio?), ela só tinha um filho e esse se
suicidou no paiol da propriedade; ela que o encontrou, era usuário de drogas, teria
visto o pai se afogar quando menino (quanta dor sem escuta!).
Relata
que sua irmã seguiu aos trancos e barrancos tocando a vida, tirando forças sei
lá de onde, não possuía terra e sem pedir opinião para ninguém comprou a do
vizinho que a enganou na negociação, tendo um enorme prejuízo financeiro e até
hoje espera pela justiça para ser dona do que comprou com o suor de seu
trabalho.
Anos
depois na porta de sua casa deixaram uma menina recém-nascida com síndrome de
down, não quis devolver ou entregar para a assistência social. Acolheu, criou dando
o pingo de amor que ainda dispunha dentro de si. Convive com a menina, hoje
adolescente que lhe faz companhia, a mantem viva e assim encontra sentidos para
continuar existindo.
O
homem falou, falou... ele precisava falar, contar da irmã, contar de si. Os
objetos esquecidos revelam que sua mente está cansada, cansando.
Quanta
dor em uma só vida?
Quanto
podemos suportar?
Onde
encontrar amparo para seguir?
O
que nos move adiante?
Só
sei que essa mulher continua se movendo, não se entregou para a vida, não se
dobrou, mas vergou e seguiu. Foi amassada, marcada, torcida e continua teimosamente
vivendo.
Ela
tinha motivos de sobra para desistir, mas persiste. Persiste, não desiste e por
que será?
O
irmão sai pela porta carregando a sacola e a história da irmã em suas mãos. Eu
fiquei com a história da irmã que passei a carregar dentro de mim a pensar que
a dor que dói deveria ao menos ser escutada vez ou outra, mas estamos com muita
pressa para emprestar tempo e ouvir sem interferir, permitindo minutos de
alívio da dor que dói por dentro e como dói.
Nesse
instante, em minha mente, ressoou a frase de Clarice Lispector: “Da minha dor
sei eu” e como sei.
[Maria Emília
Bottini publica no Rua Balsa das 10 aos Sábados]

Excelente vivência, nossas vidas se valorizam nos encontros. Assistir, vivenciar, compartilhar, são algumas de nossas possibilidades diante dos encontros, casuais?
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