21 março 2020

DA MINHA DOR SEI EU



Maria Emília Bottini

Não conheço o homem alto e magro que chega até mim, vestes simples e mãos de trabalhador, fala rápida e ansiosa, precisa voltar ao trabalho. Veio buscar uma sacola que sua irmã esqueceu em cima da mesa e precisa levar para ela antes do meio dia.
Conheci rapidamente sua irmã, mulher magérrima, estava acompanhada de uma amiga a quem descreveu como irmã da vida, de escolha; saíram distraídas e sorridentes de estarem juntas. Saiu rapidamente esquecendo sobre a mesa uma sacola.
Horas depois seu irmão apareceu para buscar os objetos esquecidos. A pressa inicial deu lugar à fala necessária, aquela que nunca fora dita a um desconhecido.
Ele, de forma espontânea, sem pergunta ou curiosidade de minha parte, narra a história da irmã com o coração partido dizendo que ela era transtornada pela vida e que o esquecimento era consequência do sofrimento que viveu. “Essa minha irmã já sofreu muito nessa vida”, diz ele.
Senti-me instigada a ouvir, pois parecia apelar pela escuta silenciosa de minha parte e assim o fiz. Afinal, sou psicóloga onde quer que eu esteja e o sofrimento humano é coisa séria e me interesso por ele.
Muitas histórias de vida são carregadas de poucos momentos de alívio, de prazer, mas sim feitos de muito sofrimento e dor.
Ele conta que sua irmã teve câncer nos seios e precisou retirar as mamas.
O marido morreu afogado (seria suicídio?), ela só tinha um filho e esse se suicidou no paiol da propriedade; ela que o encontrou, era usuário de drogas, teria visto o pai se afogar quando menino (quanta dor sem escuta!).
Relata que sua irmã seguiu aos trancos e barrancos tocando a vida, tirando forças sei lá de onde, não possuía terra e sem pedir opinião para ninguém comprou a do vizinho que a enganou na negociação, tendo um enorme prejuízo financeiro e até hoje espera pela justiça para ser dona do que comprou com o suor de seu trabalho.
Anos depois na porta de sua casa deixaram uma menina recém-nascida com síndrome de down, não quis devolver ou entregar para a assistência social. Acolheu, criou dando o pingo de amor que ainda dispunha dentro de si. Convive com a menina, hoje adolescente que lhe faz companhia, a mantem viva e assim encontra sentidos para continuar existindo.
O homem falou, falou... ele precisava falar, contar da irmã, contar de si. Os objetos esquecidos revelam que sua mente está cansada, cansando.
Quanta dor em uma só vida?
Quanto podemos suportar?
Onde encontrar amparo para seguir?
O que nos move adiante?
Só sei que essa mulher continua se movendo, não se entregou para a vida, não se dobrou, mas vergou e seguiu. Foi amassada, marcada, torcida e continua teimosamente vivendo.
Ela tinha motivos de sobra para desistir, mas persiste. Persiste, não desiste e por que será?
O irmão sai pela porta carregando a sacola e a história da irmã em suas mãos. Eu fiquei com a história da irmã que passei a carregar dentro de mim a pensar que a dor que dói deveria ao menos ser escutada vez ou outra, mas estamos com muita pressa para emprestar tempo e ouvir sem interferir, permitindo minutos de alívio da dor que dói por dentro e como dói.
Nesse instante, em minha mente, ressoou a frase de Clarice Lispector: “Da minha dor sei eu” e como sei.


[Maria Emília Bottini publica no Rua Balsa das 10 aos Sábados] 


Um comentário:

  1. Excelente vivência, nossas vidas se valorizam nos encontros. Assistir, vivenciar, compartilhar, são algumas de nossas possibilidades diante dos encontros, casuais?

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