Maria Amélia Mano
Sei que
tempo é tocaia. Sorrateiro, às vezes atalha, às vezes atravessa, às vezes trama,
tece estio e chuva, curva e reta, janela aberta, soleira de porta, fuligem de
fogão e alma, horas roídas por lua de plantar, colher, nascer e morrer.
Sei que
tempo é coivara, braseiro de memória, rasgo e rastro de água do céu, dos olhos
que escorre em telha e terra, pés descalços, cabelos molhados, secura e
umidade, cerração e orvalho, sol pela metade ou inteiro, nascendo ou indo, escondido
ou brilhando, como nós.
Sei que
tempo é benção de mãe e vó. Insistência, esperança, partida e chegada, farinha
de milho escapando pelos teus dedos, preparando alimento e canção, unindo
nossas mãos que rezam e eu queria, ah, eu tanto queria, o infinito!
Mas se
infinito é pergunta, mistério, que tempo de sempre seja hoje, que sonho que
venha seja agora e eu quero somente o desenho simples e delicado daquela
florzinha branca de cheiro suave, aquela primeira que tu me deste, tatuada na
minha pele até o tempo da gente existir.
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