10 março 2020

GAZETA DE SOLIDÃO




Maria Amélia Mano

E foi só assim. Simples assim. Dois velhinhos, Laerte e Aderbal se abraçam e choram. Pensar que tudo começou pelo hábito de Aderbal de ler a página do folhetim da cidade. Gostava das histórias de perdidos e achados. Pessoas.

Manoel, o Manéu, que saiu de Passa e Fica, Rio Grande do Norte, aos 18 anos dizendo que nunca mais ia voltar. Tua irmã, Miriam, que tinha 12 anos na época e te amava muito, te procura há 20 anos.
Gabriela, de Ariranha do Ivaí, Paraná, tua irmã Janaína te procura há 35 anos. Teus pais te deram para uma família porque não tinham condições de te cuidar. Janaína nunca te esqueceu.
Edmilson, de Xique-xique, Bahia, teu pai, Plínio te procura há 13 anos. Ele não te abandonou. Tua mãe e tua avó fugiram contigo pequenino.
Vilma, você foi a primeira namorada do Ramon de Putinga, Rio Grande do Sul. Ele nunca te esqueceu. Há 42 anos te procura.
Aderbal quase chorava lendo. Descuido deixar passar tanto tempo? Culpa? Orgulho? E seguia como as pessoas seguiram e seguirão buscando, cheias de ausências.
Karina, tua meia irmã, Neide, de Pintópolis, Minas Gerais, te procura para alegrar o pai de vocês que está muito doente e só te viu aos seis meses. Ele se arrepende de não ter te assumido.
Arthur Alfaiate de Itapipoca, Ceará, dê notícias ao Bino que trabalhava na eletrônica em frente ao bazar, em 1980. Ele sente saudades.
Dênis, de Feliz Natal, Mato Grosso, tua ex-namorada, Vitória, te procura. Vocês têm um filho que você não conhece mas ele quer te conhecer. Tem onze anos.
Sebastião de Lagoa da Confusão, Tocantins, tua filha Rosa te procura. Ela te perdoa pela dúvida de ser o pai dela. Ela quer que você conheça genro e netos.
Vanda, tua professora do EJA, Edna, de Santo Antônio do Descoberto, Goiás, te procura há 18 anos. Ela nunca te esqueceu.
Suzana e Rosimeire, o irmão Miguel, conhecido como Miguel Gaiola que foi separado de vocês em Nova Iorque, Maranhão, quando tinha 3 anos, procura vocês há 23 anos.
Aderbal de Solidão, Pernambuco, teu amigo Laerte te procura há 45 anos. Ele sabe que foi desleal e pede perdão.
Aderbal sentiu arrepio na pele, taquicardia. Lembrou de Laerte, quase irmão. Anotou contato e ligou. E foi só assim. Como um abraço adiado, um perdão de uma falta esquecida. Uma solidão de história de vida que se desfez em abraço. Simples assim.

P.S.: Texto baseado em histórias de site de buscas.

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