11 abril 2020

LONGE DA ÁRVORE


 Maria Emília Bottini

Conheci o premiado autor Andrew Solomon, através de um presente de aniversário: o livro Demônios do meio-dia - uma anatomia da depressão (2000). Um livro de muita pesquisa e investigação sobre um tema denso. Um tratado sobre uma doença que atinge muitas pessoas, fazendo com que percam a vontade de tomar banho, comer, dormir, sair da cama e, muitas vezes, a vontade de viver.
Página após página, vamos entrando em contato com o universo de pessoas que sofrem por depressão e com a própria luta do autor para lidar com a doença, mas mais que isso, ele busca por respostas, o que hoje é considerado um material excelente para pesquisa.
Esse livro, que não dá para ler rápido, é preciso parcimônia, por vezes é preciso dar um tempo, afastar, respirar e retomar; não é um livro para diversão, mas sim para aprender e, aprender é sofrer, é dor.  O autor constrói uma evolução histórica do fenômeno da depressão, descreve-a por vários ângulos de percepção, vários pontos de vista como fenômeno que pode atingir qualquer pessoa.
Escreveu também o livro Longe da Árvore - Pais, Filhos e A Busca da Identidade (2013) em aborda as chamadas "identidades horizontais”, filhos que divergem dos padrões familiares, linguísticos e sociais predeterminados.  Solomon entrevistou centenas de pessoas, realizando uma profunda análise sobre cada uma das condições abordadas. Proveniente de uma família judia tradicional ficou marcado pelo fato de seus pais terem lutado, incessantemente, para tratar sua dislexia e terem tido dificuldade para aceitar sua homossexualidade. Ao longo de dez anos investigou e conversou com pais com filhos portadores de síndrome de Down, autistas, prodígios, transexuais, esquizofrênicos, crianças com deficiências múltiplas, crianças cuja concepção foi consequência de um estupro e pais de adolescentes infratores, anões. Filhos que nascem longe da árvore genealógica e desafiam a convivência e o relacionamento afetivo, é preciso desenvolver o amor de superação. É preciso aceitar que essas condições relatadas não são fáceis de serem vivenciadas por ninguém, mas podem permitir aprendizagens necessárias e mudar a forma de ver e entender o mundo.
Em 2019 o documentário Longe da Árvore baseado no premiado livro homônimo, mostra com sensibilidade a dor e a força que tem a maternidade/paternidade para dar conta de algo que não se espera. O filho ideal e o filho real. A idealização precisa ser superada para que o cuidado e o afeto possam se manifestar. O documentário exibe crianças que estão bem no desenvolvimento infantil e em poucos anos seguem outro curso; aborda, sem ilusões, de como os pais aceitam e convivem com tais dificuldades, não sem dor e perda. Solomon faz um resgate de sua própria vida a partir de suas vivências de adoção, casamento, homossexualidade. É compreensível que tenha se tornado escritor para narrar a si e suas dores de ser diferente.
Em certa oportunidade fui convida para falar sobre suicídio em um evento do Setembro Amarelo, procurava por reportagens sobre suicídio e me deparei com outro livro Um crime da solidão - reflexões sobe o suicídio (2019); comprei-o e, chegando às minhas mãos, imediatamente passei a lê-lo de forma rápida. Esse livro é pequeno comparado aos anteriores, mas não menos tenso, o tema se encarrega disso. É uma coletânea inédita de artigos e ensaios; de forma sensível, apresenta relatos sobre o suicídio e a depressão. Ele relata a perda de um amigo extremamente alegre de faculdade, que se suicidou, mas que encobria o seu lado triste e sombrio. Narra a opção de sua mãe pelo suicídio assistido após enfrentar as dores do câncer avassalador e sem cura. Também, nessa pequena obra, faz análise de algumas figuras midiáticas que se suicidaram como Virginia Woolf (escritora), Robin Williams (ator, comediante), Anthony Broudain (chef e apresentador americano), Kate Spade (estilista) mostrando que é um problema que pode atingir pessoas de todas as classes sociais, raças e etnias.
A escrita de Solomon me agrada, me envolve e me estimula a pensar no quando nossa pequenez de pensamento nos impede de conhecer mais, saber mais para respeitar que todos somos diferentes. Talvez o fato de escrever sobre suas dores torna a leitura uma possibilidade de conhecermos sobre nós mesmos.

[Maria Emília Bottini publica no Rua Balsa das 10 aos Sábados] 

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