Maria Emília Bottini
Conheci o premiado autor Andrew Solomon, através
de um presente de aniversário: o livro Demônios
do meio-dia - uma anatomia da depressão (2000). Um livro de muita pesquisa
e investigação sobre um tema denso. Um tratado sobre uma doença que atinge
muitas pessoas, fazendo com que percam a vontade de tomar banho, comer, dormir,
sair da cama e, muitas vezes, a vontade de viver.
Página após página, vamos entrando em contato
com o universo de pessoas que sofrem por depressão e com a própria luta do
autor para lidar com a doença, mas mais que isso, ele busca por respostas, o
que hoje é considerado um material excelente para pesquisa.
Esse livro, que não dá para ler rápido, é
preciso parcimônia, por vezes é preciso dar um tempo, afastar, respirar e
retomar; não é um livro para diversão, mas sim para aprender e, aprender é sofrer,
é dor. O autor constrói uma evolução
histórica do fenômeno da depressão, descreve-a por vários ângulos de percepção,
vários pontos de vista como fenômeno que pode atingir qualquer pessoa.
Escreveu também o livro Longe da Árvore - Pais, Filhos e A Busca da Identidade (2013) em aborda as chamadas "identidades
horizontais”, filhos que divergem dos padrões familiares, linguísticos e
sociais predeterminados. Solomon
entrevistou centenas de pessoas, realizando uma profunda análise sobre cada uma
das condições abordadas. Proveniente de uma família judia tradicional ficou
marcado pelo fato de seus pais terem lutado, incessantemente, para tratar sua
dislexia e terem tido dificuldade para aceitar sua homossexualidade. Ao longo
de dez anos investigou e conversou com pais com filhos portadores de síndrome
de Down, autistas, prodígios, transexuais, esquizofrênicos, crianças com deficiências
múltiplas, crianças cuja concepção foi consequência de um estupro e pais de
adolescentes infratores, anões. Filhos que nascem longe da árvore genealógica e
desafiam a convivência e o relacionamento afetivo, é preciso desenvolver o amor
de superação. É preciso aceitar que essas condições relatadas não são fáceis de
serem vivenciadas por ninguém, mas podem permitir aprendizagens necessárias e
mudar a forma de ver e entender o mundo.
Em 2019 o documentário Longe da Árvore baseado no premiado livro homônimo, mostra com
sensibilidade a dor e a força que tem a maternidade/paternidade para dar conta
de algo que não se espera. O filho ideal e o filho real. A idealização precisa
ser superada para que o cuidado e o afeto possam se manifestar. O documentário exibe
crianças que estão bem no desenvolvimento infantil e em poucos anos seguem
outro curso; aborda, sem ilusões, de como os pais aceitam e convivem com tais
dificuldades, não sem dor e perda. Solomon faz um resgate de sua própria vida a
partir de suas vivências de adoção, casamento, homossexualidade. É
compreensível que tenha se tornado escritor para narrar a si e suas dores de
ser diferente.
Em certa oportunidade fui convida para falar sobre
suicídio em um evento do Setembro Amarelo, procurava por reportagens sobre
suicídio e me deparei com outro livro Um
crime da solidão - reflexões sobe o suicídio (2019); comprei-o e, chegando
às minhas mãos, imediatamente passei a lê-lo de forma rápida. Esse livro é
pequeno comparado aos anteriores, mas não menos tenso, o tema se encarrega disso.
É uma coletânea inédita de artigos e ensaios; de forma sensível, apresenta
relatos sobre o suicídio e a depressão. Ele relata a perda de um amigo
extremamente alegre de faculdade, que se suicidou, mas que encobria o seu lado
triste e sombrio. Narra a opção de sua mãe pelo suicídio assistido após
enfrentar as dores do câncer avassalador e sem cura. Também, nessa pequena obra,
faz análise de algumas figuras midiáticas que se suicidaram como Virginia Woolf
(escritora), Robin Williams (ator, comediante), Anthony Broudain (chef e
apresentador americano), Kate Spade (estilista) mostrando que é um problema que
pode atingir pessoas de todas as classes sociais, raças e etnias.
A escrita de Solomon me agrada, me envolve e me
estimula a pensar no quando nossa pequenez de pensamento nos impede de conhecer
mais, saber mais para respeitar que todos somos diferentes. Talvez o fato de
escrever sobre suas dores torna a leitura uma possibilidade de conhecermos
sobre nós mesmos.
[Maria
Emília Bottini publica no Rua Balsa das 10 aos Sábados]

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