Maria Emília Bottini
Ministrei
aula dias desses em um curso de pós-graduação, relacionado à saúde. Ao questionar
os alunos se alguém havia visto o filme sobre Sebastião Salgado, olharam-me de
forma estranha. E eu mais ainda, pois percebi que estampava no rosto deles o
desconhecimento de quem era ilustre figura. Então um aluno me disse: “Nossa geração
não sabe de nada”.
Não
chego a pensar isso desta geração, mas fiquei um tanto chocada. Em épocas de WhatsApp, facebook, twitter e tudo
o mais, o fato é bastante compreensível, visto que as informações rápidas e
fugazes fazem com que só se saiba de coisas mínimas e rápidas. Conhecer Sebastião
Salgado é preciso de tempo e de sensibilidade para adentrar em seu universo e
aprender com ele.
Falei
que o filme era imperdível e que eu não saí do cinema feliz e sorrindo, mas sim
emocionada e tocada pelas imagens. Falei que esse homem é um eminente fotógrafo
brasileiro premiado e conhecido mundialmente por seus trabalhos, exposições e
livros. Comentei que o filme havia sido produzido pelo seu filho Juliano
Ribeiro Salgado em parceria com Wim Wenders, ator, roteirista e diretor alemão,
com vasta filmografia. Talvez nada do que eu tenha dito a eles, tenha tocado,
mas fiz minha parte.
Sal da Terra conta um pouco da vida e trajetória
deste homem de alma sensível que viu o que não queremos nem sonhamos ver, mas
acima de tudo registrou nossa mistura de beleza e feiura, de bondade e maldade,
de santo e demônio. Ele fotografou nossa essência, que circunda na mistura de
amor e da dor.
“Fotógrafo
é, literalmente, alguém que desenha com luz. Um homem escreve e reescreve o
mundo com luzes e sombras” (trechos do filme). Vendo o documentário, penso que
as luzes e sombras são a mistura do que somos, porém negamos a parte sombra que,
mesclada por luzes, não deixa acreditar que tudo está perdido.
Ele
viveu na pele e no corpo os massacres de Ruanda (onde houve alguns amontados de
mortos a facão), visitou os garimpos de Serra Pelada, presenciou a fome do Nordeste,
na Amazônia, nas guerras, nas explosões dos postos de petróleo por Saddan
Hussein, entre outros lugares. Ele conclui “(...) somos um animal feroz. Os
humanos são um animal terrível”. Ele sabe do que está falando.
A
narrativa fílmica apresenta seu ambicioso projeto "Gênesis", a qual durou
oito anos e teve como objetivo registrar, a partir de imagens, civilizações e
regiões do planeta até então inexploradas, sem proteção alguma. Por que proteger?
O que o meio ambiente é para nós? Para fazer algumas fotos, ele correu risco de
vida e sua experiência impactou seu modo de ver e sentir o mundo. Algumas
dessas fotos devem ter doído em sua alma, eu suponho.
No
documentário, o autor também reconhece amorosamente a parceria de sua esposa
Lélia como organizadora de suas exposições e pela vida partilhada. Podemos
conhecer o que o casal fez para recuperar a terra herdada do pai de Sebastião
em Minas Gerais a qual resultou no Instituto Terra. Experiência admirável para
os que sonham com dias melhores para o meio ambiente. O que este trabalho prova
que é possível fazer, mas dá trabalho e é preciso esperar o tempo agir, as
coisas não se dão prontas.
Gaia,
a Terra, está em perigo, estamos à beira de nossa própria destruição.
Parece
que não aprendemos com o nosso passado.
Destruiremos
a passos largos nosso habitat e os poucos que sobreviverem, os mais resistentes
e os mais adaptáveis, reconstruirão outro modo de existir no mundo. Talvez entendendo
que o homem não é centro de tudo, apenas o sal da terra, por vezes, salgado
demais que chega a doer nossa visão, melhor não ver, não sentir.
[Maria
Emília Bottini publica no Rua Balsa das 10 aos Sábados]

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