18 abril 2020

SAL DA TERRA




Maria Emília Bottini

Ministrei aula dias desses em um curso de pós-graduação, relacionado à saúde. Ao questionar os alunos se alguém havia visto o filme sobre Sebastião Salgado, olharam-me de forma estranha. E eu mais ainda, pois percebi que estampava no rosto deles o desconhecimento de quem era ilustre figura. Então um aluno me disse: “Nossa geração não sabe de nada”.
Não chego a pensar isso desta geração, mas fiquei um tanto chocada. Em épocas de WhatsApp, facebook, twitter e tudo o mais, o fato é bastante compreensível, visto que as informações rápidas e fugazes fazem com que só se saiba de coisas mínimas e rápidas. Conhecer Sebastião Salgado é preciso de tempo e de sensibilidade para adentrar em seu universo e aprender com ele.
Falei que o filme era imperdível e que eu não saí do cinema feliz e sorrindo, mas sim emocionada e tocada pelas imagens. Falei que esse homem é um eminente fotógrafo brasileiro premiado e conhecido mundialmente por seus trabalhos, exposições e livros. Comentei que o filme havia sido produzido pelo seu filho Juliano Ribeiro Salgado em parceria com Wim Wenders, ator, roteirista e diretor alemão, com vasta filmografia. Talvez nada do que eu tenha dito a eles, tenha tocado, mas fiz minha parte.
Sal da Terra conta um pouco da vida e trajetória deste homem de alma sensível que viu o que não queremos nem sonhamos ver, mas acima de tudo registrou nossa mistura de beleza e feiura, de bondade e maldade, de santo e demônio. Ele fotografou nossa essência, que circunda na mistura de amor e da dor.
“Fotógrafo é, literalmente, alguém que desenha com luz. Um homem escreve e reescreve o mundo com luzes e sombras” (trechos do filme). Vendo o documentário, penso que as luzes e sombras são a mistura do que somos, porém negamos a parte sombra que, mesclada por luzes, não deixa acreditar que tudo está perdido.
Ele viveu na pele e no corpo os massacres de Ruanda (onde houve alguns amontados de mortos a facão), visitou os garimpos de Serra Pelada, presenciou a fome do Nordeste, na Amazônia, nas guerras, nas explosões dos postos de petróleo por Saddan Hussein, entre outros lugares. Ele conclui “(...) somos um animal feroz. Os humanos são um animal terrível”. Ele sabe do que está falando.
A narrativa fílmica apresenta seu ambicioso projeto "Gênesis", a qual durou oito anos e teve como objetivo registrar, a partir de imagens, civilizações e regiões do planeta até então inexploradas, sem proteção alguma. Por que proteger? O que o meio ambiente é para nós? Para fazer algumas fotos, ele correu risco de vida e sua experiência impactou seu modo de ver e sentir o mundo. Algumas dessas fotos devem ter doído em sua alma, eu suponho.
No documentário, o autor também reconhece amorosamente a parceria de sua esposa Lélia como organizadora de suas exposições e pela vida partilhada. Podemos conhecer o que o casal fez para recuperar a terra herdada do pai de Sebastião em Minas Gerais a qual resultou no Instituto Terra. Experiência admirável para os que sonham com dias melhores para o meio ambiente. O que este trabalho prova que é possível fazer, mas dá trabalho e é preciso esperar o tempo agir, as coisas não se dão prontas.
Gaia, a Terra, está em perigo, estamos à beira de nossa própria destruição.
Parece que não aprendemos com o nosso passado.  
Destruiremos a passos largos nosso habitat e os poucos que sobreviverem, os mais resistentes e os mais adaptáveis, reconstruirão outro modo de existir no mundo. Talvez entendendo que o homem não é centro de tudo, apenas o sal da terra, por vezes, salgado demais que chega a doer nossa visão, melhor não ver, não sentir.


[Maria Emília Bottini publica no Rua Balsa das 10 aos Sábados] 



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