Maria Emília Bottini
Não
sei precisar quando iniciei meu gosto pelas imagens, talvez desde sempre, pois
colava adesivos nos meus cadernos de escola e hoje os coloco nas agendas;
desenhava, pintada e assistia televisão, e detestava quando faltava luz.
Sei
que as uso no meu ofício de ser psicóloga. As vezes as imagens permitem
reflexões profundas, pois atingem primeiramente os olhos de quem vê. Gosto de
trabalhar com imagens com meus pacientes ou mesmo em grupos, impressas ou na
tela do celular.
As
imagens ajudam a pensar em quem somos. Criadas por alguém com talento e
sensibilidade, elas tocam e afetam de alguma forma quem as contempla. "Uma imagem vale mais que mil palavras",
diz o ditado popular. Hoje chegam bem mais longe que textos, mas também revelam
a superficialidade e uma certa perversão de que tudo é rápido e pronto.
Imagens
me fascinam e falam de mim, do que sou, do que acredito e muito do que penso,
como as que ilustram esta crônica.
A
mulher presa numa gaiola não é uma imagem simples de se ver, ela é forte e
provoca reflexão por si só. Essa mulher parece acomodada com suas asas nesse
espaço pequeno. Geralmente é assim, nos ajeitamos àquilo que nos prende, por
vezes sem imaginar que seja possível sair desta condição, simplesmente abrindo
a porta.
Trabalhei com essas imagens em um grupo de agentes
comunitárias de saúde. Perguntei-lhe qual era nossa prisão? Muitas respostas
vieram: as famílias, os maridos, os filhos, os trabalhos, o relógio, o chefe, o
passado dolorido, a violência vivida, as amarguras dos pais negligentes, isso
tudo a pesar a vida e a impossibilitar os voos.
Em
seguida solicitei ao grupo que analisassem a segunda imagem, mas antes deveriam
mudar de lugar, trocar de parceria para a conversa. O que fizeram prontamente.
As mesmas coisas que por vezes nos aprisionam também podem possibilitar o voo, apontaram
as participantes. Abrir a gaiola e permitir a liberdade. Mas alguém no fundo da
sala questionou-me: mas essa mulher vai conseguir voar? Por vezes nos
acostumamos tanto às gaiolas, às prisões, que a liberdade torna-se uma ameaça e
algo que almejamos, mas não nos pertence mais, ficou sem sentido e distante.
Muitas
vezes nos assemelhamos a um pássaro preso que, depois de muito tempo aprisionado,
ao sair da gaiola por uma condescendência do dono, não sabe mais dar passos ou
mesmo voar e, como por instinto, volta para o conhecido pequeno espaço e lá se
acomoda novamente. Já não é um pássaro, já não é coisa alguma, tornou-se parte
da gaiola.
Conheci
muitas mulheres no trabalho como psicóloga e muitas delas eram pássaros feridos,
engaiolados diante do mundo, da vida; já outras que se libertaram e voaram voos
inimagináveis, pois ousaram ir além do mundo conhecido, permitiram-se o
desbravamento, não sem dor e esforço pessoal.
Lembro
de uma professora de inglês que tive, hoje minha amiga, eu gostava de ir as
aulas por ela, sempre muito alegre, tão jovem e sonhadora. Sua história
familiar não era nada muito fácil, os pais eram um tanto complicados e ela se
via no emaranhado de fios enrolada e sem conseguir se distanciar, não conseguia
se diferenciar. Não estou dizendo que isso é fácil ou simples.
Sempre
muito enredada com os problemas familiares não conseguia se perceber, viver,
voar e quando o fazia seus voos eram rasos muito próximo da família. Muitas
foram as vezes que insisti com ela que a saída de alguns indivíduos é se
afastar, se libertar de seus familiares, mesmo que permanecendo morando junto.
Nunca imaginei que iria tão longe. Ela era advogada por insistência do pai, mas
seu amor mesmo era a língua estrangeira, fez muitas vezes a prova da ordem dos
advogados e muitas vezes sem sucesso. Por que será?
Um
dia ela se decidiu por começar a voar, desistiu de ser a advogada que o pai
tanto desejava e começou a perseguir o sonho de ser aeromoça e muito esforço empenhou
nisso. Começou a fazer um treinamento em uma companhia de Dubai. Sabem onde
fica Dubai? Atravessando muitos oceanos e terras. Lá foi ela para um longo ano
em processo seletivo até que conquistou sua liberdade, pelo menos espacial.
Ao
saber de seu feito, fiquei feliz por sua conquista e comentei que ela tinha
asas de metal e enormes e que agora era preciso sustentar seu voo nas nuvens do
mundo. Ao que tudo indica está conseguindo seguir em frente. Viaja por vários
países, viver em Dubai eu imagino não deva ser nada fácil, mas ela tem dado
conta de estar vivendo sua vida com tudo o que ela apresenta.
Sair
da gaiola não se faz sem dor, sem movimento.
Este que pedi ao grupo para fazer, para isso é preciso tirar as nádegas de
confortáveis cadeiras e dar passos, senão nada acontece. Talvez a maior liberdade
esteja em nossos pensamentos.
Certa
vez vi uma entrevista de um homem negro que saiu da cadeia depois de uns vinte
e tantos anos preso injustamente, em que o repórter perguntou-lhe: “Como o
senhor não enlouqueceu?” Explicou ele que tinha a companhia dos livros, eles
lhe permitiram a liberdade de pensar o que bem entendesse. Nesse sentido, era
um homem livre, manteve sua saúde mental e não saiu azedo da cadeia.
As
imagens que ilustram essa crônica são de Abdullah Envidar, artista turco, e são belíssimas do
ponto de vista da arte e da sensibilidade em dizer apenas pelo olhar, não é
verbalizado nada, apenas é algo para ver, sentir e pensar. O que sentimos ao
ver essas imagens? Faça um exercício simples de pensar, de se deixar conduzir,
se deixar levar... Em que prisão eu me encontro hoje? Sou prisioneiro do quê? Libertei-me
de alguma prisão nesse ano que passou?
Gaiolas
tem porta de entrada que geralmente é a mesma da saída. A segunda imagem nos
aponta que temos a chave, o endereço para abrir nossas prisões e voar. É
preciso reaprender o voo. Quem ensina a voar precisa ensinar a cair, ou seja,
mesmo em voos tranquilos podemos enfrentar trepidações, por vezes bruscas, mas
é preciso seguir em frente, seguir voando. Não é o outro que abre a porta e nos
tira da prisão, se assim o fizer faremos como o pássaro que já não sabe mais
seu lugar de voar. Somos nós mesmos que devemos assumir que desejamos nos
libertar. O outro pode ajudar, mas é tarefa nossa o movimento, a decisão de
sair.
Mas esse é um processo de dentro para fora e
não sem dor. É preciso passar a fase da gaiola e aceita-la, mas para sair é
preciso se incomodar, desacomodar e voar sustentando os voos rumo ao
desconhecido mundo de possibilidades.
[Maria Emília Bottini publica no Rua Balsa das
10 aos Sábados]


Já li essa postagem duas vezes e em todas elas fico pensando sobre as asas... e o que me encanta mesmo é a imagem que está no texto! que fantástica libertação... e, com asas.
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