Maria Emília Bottini
Dei aulas para um grupo de alunos
interessados e respeitosos ao conhecimento que tenho para apresentar a eles o
que muito me agradou. Isto existe no planeta educação, resquícios de um tempo
que se foi. Em Erechim, a Mitra diocesana criou a Pastoral da Esperança e
Consolação e fui convidada a trabalhar o tema do luto. Iniciei em final de
junho com uma frase de Leonardo Boff que diz que “nossa percepção de mundo
depende de onde nossos pés pisam”. E entre uma pisada e outra desenvolvi junto
com uma colega, linda, um projeto chamado “No cinema a na vida” que teve como
objetivo trabalhar cinema e literatura com adolescentes, por essa razão
acabamos em uma escola estadual que nos acolheu, meu ex-professor de matemática
era o diretor.
Recordo-me que em uma de suas aulas
esqueci meu estojo e passei chorando uma boa parte da aula por este motivo.
Talvez minhas responsabilidades desde muito cedo se constituíam.
Contei ao grupo que ao iniciarmos
essas atividades com esses adolescentes lhe questionamos quais eram seus
sonhos. Fiquei chocada, pois muitos não tinham nenhum sonho para dividir
conosco e davam de ombros, como quem concorda com sua sorte já definida no
lugar onde vivem, em um bairro periférico da cidade. Alguns se arriscam
timidamente a dizer de seus sonhos. Uns disseram que gostariam de ser
advogados, policiais, e ao final da rodada uma adolescente expressou seu desejo
de ser jornalista e morar nos Estados Unidos. Os colegas riram dela. O sonho
era enorme demais diante daquela turma de não sonhadores, pobres e sem
perspectivas de vida.
Talvez ter sonhos seja algo muito
utópico diante do lugar que habitam, que seus pés pisam. Comentei ao grupo de
alunos que se matamos os sonhos das crianças o que esperar de um município? O
que esperar de um país?
Depois desta fala inicial minha
aula desenrolou-se. No intervalo uma aluna me puxa pelo braço e me conta uma
história de sonhos. Contou-me que sua filha aos 17 anos, nascida em um pequeno
município e sem grandes posses econômicas disse aos pais que tocaria flauta na
França. A mãe não comentou nada, mas pensou com seus pensamentos que tal
proposta era impossível de acontecer.
Então foram passear em Gramado onde
sua outra filha morava e o genro comprou uma flauta e na mala chegou as mãos da
adolescente que ousou sonhar. Amei esse genro sensível. Minha aluna me pergunta
com olhos com lágrimas. “Onde está minha filha agora?” E ela mesma respondeu a
pergunta, “já tocou duas vezes na França, morou no Canadá”.
Sua história me comoveu e lhe disse
não duvide de um sonho, eles nos movem para além-fronteiras e alguns podem ser
realizados, mas é preciso querer muito e correr atrás porque nada,
absolutamente nada cairá do céu. É preciso sonhar para o movimento acontecer, e
quando nos movimentamos podemos chegar onde estabelecemos que queríamos
chegar.
[Maria Emília Bottini publica no Rua Balsa das 10 aos Sábados]

que lindeza!
ResponderExcluirEstela Márcia agradeço o carinho e a leitura da crônica. Seguimos acreditando nos sonhos que nos movem. Abraços.
ResponderExcluir