13 junho 2020

NÃO DUVIDE DE UM SONHO


Maria Emília Bottini

Dei aulas para um grupo de alunos interessados e respeitosos ao conhecimento que tenho para apresentar a eles o que muito me agradou. Isto existe no planeta educação, resquícios de um tempo que se foi. Em Erechim, a Mitra diocesana criou a Pastoral da Esperança e Consolação e fui convidada a trabalhar o tema do luto. Iniciei em final de junho com uma frase de Leonardo Boff que diz que “nossa percepção de mundo depende de onde nossos pés pisam”. E entre uma pisada e outra desenvolvi junto com uma colega, linda, um projeto chamado “No cinema a na vida” que teve como objetivo trabalhar cinema e literatura com adolescentes, por essa razão acabamos em uma escola estadual que nos acolheu, meu ex-professor de matemática era o diretor.
Recordo-me que em uma de suas aulas esqueci meu estojo e passei chorando uma boa parte da aula por este motivo. Talvez minhas responsabilidades desde muito cedo se constituíam.
Contei ao grupo que ao iniciarmos essas atividades com esses adolescentes lhe questionamos quais eram seus sonhos. Fiquei chocada, pois muitos não tinham nenhum sonho para dividir conosco e davam de ombros, como quem concorda com sua sorte já definida no lugar onde vivem, em um bairro periférico da cidade. Alguns se arriscam timidamente a dizer de seus sonhos. Uns disseram que gostariam de ser advogados, policiais, e ao final da rodada uma adolescente expressou seu desejo de ser jornalista e morar nos Estados Unidos. Os colegas riram dela. O sonho era enorme demais diante daquela turma de não sonhadores, pobres e sem perspectivas de vida.
Talvez ter sonhos seja algo muito utópico diante do lugar que habitam, que seus pés pisam. Comentei ao grupo de alunos que se matamos os sonhos das crianças o que esperar de um município? O que esperar de um país?
Depois desta fala inicial minha aula desenrolou-se. No intervalo uma aluna me puxa pelo braço e me conta uma história de sonhos. Contou-me que sua filha aos 17 anos, nascida em um pequeno município e sem grandes posses econômicas disse aos pais que tocaria flauta na França. A mãe não comentou nada, mas pensou com seus pensamentos que tal proposta era impossível de acontecer.
Então foram passear em Gramado onde sua outra filha morava e o genro comprou uma flauta e na mala chegou as mãos da adolescente que ousou sonhar. Amei esse genro sensível. Minha aluna me pergunta com olhos com lágrimas. “Onde está minha filha agora?” E ela mesma respondeu a pergunta, “já tocou duas vezes na França, morou no Canadá”.
Sua história me comoveu e lhe disse não duvide de um sonho, eles nos movem para além-fronteiras e alguns podem ser realizados, mas é preciso querer muito e correr atrás porque nada, absolutamente nada cairá do céu. É preciso sonhar para o movimento acontecer, e quando nos movimentamos podemos chegar onde estabelecemos que queríamos chegar. 

[Maria Emília Bottini publica no Rua Balsa das 10 aos Sábados] 


2 comentários:

  1. Estela Márcia agradeço o carinho e a leitura da crônica. Seguimos acreditando nos sonhos que nos movem. Abraços.

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