DA ARTE DE COMPOR REMENDOS
Por muito tempo evitou costurar: se a pegassem com esta capacidade...
deixaria de ser “quando desejasse” para ser na obrigação. Com a velhice se aproximando, aposentada das
tarefas profissionais e com os filhos longe de casa... HUM... se aventurou!
Sentar-se diante de uma máquina de costura era bem mais complicado que
enfrentar programações novas de um computador, não tinha a menos noção de onde
era o começo. Riu de si, e juntou uns tecidos que tinha em casa. Cortou em
quadrados... e por fim resolveu costurar um no outro. Descobriu que nem sempre
é fácil combinar as cores, que era como o terço pendurado na parede do
quarto... pedacinho por pedacinho se encadeando, se juntando e se compondo como
um todo. Riu novamente de si diante da imagem... quarto de velha, com figuras
ancestrais nas paredes, com ventilador em vez de ar condicionado, com
chinelinhos debaixo da cama... cadeira de balanço, almofadas. Viajou e do pequeno pano remendado para forrar um
travesseiro resolveu fazer uma colcha, com todos os tecidos que tinha.
Costurou dias a fio, desmancho algumas vezes, remendou, compôs a vida
dos dias numa colcha de cores calmas. E se acalmou e teve a paciência de errar
muitas vezes para colocar o forro sem pedir ajuda.
Finalmente aprontou e viu que havia sobrado remendo para cobrir as
almofadas, e fazer até outra colcha! Milagre da multiplicação dos tecidos?
Se orgulhou da tenacidade de um primeiro trabalho costurado, da
persistência, de tantas linhas arrebentando e de tantas vezes que precisou de
uma lupa para enfiar a agulha. Riu de si mais uma vez. Estava mesmo
envelhecendo, costurar sem óculos era impossível e mesmo com eles era difícil.
Mas como no dia a dia da vida... voltou a repetir a experiência e se deu a luxo
de imaginar um monte de colchas pela frente, com cores quentes, com tons
claros, escuros, muito verde, com flores nos tecidos... viajou nas estampas e
nas possibilidades.
Quem iria querer tantas colchas? Ah nem importava! Era como a vida...
quem iria aproveitar suas experiências? Só ela própria .... pensou.
Maria Lúcia Futuro Mühlbauer
Publica às
segundas-feiras

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