14 setembro 2020

DA ARTE DE COMPOR REMENDOS

 


DA ARTE DE COMPOR REMENDOS

 

Por muito tempo evitou costurar: se a pegassem com esta capacidade... deixaria de ser “quando desejasse” para ser na obrigação.  Com a velhice se aproximando, aposentada das tarefas profissionais e com os filhos longe de casa... HUM... se aventurou!

Sentar-se diante de uma máquina de costura era bem mais complicado que enfrentar programações novas de um computador, não tinha a menos noção de onde era o começo. Riu de si, e juntou uns tecidos que tinha em casa. Cortou em quadrados... e por fim resolveu costurar um no outro. Descobriu que nem sempre é fácil combinar as cores, que era como o terço pendurado na parede do quarto... pedacinho por pedacinho se encadeando, se juntando e se compondo como um todo. Riu novamente de si diante da imagem... quarto de velha, com figuras ancestrais nas paredes, com ventilador em vez de ar condicionado, com chinelinhos debaixo da cama... cadeira de balanço, almofadas. Viajou  e do pequeno pano remendado para forrar um travesseiro resolveu fazer uma colcha, com todos os tecidos que tinha.

Costurou dias a fio, desmancho algumas vezes, remendou, compôs a vida dos dias numa colcha de cores calmas. E se acalmou e teve a paciência de errar muitas vezes para colocar o forro sem pedir ajuda.

Finalmente aprontou e viu que havia sobrado remendo para cobrir as almofadas, e fazer até outra colcha! Milagre da multiplicação dos tecidos?

Se orgulhou da tenacidade de um primeiro trabalho costurado, da persistência, de tantas linhas arrebentando e de tantas vezes que precisou de uma lupa para enfiar a agulha. Riu de si mais uma vez. Estava mesmo envelhecendo, costurar sem óculos era impossível e mesmo com eles era difícil. Mas como no dia a dia da vida... voltou a repetir a experiência e se deu a luxo de imaginar um monte de colchas pela frente, com cores quentes, com tons claros, escuros, muito verde, com flores nos tecidos... viajou nas estampas e nas possibilidades.

Quem iria querer tantas colchas? Ah nem importava! Era como a vida... quem iria aproveitar suas experiências? Só ela própria .... pensou.

 

Maria Lúcia Futuro Mühlbauer 

                                                                                                             Publica às segundas-feiras

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