É familiar e limpinha. Tem a foto do Obama na entrada e uma miniatura da Estátua da Liberdade na estante. Os quartinhos seguem pelo corredor comprido até a cozinha. A cozinha é comunitária e tem uma lavanderia do lado que dá pra usar e pendurar as roupas nos varais no pátio que fica a seguir, nos fundos.
Se você quiser conhecer Dona Thomásia, basta olhar a decoração da pensão. Vai ver que ela é apaixonada por cinema e ainda sonha ir pra a Disney, com 70 anos.
Agora, se você quiser conhecer os moradores da pensão da Dona Thomásia, observe os varais do pátio. Ali, penduradas estão as roupas e as histórias.
Tem o uniforme amarelo do gari. Tem a roupa impermeável do motoboy. Tem a roupa branca de religião da filha de Iemanjá. Tem par de tênis surrado. Tem varal de chão da moça que gosta de seguir o sol pra roupa ficar cheirosa.
Se você quiser conhecer um mundo, olhe para as paredes que denunciam esperas. Olhe para as portas enfeitadas que expõem identidades. Olhe para os varais que mostram vidas e sonhos. Olhe.
Mas olhe com olhar de busca e apreensão, não a do policial, mas a de quem agarra com força os versos estendidos pra fazer poesia de quarto que é casa, de pátio e cotidiano.
E que o tempo ajude, o vento seque, as cores dos panos fiquem vivas e, algum dia, que todos possam voar. Cada um com seu sonho e destino.
Quem sabe assim, todos possam ser vistos como pessoas dignas de um lugar que chamam de lar e os lençóis de Dona Thomásia possam ser vistos na Disneylândia. Quem sabe.


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