O cinema
é indústria cultural, mercado, cultura, espetáculo, lucro, entretenimento,
diversão, reflexão e assim se constitui, na atualidade, como uma expressão da
sociedade moderna. Os filmes não são ingênuos ou inocentes e tampouco desarmados
ou isentos de intenções. Há intencionalidades expressas na forma e no conteúdo
que desejam transmitir, são fabricadores de sentidos e de interpretações de
nossa realidade.
Sou cinéfila
há bastante tempo e percebo o cinema como portador de capacidade de me fazer
sentir emoções e diferentes sensações como: medo, raiva, angústia, nojo,
alegria permitindo-me educar minha sensibilidade para o mundo da vida.
Dias
desses convidei uma amiga psiquiatra, também cinéfila, para assistirmos no
Centro Cultural do Banco do Brasil (CCBB): Um outro, eu mesmo – variações sobre
gênero no cinema. Sem maiores informações lá fomos nós, pois o filme começava
às 16h.
Às 15h45min
já nos encontrávamos aguardando o início da projeção do filme que eu não sabia
o nome nem o tempo de duração. O filme franco-belga, Jeanne Dielman (1975) da
diretora Chantal Akerman, é considerado por muitos a obra-prima desta cineasta
belga e um dos grandes marcos do cinema feminista.
O filme inicia
e os primeiros minutos não me capturaram nem um pouco. Senti uma imensa
sonolência, narrativa lenta e arrastada, quase em tempo real. Os movimentos de
Jeanne se repetem cena após cena; acompanhamos três dias da vida enfadonha dessa
mulher, que pode ser a de qualquer uma de nós, presa em sua rígida solidão e
vazio existencial.
Jeanne é
viúva, mora com seu filho adolescente e estudante, dona de casa que em suas
tardes recebe visitas masculinas que a pagam e, dessa forma, sustenta sua
família. Não tem amigos, não tem vínculos afetivos e sua relação com o filho é
metódica e de fazeres, mas sem emoção. A música só aparece em dois momentos, vinda
de um rádio antigo ligado tão somente à noite, quando acaba o som ambiente
invade a tela e somos impactados pelo silêncio quase que mortal, pois os
diálogos são mínimos.
O filme tem
exatamente 3h e 45min, acreditem eu sobrevivi e minha amiga também.
Por que
não saímos? Penso que tanto eu quanto minha amiga apostávamos que aconteceria
algo interessante naquela vida rotineira e sem graça de absolutas repetições e
nenhuma novidade, de um controle e rigidez brutal para a saúde mental e certa
rigidez de nossa parte, por que não?
Os
rituais rígidos mantem essa mulher presa aos contornos que estabeleceu para o
viver, numa normalidade forçada e avessa a fluidez da vida. Sutilmente ela
começa a dar sinais lentos e gradativos que está perdendo o controle e que sua
saúde mental está em perigo.
A batata
cozinha demais e vai para o lixo, deixa uma panela no banheiro, senta e não
sabe o que fazer como se a pensar, perdida em si. Em especial sua rigidez se
apresenta quando ao arrumar o guarda-roupa encontra um casaco faltando um
botão. Ela sai para a rua com o objetivo de comprar um botão e repor, mas
deseja que seja o mesmo, o casaco foi presente da irmã que vive no Canadá,
quase impossível encontrar um botão igual, mas ela percorre rua após rua atrás
do dito botão sem sucesso.
Jeanne cozinha,
limpa, arruma, tira o pó, caminha pelas ruas, usa a mesma roupa, volta para
casa, fecha o elevador, abre o elevador, acende luz, apaga luz, senta, levanta
e às vezes faz sexo; rotina diária mergulhada na mesmice da falta de novidade,
na falta de possibilidades, de cor de um cinza escuro que encobre a vivacidade
de sua idade. Dessa forma, a vida lhe é tão somente um passar de dias
ocupando-se com o trabalho de ser a doméstica, a faxineira, a mãe dedicada ao
filho e a mulher que deseja o prazer para ocupar-se e ganhar seu sustento.
Durante o
ato sexual a câmera nos deixa de fora do quarto, as cenas não são mostradas,
tempos depois acompanhamos a porta se abrir e ela acompanha seu cliente até a
saída da casa e recebe o pagamento pelos serviços prestados.
Na cena
final adentramos ao quarto e acompanhamos o ritual sexual e é visível o gozo
(algo proibido, mas desejado), pois ela sorri, seu corpo denuncia o prazer, imediatamente
afasta-se do corpo que lhe provocou sensações desconhecidas, senta-se na cama e
diante do espelho penteia o cabelo várias vezes, como que neste gesto busca se
recompor e voltar ao controle de si.
Meticulosamente
penteada levanta-se da cama, pega uma tesoura e mata o amante que lhe proporcionou
algo que desconhecia e não sabia controlar: o desejo sexual. Nisso está o descontrole,
por isso necessita destruir, se destruindo, voltando a ter o controle da
situação novamente.
Após o
assassinato vai até a sala, senta-se na cadeira da sala de jantar e sem
movimento algum olha para o nada e para todos nós que a acompanhamos em sua
saga de três jornadas não vividas, não aproveitadas, de intenso não existir,
não ser, não viver.
A rigidez
mental nos torna prisioneiros de nós mesmos, diminuindo nossa capacidade de
adaptação, capacidade criadora, espontaneidade e reação engessando nossos atos
e ações. Ficamos prisioneiros de velhos padrões conhecidos e que nos impedem de
avançar quer seja intelectualmente ou mesmo emocionalmente, engessando o
existir com sentido.
Que a
rigidez que nos acompanha permita espaços para a fluidez, para o descontrole,
para o imponderável antes que isso nos desestruture mentalmente. Há sabedoria
nas árvores que ao balançar do vento se vergam e com ele dançam, vergam, mas
via de regra, não quebram.
Rigidez,
mas nem tanto é também a medida do bom senso que precisamos encontrar nos
ajustes necessários dentro de nossa própria existência finita.
[Maria Emília Bottini publica no Rua Balsa das
10 aos Sábados]

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