24 novembro 2020

ISAURA E BENEDITA




Maria Amélia Mano


         Duas mulheres na cozinha do hospício e um lagarto tentando pegar uma libélula. 

    Isaura com olhos de carvão, dois besourinhos redondos, barulhentos voadores, assustados e  assustadores mas sem nenhum veneno. Benedita com olhos de café fraco, caldo de ameixa madura, terra batida no sol a sol, poeira que fica nas unhas, mas sem nenhuma mancha ou mágoa, coisa que sai com água.


    Isaura epidérmica; Benedita hermética. Isaura maiúscula; Benedita minúscula. Isaura hemática; Benedita anêmica. Isaura enciclopédia; Benedita fascículo. Isaura espetáculo; Benedita binóculo. Isaura veículo; Benedita sustentáculo. Isaura bíblica; Benedita versículo. Isaura prelúdio; Benedita crepúsculo. Isaura tentáculo; Benedita pedículo. Isaura currículo; Benedita, oráculo. Isaura séculos; Benedita milímetros. Isaura hiperbólica; Benedita homeopática. Isaura ventrículo; Benedita arteríola. Isaura obstáculo; Benedita círculo. 


    Suplício, precipício, resquício de solstício. Feitiços e fogos de artifícios. Solitárias em vínculos, vícios, princípios e sacrifícios, fictícios ofícios de linhas de costurar e bordar, içar, laçar, salvar libélula que se escapa do lagarto, enfim. Sob a luz mágica de olhares negros e castanhos, transparentes asas livres sobrevoam muro como sonho, memórias e histórias. Únicas.



        Assim vivem juntas Isaura e Benedita e outras tantas, insanas, sãs e salvas dentro, fora e além de nós.

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