08 dezembro 2020

PEDIDO


 

Maria Amélia Mano


    Te peço porque nas profundezas, nos silêncios, há pérolas de água salgada se formando na espera. Na espera, também as colheitas e calcanhares a desejarem caminhares, o toque das areias, sereias, dos barros, das lamas, dos chãos. Também os tropeços de romper peles, essas que anseiam tatuagens de flor, margens de pousos urgentes. Também o verde e o azul, as roupas rotas, as rotas de amar, os versos do verão que começa a arder, como promessa de vacina, vento de trazer de volta vida. Te peço pelo tempo, sabor, cheiro, o alpiste para os pássaros no parque na beira do beijo, brilho do lago, boca e mãos dadas nas ruas ruidosas de risos, Também rasgar as anáguas das bruxas que somos nas espumas das ondas. Também pelo mastigar tudo, com casca, caroço, bagaço, ao mesmo tempo. Perder medo da chuva, das chamas, dos chamados, da fila na feira, da fúria, da ferida, da fuga do fôlego, falta de ar e fé nesse remanso despido de abraços, abismo guardado, insistido, sinistro de tantos lutos, como chamas que consomem as lonas dos circos pobres. Também peço para rezar comigo pelos palhaços e bailarinas nos antigos palcos, pelas idas sem despedidas, solitárias, sem palmas, sem palavras. Também os soluços nos ombros amigos, distantes, sustentados em canto de acalanto, esse de calar e gritar, buscar no pequeno fogo sagrado da esperança, o reencontro. Por fim, assim, porque na dor  há mais uma camada de nácar e luz, alegria de cada dia de ostra que resiste a tudo, por tudo, te peço. Não me tire o mar.

Ilustração: Anna Cunha

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