Por
indicação de minha fisioterapeuta, comprei o livro Dignidade, li-o imediatamente, apesar de não ser indicado para nos
deixar mais felizes e sim para tomarmos consciência de quem e como somos.
Gosto
muito de livros, sobretudo os que me fazem refletir para além da ditadura de
felicidade que nos cerca e não faz acreditar que seremos felizes o tempo todo.
Não se iluda, a vida é mais complexa que dias felizes, no máximo conseguimos
algumas frações de segundos em que nos sentimos bem e, quem sabe, felizes.
Contudo, isso não é mágico e sim trabalhoso.
Em
2011, Médicos Sem Fronteira (MSF) completou 40 anos e, para celebrar a data,
convidou nove escritores de diferentes nacionalidades para visitar projetos de
ajuda humanitária que são desenvolvidos em alguns dos países mais pobres do
mundo.
Esses
escritores cederam seu tempo e talento para contar suas experiências
filantropas e suas percepções do que viram e do que sentiram. Difícil imaginar essa
vivência por meio do que li e como ela permaneceu nas vidas de cada um.
MSF
é uma organização internacional, não governamental e sem fins lucrativos, que possui
cerca de 20 mil profissionais e oferece ajuda médica e humanitária a populações
de 65 países em situações de emergência, como conflitos armados, catástrofes,
epidemias, fome e exclusão social. E, em 1999, a instituição ganhou o Prêmio
Nobel da Paz.
Dignidade é livro que dói ao ler. Dói porque
são escritas as dores de muitos que sequer imaginamos ou sonhamos. Eliane Brum,
jornalista, escritora e documentarista gaúcha, foi nossa representante. Ela
exprime o que representou esse convívio em um vídeo disponível no Youtube. Cada autor descreve e sente, a
seu modo, o que vê e dá visibilidade ao invisível.
Muitas
vezes, enxergar dói, porque o excesso de claridade sempre faz mal aos olhos. Se
os olhos veem o que o coração sente, a menos que sua insensibilidade já o tomou
conta. Entrar em contato com pessoas que sofrem a dor do descaso e os
maus-tratos à saúde deve ser assustador, por isso ler já é impactante.
No
primeiro texto, encontra-se uma entrevista realizada com Dr. Tharcise que
relata: “o problema número um do Congo são os estupros”. Primeira frase você já
é afetado e capturado para leitura que, por vezes, o faz chorar, o indigna ao
lembrar que nossa espécie causa medo. Não há outra realidade, pois essa é nua e
crua existência de muitas mulheres e meninas no Congo. Só no Congo?
Os
textos transitam entre a realidade e a ficção e chamam atenção para a dramática
forma de existir que muitos humanos estão condenados a uma vida trágica de
sofrimento. Não há remédio que passe a dor da alma, a dor de existir, necessitando,
teimosamente, seguir vivendo.
Ao
ler esse livro, você tem a certeza de que o mundo não é cor-de-rosa. Costumo brincar
que perdi meus óculos cor-de-rosa já faz algum tempo, talvez por esse motivo e
mais a certeza de ser masoquista que li está obra.
Confesso
que não fiquei mais otimista, porém minhas crenças são de que, se quisermos e
desejamos, podemos mudar o mundo de alguns e que há poder em cada um tanto para
o mal quanto para o bem.
Se
nos dispusermos, poderemos mudar a nossa realidade. Essa é a aposta de muitos
médicos que conheci nas páginas que li e que hoje vivem em mim e me fazem crer
que, se salvarmos um humano, já representa muito.
Esses
médicos, que cuidam dessas almas feridas e despedaçadas pela violência e pelo descaso
de muitos que comandam nações, é louvável, uma vez que tenho por eles a admiração
e meu mais profundo respeito.
Esses
jornalistas estiveram lá e testemunharam cenas absurdas, comoventes e ricas de
esperança. Acompanharam histórias fabulosas de gente que vive situações-limite.
Também aprenderam sobre superação humana, sobre a dureza da vida e sobre as
consequências da ganância, do ódio, do desprezo, da intolerância que habitam em
nós.
Talvez
tudo o que nossa humanidade precisa é de dignidade com uma dose absurda de
paixão porque só apaixonados mudam o mundo.
[Maria Emília Bottini publica no Rua Balsa das
10 aos Sábados]
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