Maria Valentina, minha sobrinha, fez
aniversário de oito anos e, entre tantos presentes, ganhou também dez
pintinhos. Eles eram bem pequenos e precisaram ficar em uma caixa de papelão,
com luz e ração, para se desenvolverem; quando maiores, foram morar em um
pequeno galinheiro atrás da estufa da casa de seus avós. Certo dia Nina, sua
cachorrinha, estava solta no pátio e abocanhou um pintinho entre as frestas do
galinheiro. Até então, a danada só caçava alguns pombos que voavam rasinho.
Dessa feita, a menina brincava pelo pátio,
distraída. Quando percebeu que Nina andava com algo na boca já era tarde, achava
ela que era outra pomba, não havia se dado conta de que era um de seus
pintinhos. Quando isto aconteceu tentou fazer algo para salvar a vida do
amiguinho, puxou-o da boca de Nina, deu água, sacudiu, mas o animalzinho
permaneceu imóvel, mortinho da silva.
Percebendo que nada mais podia fazer, o
choro brotou ao dar-se conta que seu pintinho havia morrido. Chorou um choro
comprido. A família ficou em alvoroço, pois o desespero se instalou e nada
acalmava a menina. Chorava lágrimas grossas pela dor da perda e pela tristeza
de entender que a morte é irreversível.
Seu pai resolveu ajudar e sabiamente pegou
uma pá e cavou um buraco na estufa. Sua mãe, sua avó e seus pais participaram do
ritual de despedida do pequeno bichinho. Maria Valentina chorando e soluçando
depositou na terra o pintinho e, entre um soluço e outro, disse-lhe: “Adeus!”; os
adultos que ali estavam choraram com ela a dor da despedida.
Ao visitá-la dias depois, ela me contou o
que havia acontecido com um de seus pintinhos e mostrou o local onde o haviam
enterrado, agora um lugar de homenagear a vida do amiguinho que ficou tão pouco
tempo com ela, embora os demais sobreviveram ao ataque, aquele, em especial,
ficou marcado em sua memória infantil, pois precisou despedir-se dele.
Conversamos sobre se despedir, sobre morrer, sobre chorar, sobre dor, sobre
continuar, sobre lembranças...
Admirei a sensibilidade dos adultos
envolvidos no acontecimento; não ignoraram os sentimentos de tristeza de Maria
Valentina, respeitaram sua dor, conversaram sobre a perda, não deixaram passar,
não trataram como bobagem de criança, pois essa não será a única vez que isso
vai acontecer em sua vida, mas as primeiras perdas determinam como como vamos
lidar com as que virão.
Ao perdermos algo que amamos dói e a dor
vai diminuindo com a passagem dos dias. Falei à Maria Valentina que sempre poderemos
nos lembrar do pintinho, pois ele passou a morar dentro de nós, em nossas
memórias e experiências que tivemos com ele. Ela sorriu, entendendo que a vida
tem disso, despedidas que doem dentro da gente, mas que também vão compondo as
emoções que nos acompanharão durante toda a jornada do viver.
[Maria Emília Bottini publica no Rua Balsa das
10 aos Sábados]

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