20 março 2021

A DOR CHORO


 Maria Emília Bottini

Maria Valentina, minha sobrinha, fez aniversário de oito anos e, entre tantos presentes, ganhou também dez pintinhos. Eles eram bem pequenos e precisaram ficar em uma caixa de papelão, com luz e ração, para se desenvolverem; quando maiores, foram morar em um pequeno galinheiro atrás da estufa da casa de seus avós. Certo dia Nina, sua cachorrinha, estava solta no pátio e abocanhou um pintinho entre as frestas do galinheiro. Até então, a danada só caçava alguns pombos que voavam rasinho.

Dessa feita, a menina brincava pelo pátio, distraída. Quando percebeu que Nina andava com algo na boca já era tarde, achava ela que era outra pomba, não havia se dado conta de que era um de seus pintinhos. Quando isto aconteceu tentou fazer algo para salvar a vida do amiguinho, puxou-o da boca de Nina, deu água, sacudiu, mas o animalzinho permaneceu imóvel, mortinho da silva.

Percebendo que nada mais podia fazer, o choro brotou ao dar-se conta que seu pintinho havia morrido. Chorou um choro comprido. A família ficou em alvoroço, pois o desespero se instalou e nada acalmava a menina. Chorava lágrimas grossas pela dor da perda e pela tristeza de entender que a morte é irreversível.

Seu pai resolveu ajudar e sabiamente pegou uma pá e cavou um buraco na estufa. Sua mãe, sua avó e seus pais participaram do ritual de despedida do pequeno bichinho. Maria Valentina chorando e soluçando depositou na terra o pintinho e, entre um soluço e outro, disse-lhe: “Adeus!”; os adultos que ali estavam choraram com ela a dor da despedida.

Ao visitá-la dias depois, ela me contou o que havia acontecido com um de seus pintinhos e mostrou o local onde o haviam enterrado, agora um lugar de homenagear a vida do amiguinho que ficou tão pouco tempo com ela, embora os demais sobreviveram ao ataque, aquele, em especial, ficou marcado em sua memória infantil, pois precisou despedir-se dele. Conversamos sobre se despedir, sobre morrer, sobre chorar, sobre dor, sobre continuar, sobre lembranças...

Admirei a sensibilidade dos adultos envolvidos no acontecimento; não ignoraram os sentimentos de tristeza de Maria Valentina, respeitaram sua dor, conversaram sobre a perda, não deixaram passar, não trataram como bobagem de criança, pois essa não será a única vez que isso vai acontecer em sua vida, mas as primeiras perdas determinam como como vamos lidar com as que virão.

Ao perdermos algo que amamos dói e a dor vai diminuindo com a passagem dos dias. Falei à Maria Valentina que sempre poderemos nos lembrar do pintinho, pois ele passou a morar dentro de nós, em nossas memórias e experiências que tivemos com ele. Ela sorriu, entendendo que a vida tem disso, despedidas que doem dentro da gente, mas que também vão compondo as emoções que nos acompanharão durante toda a jornada do viver.

 [Maria Emília Bottini publica no Rua Balsa das 10 aos Sábados] 

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