21 março 2021

PROFESSORA, SOMOS O LÚMPEN ACADEMIA

O humor com nossa própria vida, falar de autores clássicos no meio de episódios cotidianos foram marcas da nossa aproximação... Desde o primeiro Congresso Internacional de Direitos Humanos que nos encontramos passamos a conviver de forma afetuosa e, acredito eu, admirando-nos!

Não sabíamos quase nada da vida familiar um do outro, nunca almoçamos juntos, só merendamos na mesma mesa em evento... mas o que nos unia mesmo era a cumplicidade ideológica. E sempre fazendo piada sobre o mundo.

Em um desses eventos da vida, acho que numa Conferência Magna  que eu fiz, quando saí da mesa, nos encontramos na banca de livros e ele, em minha direção, rindo, falou: professora, o seu “desgraceira do capitalismo” é demais... nunca mais os estudantes esquecem.  

- Os que gostam do capitalismo ou os que odeiam?

- Todos!

E ríamos de novo! Ele e eu concordávamos que haviam frases ou palavras que não tinha a ver com lacração para nós, mas que estudantes e jornalistas gostavam, isso gostavam. E viravam título de matéria de jornal...

Foi dele também a ideia de Conferência Magma.. ele me disse que tinha umas magnas que eram magma puro... que vinha feito lava de vulcão... e que pela reação do teatro lotado a minha tinha sido magma... e lá ficamos nós falando sobre magma e magna e fazendo trocadilhos... Agora só falo magma... aquela que sai do centro da terra!, vêm de dentro... sabe-se lá onde... talvez da história? Ai que falta faz esse guri não conversar mais comigo.

Fato é que quando nos encontrávamos sempre falávamos das novas palavras e expressões que tínhamos aprendido ou criado. E quando misturamos Rosa de Luxemburgo com Guimarães Rosa então... ficou uma coisa mais ou menos assim... a vida embrulha tudo e se não nos movimentamos não sabemos as cercas... que poderiam desembrulhar! Ou pelo menos prender os sindicalistas que estão no apoio aos trabalhadores para colocar na noira do capitalismo... mas, o que a vida quer mesmo é coragem! Pronto, casamos os dois e ríamos!

E hoje sabendo que ele gostava da Legião Urbana, fui lá no tempos perdidos e cantarolei enquanto escrevia e,  pensei como seus filhos querem e precisam saber do quanto o pai era um intelectual fantasticamente humorado...



Lembro e esqueço
Como foi o dia
Sempre em frente
Não temos tempo a perder

Eu, muito mais pobre em literatura que o Luiz e ele falando não sei quantas línguas, eu acabava bebendo na fonte do seu conhecimento e na forma como se expressava sobre os autores e autoras. Fazíamos exercícios de como falar fácil de coisas complicadas tipo hegemonia, contra-hegemonia, poder totalitário... traduzíamos por tijolo  com furo, sem furo, argamassa, cimento, areia, pedra, pedrisco... e ríamos... a inteligência dele era realmente fascinante!

E, embora eu soubesse do seu câncer e ele sabendo que eu sabia, nunca conversamos sobre isso... a vida pulsante sempre tomava nossas conversas de dois minutos ou de uma tarde inteira durante um evento de direitos humanos... encontrando no corredor ou sentados em um trabalho em grupo. Quando eu sabia que ele participaria do mesmo espaço, eu já ficava esperando suas tiradas científicas com humor. Talvez pensava que...

Nosso suor sagrado
É bem mais belo
Que esse sangue amargo
E tão sério

Sempre que eu dava aula com o texto do Lefévre & Lefévre sobre o processo saúde-doença e a não redução de alguém à sua doença eu citava o Luiz. O seu viver era muito mais maior de grande que o diagnóstico e seus exames do cérebro... Aliás, foi surpresa saber que estava mal fisicamente... prá mim ele não tinha doença.

Dos melhores aprendizados, foi em um evento da Pastoral dos Migrantes, que conheci um dos conceitos mais significativos para definição de quem sou na academia...

Quando chegamos em bando de feministas, já estavam lá os coloridos dos vestidos venezuelanos, das saias paraguaias, dos turbantes haitianos, dos quimonos japoneses, as tranças bolivianas, as túnicas africanas quando entrei no salão da Igreja São Judas Tadeu. Lá “aceitavam” essas festas dos migrantes (nem todas as igrejas gostam... algumas até rechaçam!). A nossa marca? Quase todas com saias compridas e algumas com flores na cabeça.

Luiz veio em nossa direção, já sorrindo e eu também... como diria a Sônia, a gente ria de nada... só de ter em perspectiva que novas histórias iríamos contar da nossa vida de pesquisadores... na “academia”, como diria Belchior!

- Profa, a Dra. Mayck enviou esse livro prá você. Demorei prá devolver porque eu quis ler antes.

- Uai, livro com o nome do que ela está pesquisando?

- Profa, ela já defendeu a dissertação e já publicou em livro!

- Como assim? Ela nem me avisou que havia terminado a pesquisa, não me convidou prá banca... não me avisou nada...

Minha cara deve ter afetado o Luiz!

- Ih, Profa, ela lhe enviou livro com dedicatória e tudo!

- Cara, essa ex-mestranda e agora mestre que chamamos de doutora porque é do direito eu peguei na mão dela prá terminar o projeto de pesquisa, depois estudei junto a metodologia, ajudei a localizar a base de dados... pensa... não sei quantas horas presenciais e outras tantas on line...

Na dedicatória havia agradecimento à caneta, no livro eu não existia. Olhei as referências bibliográficas, os agradecimentos e eu.... nada, nadica de nada!

Um filme passou pela minha cabeça...

... a menina pensadora que me agradeceu na apresentação do livro e que chamou um professor da Universidade para a orelha depois de ter ficado comigo tantos anos. Afirma sempre que eu a “acompanhei” no aprendizado. Ao agradecer falou da admiração pelo conhecimento científico do orelhista;

... da trabalhadora do HU que quase perde o mestrado e eu, dias a fio lhe apoiando com a metodologia e a organização da dissertação e as regras da universidade não me permitiam ser da banca. Com uma defesa grande do papel que tive junto ao programa de mestrado, conseguiu me convidar para rever um dos artigos e daí assinar em conjunto o mesmo;

... da procuradora achadora que, tendo ir fazer o mestrado e com o vício do direito de a tudo transformar em peça jurídica, em algumas muitas horas fiquei orientando a metodologia de pesquisa, o comitê de ética... e essa eu só soube que tinha já o título de mestre pelas fotos da viagem comemorativa;

...  da procuradora pouco achadora que durante alguns vários dias discuti as fontes de dados e as principais referências bibliográficas do tema, além de enviar textos e orientações precisas de como descrever a metodologia de pesquisa documental e ela obter o título de mestre e, quando nos encontramos falou que tinha se esquecido de “avisar” que tinha terminado;

... da doutoranda brasileira em país do velho mundo que, como quase nunca encontrava o famoso orientador, passei a ler sua tese, sugerir as mudanças, estudar junto a formatação daquele país e, quando me encontrou em evento mundial falou que graças à ajuda que eu tinha feito, havia passado pela banca com louvor...

... de amigos da universidade que pesquisam temas que sou das referências e depois comentam no café como foram as bancas... e eu nem convidada para assistir...

...

...

...

Ainda estávamos trocando ideia se isso era ingratidão, se era termos aceitado ficar na sombra, se era porque sendo nós dos direitos humanos e colocando-nos à disposição das pesquisas, as pessoas não nos veem como intelectuais... que diabos é isso de não nos considerarem como integrantes do mundo da academia que pesquisa?

Exatamente quando estávamos aprofundando esse menos-valor com que somos tratados e ele me falando do tanto de dissertações e teses que leu inteiras antes de serem entregues, capítulo a capítulo, das traduções de textos... já estávamos quase começando a rir da nossa desgraceira quando a Profa. Dra. dos Direitos Humanos entrou no evento e veio em nossa direção. E eu, com meu espírito descontrolado...

- Oi, Profa. estamos aqui conversando... porque nós nunca somos chamados prás bancas, prá sermos co-orientadores... prá assinar os artigos que a gente ajuda tanto no conteúdo quanto na formatação?

- Não sei, gente... como assim?

(aí passamos a citar situações e nomes de mestrandos e especializandos... prá ver se nos fazíamos entender...)

A Profa. Dra. respondeu:

- É que precisamos valorizar os programas de mestrado e doutorado... então um programa convida os professores de outro programa.

Todos os dias quando acordo
Não tenho mais
O tempo que passou

...

Veja o sol
Dessa manhã tão cinza
A tempestade que chega

Resposta límpida! Todo os curta-metragens que havíamos compartilhado, as pequenas dores cumpliciadas tinham a explicação lógica da racionalidade. O grupo que estávamos se desfez e ficamos ali, nós dois, calados. Depois do instante que se sente século...

Olhamo-nos.

Luiz riu.

- Professora, aqui, neste território nós somos pesquisadores! na Universidade, nós somos lúmpen academia!

E aí, a Rosane nos nomina ao microfone, agradecendo apoiadores da Pastoral dos Migrantes e completa dizendo “nossos amigos pesquisadores”!

Luiz se encantou um dia desses e eu estou aqui, pensando... onde será que estão outros lúmpens academia preu me juntar? Oh, árvore frondosa feito baobá, me indica aí!

Então me abraça forte
E diz mais uma vez
Que já estamos
Distantes de tudo
Temos nosso próprio tempo
Temos nosso próprio

Estela Márcia Rondina Scandola, 58 anos sorvendo a vida mulherida, publica no Rua Balsa das 10 aos domingos como convidada. Hoje, com aprovação de texto e ajuda prá música, contei com a Bruna, esposa do querido Luiz Rosado que me brindou com a convivência em  eventos de direitos humanos.  

 

 

4 comentários:

  1. Desgraceira mesmo, Estela, mas sabe de uma coisa: faz um bom tempo que eu vejo que a academia vive, quase sempre, quase toda, voltada para manutenção de si mesma. Nada contra, mas poderiam ao menos assumir, parar com essa conversa de que há, quando não há, compromisso com o saber ou com a diversidade de saberes e fontes de saberes. Não há, quase nunca, nem mesmo entre aqueles que se dizem freireanos, quase nunca. Uma lastima, mas já estou bem em paz com isso também.

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    1. compa amigo, você tem alma evoluída... eu, ao contrário ainda sinto dor. E isso é com tudo quanto é linha ideológica... até com os mais próximos, né?

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  2. Leandro Mendonça Barbosa31/3/21 00:35

    Estela, esta emocionante e emocionada narrativa me remeteu à época em que acreditava na academia como a grande catalisadora da sociedade e de suas contradições, como àquela cujo conhecimento é tão poderoso que seria capaz de entender os sujeitos e, a partir dos anseios destes, guiar para nova sociedade. Foi-se. Dentro desta desgraceira de capitalismo, tendo também a acomodar (e não me orgulho). Sou um lúmpen que viaja, isso é o afago concedido pelo capital.

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    1. estou à procura de afagos, compa! está feia a coisa da desilusão nas Universidades... onde ancorar tanta sede de produzir conhecimento e socializar?

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