Quando
estamos em capacitação no SUS, quem mais ganha somos nós mesmas, as tais
facilitadoras. E, quando acompanhamos o mesmo tema por anos a fio, a cabeça da
gente vai construindo um lastro de raciocínios e eu, como tantas outras, fui separando
as pequenas histórias para pensar em minha própria vida. Uma dessas foi sobre a
mesinha de canto.
A
Cláudia, praticamente em todas as capacitações sobre violências contra as
mulheres, quando começa a falar das velhas, faz a metáfora da mesa de canto. E
sempre a faz no diminutivo: as idosas como mesinhas de canto.
Demorei
muito prá trazer prá minha vida essa ideia. Há uns quinze anos achava
exagerada, uns dez comecei a lembrar de alguns casos e há uns cinco anos
comecei mesmo a pensar como possível a todas nós, sendo do SUS facilitadoras da
educação ou sendo de quaisquer outros lugares.
Mas
foi, no ano passado, já chegando a pandemia do COVID, numa fraterna conversa de
pré-idosas, outra Cláudia e eu nos pusemos a pensar sobre o que nos amedronta
na velhice e lhe falei da metáfora proposta pela Cláudia I.
A
ideia de ser convertida naquela figura que serve para o enfeite da sala, que
guarda os objetos históricos, que se arruma de forma combinante com os demais
móveis, que não interfere em nada que possa acontecer na casa, mas pode servir para
que crianças e cachorros fiquem perto (gatos não obedecem, mas poderiam
esconder-se à noite, ao afago dos outros objetos que estão sobre a mesinha). Lembramos
que talvez possam colocar um abajur sobre a mesinha. É, a mesinha tem a
serventia que queremos dela, desde que não se meta a fazer o papel que não lhe
destinamos.
Sim,
dá medo o andador, a bengala, as muletas, a cadeira de rodas... tudo amedronta
a quem nunca precisou desses suportes. Diminuiria nossa independência
funcional... que palavras esquisitas... esquisitices puras...
Mas
nada dá mais medo que o envelhecimento comprometesse nossa autonomia. Estávamos
na curtição de buscar música boa enquanto conversávamos e o Ney passou a ser
uma audição obrigatória... é muita coisa boa cantada pela expressão do Ney. Ele
não é voz, é um ser inteiro. A voz e corpo são uma unidade e a forma como se
expressa é sempre um todo. Lembramos dos Secos e Molhados, dos Homens com H,
rimos... E, quando veio Mulheres de
Atenas, a interpretação do Ney nos fez em silêncio. Aquietamos. O que será que
o Chico queria com essa letra, hein? Que porra é essa mulher de Atenas? Daí
ficamos em nossos celulares procurando na internet e descobrimos que o Chico
compôs junto com o Boal, que é de 1976 e que foi para a peça Lisa! Pronto, já
desviamos prá falar da política na música, do regime militar... e a música
tornou-se a discussão sobre o silêncio imposto às mulheres e como fazem o
bordado da vida enquanto isso... nas suas quietudes fazem seus registros
revolucionários do dia-a-dia.
E
quando envelhecem? Por certo, até meados do século passado, cinquenta anos já
eram velhas... agora, quando passaram a ter renda com aposentadoria, quando
começaram a morar sozinhas... a falar de sexualidade entre as amigas, quando é
que se tornaram envelhecentes?
-Eu
não quero ser idosa...
-
Nem melhor idade
-
Cruzcredo!
-
Vamos ser velhas...sem espírito jovem!
-
Espíritos da nossa idade... é... e alegres, viajantes, cantantes, dançantes,
escreventes...Como a Rita... “ Cor de rosa choque”
E
nos pusemos a cantar.... oh Rita fodástica! Era um riso só o que podemos ser
sendo velhas. Lembramos da cena do Aquárius em que a tia que fazia 70 cobrou
dos sobrinhos os seus registros de amantes e sexo... rimos! A maioria das
pessoas que assistiu ao filme não entendeu a cobrança da tia. Lembrei que tive
que dizer a um dos filhos: é que na nossa velhice há um movimento de negar
nossa vida sexual. Nada! O filho não entendeu e falou que a cena era desnecessária...
rimos!
-
Mas, mas... e a mesinha de canto!
Novamente
o silêncio. Lembrei que nas ILPI (Instituições de Longa Permanência de Idosos),
aquelas que são da rede socioassistencial, bancadas pela política de assistência
social, mais de 60% são homens. Tem lugares que chega a 80%. Então, tá
explicado, os homens vão prá ILPI e as mulheres são transformadas em mesinha de
canto. No diminutivo mesmo... algo de enfeite, sem importância funcional!
Sim,
ninguém pergunta à mesinha de canto onde quer ficar... aliás, já é desenhada
triangular prá fazer o encaixe! Pior, ainda dirão alguns do relevante papel de
filhos e filhas no acolhimento das velhas... E, a elas, alguém terá perguntado?
Aquelas
com mais condições financeiras talvez consigam sair do canto... aquelas que
ganharem pouco ou nenhuma renda, talvez não! Então, lá vem de novo a questão de
classe econômica também determinando a vida das velhas... e, junto com ela, o
machismo e jovencismo... E esses vão se adonando de nós!
Talvez
nos reduzam a avós, bisavós... de novo, nos reduzindo... à maternidade e ao
cuidado... e muitas não conseguiremos sair da doce condição tão aceita e
querida da sociedade... faremos sucesso no facebook, nas fotos do insta, nos
discursos lindos e cristãos... Desde que não sejamos inteiras... só parte
combinante com a hipocrisia coletiva.
Às
velhas... bem, às velhas.... ainnnnn! Lá vem de novo a contínua luta: o grito
da autonomia, sermos adonadas de nós mesmas! Que nenhuma diminuição da nossa independência
funcional seja motivo prá não respeitar nossa autonomia... nenhuma!
Eu,
Cláudias, Bias, Lias, Tânias, Nancis, Miranes e.... tantas Marias, Cleuzas e
Marlenes... mulheres da crasse trabaiadora, sem posses ou grandes rendas,
precisamos sair do destino de ser mesas de canto! Não nos esqueçamos: estamos
no limbo – nem somos sem renda prá ser atendida pela assistência social e nem
renda suficiente para pagar um apart e muito menos uma clínica... somo limbo,
limbo!
Tô
desconfiada que sozinha não daremos conta. Só se nos juntarmos mesmo... Se sozinhas,
nos comprarão um batom rosa, esmaltes nudes e roupas pastéis. E nos chamarão de
boneca.... uiiiiiii
Vamos
manter chamadas emergenciais nos celulares (aumentando a letra dos teclados)!
E,
pelas nossas histórias de enfrentamentos, não fazendo os silêncios das mulheres
de Atenas, vamos sair por aí: Velhas Unidas jamais serão vencidas!
E
vamos já comprar chapéu roxo! Ou rosa choque! E todos com flores.
Estela
Márcia Rondina Scandola, 58 anos sorvendo a vida mulherida,
publica no Rua Balsa das 10 aos domingos como convidada

Como sempre maravilhosa. E viva nos poderosas alegres as vezes tristes mas sempre acreditando no.possivel. Vamos juntas pra uma comunidade de mulheres livres. Te amo
ResponderExcluirBia, que bom que estamos na vida uma da outra!
ExcluirUm texto divino e maravilhoso. Axé amiga.
ResponderExcluirJonas, se eu estiver no canto, você me põe no meio da sala, tá? e me leva prá rua!
ExcluirNa leitura do texto voltei lá na Rodoviária que também hoje é velha, entre tantas profissionais do sexo que ali trabalhavam, lá estava ela com seus cabelos brancos, lhe faltavam alguns dentes mas o batom era vermelho estava lá sempre impecável as vezes de vestido vermelho e sentadinha bem afastada das demais.
ResponderExcluirEla tinha mais 60 e mesmo não aceitando o preconceito me pegava me perguntando: será que ela tem clientes? Tinha sim e muitos!
Vc sabe que sempre lembro dessa nossa companheira de trabalho quando penso em rebeldia?ela não só me atraía prá curiosar... ela me instigava a pensar para além da velhice! mas eu acho que era mais de 60 anos... eu acho....
ExcluirSão várias as possibilidades de envelhecer, transgredir, ir para os espaços de fuga, sem cores nude, sem padrão, sem aceitar o imposto. Que possamos quebrar as regras quando for a nossa vez, aprender com as mulheres da rodoviária antiga, simplesmente ser. Amei seu texto, imagético, vai compondo cenários cada qual com sua sinfonia... cenários desviantes ao som da boa e claro velha MPB.
ResponderExcluireu lembro de tantas histórias nossas....
ExcluirQue legal. Vamos nos juntar e ser jovens umas para a outras. Aprender por nós mesmas as coisas novas, sincronizar a linguagem, o tempo passou mas aqui dentro tudo é vivo e atual. Podem mudar as paisagens, mas a essência continua intacta. Sempre vamos gostar das mesmas coisas que nos faz sorrir e sentir vivas. Adorei esse texto.
ResponderExcluirnãooooooo quero ser velhas umas com as outras. A juventude já vivi... agora estou curtindo tudo isso daqui! kkkkkkkkk
ExcluirVamos criar nossa comunidade de mulheres rebeldes! Juntas não seremos mesinhas de canto.
ResponderExcluirseremos um furacão no meio da sala, sempre!
ExcluirVamos criar nossa comunidade de mulheres rebeldes! Juntas não seremos mesinhas de canto.
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