Já viu O Tigre Branco,
o filme indiano da Netflix?
Quando for ver, tenho
um conselho: tenha um ponto de vista classista, não vai te fazer mal e pode até
ajudar a compreender em que mundo estamos vivendo hoje, seja na Índia, seja no
Brasil, seja nos Estados Unidos.
Quer saber qual a
história do filme?
Depois dê uma olhada
nas críticas nos sites de filmes (a que mais gostei está no Omelete). É importante,
para melhor compreender o filme, não levar a sério a sinopse, algumas, mesmo a
de Netflix, parecem falar de um outro filme, não do que eu vi. Neste caso
a sinopse não é importante, a questão toda é o ponto de vista de quem conta (ou
vive) a história. Estamos falando de um cidadão médio da Índia, mas não de uma
Índia espiritualizada que mora no imaginário dos desavisados e sim da
verdadeira, essa que não deu para ver na novela O caminho das índias. Na índia
real não há saneamento básico, nem energia elétrica e nem mesmo comida
suficiente para todos. Escola, Serviço de saúde? Só para quem pode pagar, do
contrário, sabe como é...
Ao mesmo tempo,
nesta Índia moderna, ainda tem sultão que dispõem do direito de vida e morte
sobre o empregado, e não só dele, da família inteira dele. Empregado talvez nem
descreve bem a condição do trabalhador indiano, o mais correto seria dizer
servo.
Acha que no Brasil é
muito diferente?
Balram, o protagonista
desta história, bem poderia ser eu ou você e talvez sejamos, só que ainda não
nos demos conta. Ele não tem nada de astuto, nada de esperto ou espertalhão, o
que ele percebeu (e talvez a gente não) é que não tinha (e nem nós temos) outra
saída, já que não pode (nem nós podemos) abandonar a índia (ou o Brasil), como
a patroa e outros membros da classe merda faz. Nem tão pouco dá para contar com
a sorte ou com a ajuda dos Deuses, e sonhar em ser jogador de futebol para
mudar de vida, é mais irreal ainda.
E vendo a desgraça
para onde caminhava sua vida: velhice, fome e favela (tudo que Paulo Guedes
sonha para você e eu), o que ele poderia fazer de diferente do que fez?
Sucumbir ou reagir da única forma possível ao seu alcance?
Para que consiga
aceitar que Balram não tinha outra saída, você precisa se pôr no lugar do
personagem, entender quem ele é, entender sua pobreza material, emocional e
simbólica. Sem estudo, sem direitos, sem se ver como ser humano (principalmente
porque não é tratada como gente) e que ninguém vem em seu socorro, nem os
políticos de esquerda, menos ainda os de direita, nem o Superman e menos ainda
o Batman. Se conseguir minimamente se pôr no lugar dele (sem pensamento
mágico), nem a moral burguesa (ou a cristã), vai te impedir de entender que ele
fez o que tinha de fazer.
Certo, errado? Essa escolha,
como diz o próprio Balram, só pode fazer quem tem a barriga grande. Ou
melhor, só pode escolher ser bom, quem tem o suficiente para viver, os outros?
Não há dúvidas, os outros têm que fazer o que é preciso, porque nada é mais
antiético do que se permitir ser roubado, desumanizado e passar fome.
A saída, embora pareça
errada, do ponto de vista do DONO do viveiro de galos, era realmente a única
que Balram poderia tomar, na lógica da história e é também a única que podemos
nós, nós os milhões de galos, os milhões de barrigas pequenas do escuro. O que
espanta é a gente não conseguir se unir e fazer isso de forma coletiva e
organizada.
O tigre Branco até me
lembra o conto O cobrador, do grande Rubem Fonseca. Assista esse filme sabendo
que não tem nada de entretenimento descomprometido nele, como li em uma crítica
que me pareceu descabida. Trata-se de um tapa na sua cara, seja você patrão ou
empregado, o tapa só muda de lado conforme sua classe ou conforme a classe à qual
você acha que pertence.
Quem sabe depois a gente possa conversar sobre como fugir do poleiro.
[Ernande Valentin do Prado publica na Rua Balsa das 10 às 6tas-feiras ou quase nunca]

finalmente tomei coragem e passiflora e assisti! acho que para um desavisado pode ser que pense que é um filme de superação individual, tipo neoliberalismo mesmo... para quem tem consciência de classe, esse filme não é prá diversão... é porrada!
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