22 março 2021

VELHA MÁQUINA DE COSTURA

 

 


VELHA MÁQUINA DE COSTURA

Com o advento da pandemia, e com a ideia de evitar ser mais uma na cadeia de transmissão, ela se recolheu. Foi morar afastada de tudo e de todos... menos da avó velhinha. Dispensou a acompanhante da noite e a moça que vinha trazer as refeições e colocou internet na casa. Trabalhar à distância só seria possível com uma boa internet. O celular não daria conta.

Passado um mês, a avó já nem estava tão feliz de ter uma familiar em casa. Queria atenção total, o que era impossível de conciliar com trabalho doméstico e profissional à distância.  Descobriu como desligar a internet. Tirava um pouquinho da tomada e sumia o sinal. Depois disfarçava e ligava de novo. Tipo criança levada e bem espertinha. Levou mais de uma semana para descobrir a manobra sutil. Já havia até chamado o técnico. Mas claro que a demora foi providencial para não passar vergonha.

  Passado um bom tempo, as novelas não eram atrativos suficientes para a avó... que mais seria possível inventar sem ser jogar cartas horas a fio enquanto driblava as reuniões com a imagem do computados fechada. A cada duas horas de trabalho sentia como fossem 10! Vasculhou a casa no final da semana buscando opções para ocupar a avó ... pelo menos durante as reuniões. Era isto ou deixar o refúgio e avó. Ah, bem que podia ter ido para a casa do tio longe dali. Estava vazia, era na serra, com um riacho perto. Bom, mas escolhera ir para a casa da avó, em parte por nostalgia e em parte para protege-la. Imaginou desde o início um tempo ela isolada, com pessoas indo e vindo, os riscos, a solidão... mas não avaliou que iria interferir com os hábitos de comida, com a rotina de saída e com a interrupção das visitas que a avó fazia e que recebia. Pandemia... imaginou uns 3 meses no máximo. Já completava um ano! Saudade do seu canto, fechado e abandonado na cidade grande. Só não tinha mais saudades dos irmãos, da mãe e dois amigos por saber que se estivesse em casa estaria também longe deles. Ao menos o celular ajudava a ver as fotos dos sobrinhos e dos pais. Teve um tempo que passou a mostrar todos os dias as fotos para a vó, mas quase perdeu alguns arquivos quando ela aprendeu a senha e resolveu usar o celular.  Começou apagando o que achava desinteressante. Foi uma loucura, sem nenhuma noção de importância das tabelas e números que eram parte do trabalho. Sorte que tinha salvo no computador.

Agora, num domingo de “folga” resolveu dar uma batida na casa para achar algo que pudesse ser uma atração para ocupar a avó. Subiu no forro da casa, muito pó, cadeiras e mesas desativadas, um baú pesado que teve medo de arrastar para um lugar mais claro para abrir e ELA!!!! Achou a máquina de costura antiga, que a avó usou na sua mocidade para fazer a roupa do marido e dos filhos! Desceu com a máquina e colocou numa mesa. Limpou, tirou pelo menos 2 décadas de poeira e colocou óleo, linhas e panos para ver se funcionava.

No meio da operação a avó veio ver o que ocorria. Milagrosamente lembrava com ajustar a correia, e fazer outros ajustes de ponto, pressão no tecido e limpeza. Foi cedendo o espaço para a velha que ficou com olhos brilhando. Por fim, precisou encomendar tecidos para ocupar a criatividade e habilidade da avó na máquina! E parecia que estavam as duas no paraíso, Uma com liberdade para suas reuniões e a outra fazendo almofadas, lençóis e vestidos de babados que ela usaria dentro de casa sem reclamar (menos nas horas da câmara aberta nas reuniões).

 Bendita máquina de costura velha colocada na janela que dava para o quintal!!!

Maria Lúcia Futuro Mühlbauer

Escreve às segundas feiras

Um comentário:

  1. Seria uma vigorelli? na minha casa seria essa... toda preta com as letras amarelas.

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