VELHA MÁQUINA DE COSTURA
Com o advento da pandemia, e com a
ideia de evitar ser mais uma na cadeia de transmissão, ela se recolheu. Foi
morar afastada de tudo e de todos... menos da avó velhinha. Dispensou a
acompanhante da noite e a moça que vinha trazer as refeições e colocou internet
na casa. Trabalhar à distância só seria possível com uma boa internet. O celular
não daria conta.
Passado um mês, a avó já nem estava
tão feliz de ter uma familiar em casa. Queria atenção total, o que era impossível
de conciliar com trabalho doméstico e profissional à distância. Descobriu como desligar a internet. Tirava um
pouquinho da tomada e sumia o sinal. Depois disfarçava e ligava de novo. Tipo
criança levada e bem espertinha. Levou mais de uma semana para descobrir a
manobra sutil. Já havia até chamado o técnico. Mas claro que a demora foi
providencial para não passar vergonha.
Passado
um bom tempo, as novelas não eram atrativos suficientes para a avó... que mais
seria possível inventar sem ser jogar cartas horas a fio enquanto driblava as
reuniões com a imagem do computados fechada. A cada duas horas de trabalho
sentia como fossem 10! Vasculhou a casa no final da semana buscando opções para
ocupar a avó ... pelo menos durante as reuniões. Era isto ou deixar o refúgio e
avó. Ah, bem que podia ter ido para a casa do tio longe dali. Estava vazia, era
na serra, com um riacho perto. Bom, mas escolhera ir para a casa da avó, em
parte por nostalgia e em parte para protege-la. Imaginou desde o início um
tempo ela isolada, com pessoas indo e vindo, os riscos, a solidão... mas não
avaliou que iria interferir com os hábitos de comida, com a rotina de saída e
com a interrupção das visitas que a avó fazia e que recebia. Pandemia...
imaginou uns 3 meses no máximo. Já completava um ano! Saudade do seu canto,
fechado e abandonado na cidade grande. Só não tinha mais saudades dos irmãos,
da mãe e dois amigos por saber que se estivesse em casa estaria também longe
deles. Ao menos o celular ajudava a ver as fotos dos sobrinhos e dos pais. Teve
um tempo que passou a mostrar todos os dias as fotos para a vó, mas quase
perdeu alguns arquivos quando ela aprendeu a senha e resolveu usar o celular. Começou apagando o que achava desinteressante.
Foi uma loucura, sem nenhuma noção de importância das tabelas e números que
eram parte do trabalho. Sorte que tinha salvo no computador.
Agora, num domingo de “folga”
resolveu dar uma batida na casa para achar algo que pudesse ser uma atração
para ocupar a avó. Subiu no forro da casa, muito pó, cadeiras e mesas
desativadas, um baú pesado que teve medo de arrastar para um lugar mais claro
para abrir e ELA!!!! Achou a máquina de costura antiga, que a avó usou na sua
mocidade para fazer a roupa do marido e dos filhos! Desceu com a máquina e
colocou numa mesa. Limpou, tirou pelo menos 2 décadas de poeira e colocou óleo,
linhas e panos para ver se funcionava.
No meio da operação a avó veio ver
o que ocorria. Milagrosamente lembrava com ajustar a correia, e fazer outros
ajustes de ponto, pressão no tecido e limpeza. Foi cedendo o espaço para a
velha que ficou com olhos brilhando. Por fim, precisou encomendar tecidos para
ocupar a criatividade e habilidade da avó na máquina! E parecia que estavam as
duas no paraíso, Uma com liberdade para suas reuniões e a outra fazendo
almofadas, lençóis e vestidos de babados que ela usaria dentro de casa sem
reclamar (menos nas horas da câmara aberta nas reuniões).
Bendita máquina de costura velha colocada na
janela que dava para o quintal!!!
Maria Lúcia Futuro
Mühlbauer
Escreve às segundas
feiras

Seria uma vigorelli? na minha casa seria essa... toda preta com as letras amarelas.
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