Maria Emília Bottini
Meu
marido compra sempre o jornal do final de semana, porém desta feita voltou para
casa com uma revista que pela capa não me senti atraída a ler nenhuma
reportagem. Já temos notícias ruins o suficiente para anos a fio na televisão,
talvez seja para aumentar a nossa desesperança e descrença em nosso potencial
de transformar o que está posto.
No
entanto, passadas algumas horas não me contive e masoquistamente resolvo abrir
a revista, saltam propagandas de carros, de vida feliz, de produtos e mais
produtos que vamos nos tornar pessoas melhores se os adquirirmos... Doce
ilusão! Folha após folha vão sendo registradas notícias dos humanos e suas
ações não tão boas.
Vou
seguindo as páginas sem ler, apenas vendo a sequência de imagens. Despreocupadamente
me deparo com uma imagem triste e chocante em pleno domingo pela manhã. A
fotografia é de uma mala preta e dentro dela está uma menina de apenas quatro
anos. Detenho-me por alguns minutos a
apenas observar a fotografia, a pensar em seu sofrimento, em sua dor, em seus
sonhos, seus desejos; a pensar na vida desta criança, tão jovem e já tão
maltratada pela vida e pelos adultos.
Fico
a imaginar o que seja andar por aí dentro de uma mala com seu pai, talvez a mãe
já tenha morrido. Não foram apenas alguns passos, o trajeto já percorrido por eles
foi de 2200 quilômetros da Síria, de onde partiram para fugir da guerra civil,
que já matou, segundo as estatísticas, 330.000 pessoas. Seus nomes não foram
divulgados, mas podemos nominá-los de Esperança.
A
menina foi fotografada no lado externo da estação de trem em Gevgelija, cidade
da Macedônia na fronteira com a Grécia. Ainda faltam 760 quilômetros dos
territórios macedônios e sérvio até chegar à Hungria, a entrada para o espaço
Schengen, conjunto de países europeus que permitem a livre circulação de
pessoas através de suas fronteiras.
A
maior parte do percurso é realizada a pé ou de bicicleta para evitar encontros com
a polícia. A menina está dentro da mala com uma blusa cor-de-rosa e capuz na
cabeça, seu rosto e mãos estão queimados pelo ataque de armas químicas. Que
crime terá ela cometido?
Ela
não está sorrindo, não está brincando, não está lendo um livro infantil, não
está comendo bolo de aniversário, não está brincando com letras e números, não
está frequentando escolinha. Ela está dentro de uma mala fugindo com seu pai,
que sonha encontrar um lugar melhor para eles viverem.
Este
sonho move este pai, é tudo o que sobrou depois do que perdeu. Foi-lhe retirado
o direito de viver em seu país, a esposa quem sabe, os amigos, os familiares, a
casa, a vida... Mas ainda não lhe retiram a capacidade de acreditar em dias
melhores para si e para sua filha.
Talvez
não cheguem ao destino final, já que muitos morrem pelo caminho: de fome, de
sede ou mesmo assassinados, deportados.
Provavelmente
o pai saiba dos riscos que estão correndo, mas é melhor lutar e morrer, que se
entregar pacificamente sem reação, sem combater.
Malas
são objetos feitos para transportar muitas coisas. Alguns transportam dinheiro
de corrupção infinita. Esse pai transporta a Menina/filha-Esperança, ainda que
não bonita, amassada, rasgada, maltratada, pequena, corroída, queimada, ferida...
Assim
a esperança resiste e persiste. Que todas energias do planeta soprem a favor
deles e permitam que pai e filha cheguem ao destino final, pois a esperança
precisa sobreviver em meio a tanta insanidade e crueldade que praticamos e
sofremos.
[Maria Emília Bottini publica no Rua Balsa das
10 aos Sábados]

To aqui pensando sobre a revista masoquista... fala de desgraceira com as notícias e apresenta ow consumos que não conseguimos comprar como felicidade... seria mesmo um caso de tortura, eu acho
ResponderExcluirTo aqui pensando sobre a revista masoquista... fala de desgraceira com as notícias e apresenta ow consumos que não conseguimos comprar como felicidade... seria mesmo um caso de tortura, eu acho
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