Quando cheguei no Sossego junto com Nancy eu tinha profundos desejos de declarações de amizades, aquelas que considero os amores mais verdadeiros. Nesses tempos de tantos passamentos de gentes queridas vivemos em sobressaltos de não nos vermos mais. Viajamos bastante prá nos abastecermos de afetos. Três mulheres imensas de histórias e diferenças e uma necessidade imensa de acolhida em trio.
No 31 de dezembro teríamos
duas pessoas a mais, Pinheiro e Kelly, que viriam ficar até o 01 de janeiro.
- Quem são Pinheiro
e Kelly?
- Pinheiro é quem eu
estou escrevendo a biografia dele. Kelly é sua esposa.
- Revolucionário?
- Foi preso por nove
anos na ditadura... mas vocês vão conversar, Estela Márcia!
Aquietei geral e
aguardei.
Quando chegaram vi
um homem elegante, passos firmes e decididos. Aproximação entre todos sem
invasão. Tudo calmo, com tempo. Terminamos de lavar a casa com chão de cimento
batido, banho no poço com cachoeira, combinação da comida, caminhada pelos
plantios em volta da casa, redes recolocadas e conversas de política atual.
Pinheiro apresenta
um texto sobre a inconsistência de caráter do Oxiúrus que está na presidência.
Defende a tese que ele não seria um torturador individual. Não tem tutano prá
isso... sem força de caráter capaz de obedecer e seguir à risca o ritual da
tortura... Ficamos no reme-reme do pensar, falar e calar entremeados pelos
resultados eleitorais do Goiás...
E Nanci bordava
folhas desidratadas... e algumas das bordadeiras vinham e iam com linhas,
folhas e pontos. E eu ansiava por música e saladas. Dois prazeres imensos em
dias pandemônicos na política e na doença. Entre vinhos e cervejas Diane
cozinhava nossa paella e todas íamos fazendo uma coisinha aqui e uma coisinha
ali... amo festa assim... preparar a festa é a festa.
Só me lembrava da tortura
com o Pinheiro quando ele precisava apoiar o queixo prá poder falar. No mais
era energia pura. E assim fiquei até poucas horas antes de irem embora.
Regalou-me um livro. Capa vermelha, letras amarelas e imagem de sapatos de
cinza ao chumbo. Era seu depoimento na Comissão Nacional da Verdade ocorrido no
governo Dilma. Livro pequeno, fino... e o título “Ninguém pode se calar”.
Nova discussão
acalorada ... a página 14 registrava a emoção e as palavras da Dilma e depois
afirmava que engavetou o relatório e, enquanto já estávamos alterados em
concordância, Diane veio de “água festas”:
-Hum, a Dilma podia
tudo, tinha todos os poderes para fazer isso... hum...
A ironia era
característica dos três metidos na conversa. Cada um falando mais... e tomando
vinho vão acomodando as diferenças... e a Nanci bordando e a Kely arrumando as
coisas e discutindo os resultados eleitorais. Eram pitacos prá todos os lados e
ainda as visitas aos tomateiros produzindo, os prós e contras das salsas e
coentros, as diferenças entre manjericão e manjerona. Realmente uma festa de
ativação de lados do cérebro. A seguir ali as cinco pessoas, ninguém ficaria
senil por falta de estímulo.
Quando entregou o
livro com dedicatória falando da minha alegria o impulso da pergunta saiu sem
controle: você ficou nos porões durante o Garrastazú Médici?
- Ele e o Geisel.
Eu só havia sabido
sobre ditadura no Brasil depois que fui estudar no Presidente Vargas de
Dourados. Não tenho lembrança nenhuma de aula no Rodrigues Alves ou no
Imaculada Conceição que tivesse essa palavra. E, em casa, a conversa só chegou
porque os jornais falavam da Lei da Anistia (79) e o retorno de vários
políticos, mas especialmente do Brizola.
Mas uma história foi
trazida pela memória e essa deve ter sido apaziguada pela mamãe ou papai e nada
foi avante. Nos grupos da Igreja católica nada, nas escolas nada... significa
que eu só tinha mesmo um recorte aqui, outro acolá. Mas tinha gente em Itaporã
e Dourados que sabia de ditadura... porque eu não vivenciava a conversa... aí,
era a ditadura do silêncio sobre a realidade.
Seu Luís foi um cara
que me trouxe um lampejo. Acho que tinha lá pelos 11, 12 anos (1974-1975)
quando ia rotineiramente à serraria do papai com o tio Joanin. E, para ir
passava em frente ao Correio, uma casa verde escura, com um balcão grande logo
na entrada. Adorava ficar na ponta dos pés vendo a movimentação e escutando o
barulho do telégrafo. Ficava imaginando que notícias que chegavam com aquele
barulho... não entendia direito, mas a curiosidade era imensa. Eu até inventava
histórias na minha cabeça e depois colocava parte delas nas redações de
português. Dona Irene, avó do Mário Edson (que estudou comigo) era a
responsável e sempre o Seu Luís estava por lá. A foto do Garrastazú Médici
estava na parede em destaque.
- Oh Seu Luís, esse
Garrastazú Médici tem cara de vô, né?
- Só se for de avô
malvado.
Dona Irene, ainda
sentada olhou rápido. E ele ergueu o corpo do balcão perto de mim e foi saindo.
Saí do correio e
virei a esquina. Destino: sorveteria do Seu Luís.
- Estelinha, quer
picolé?
- Picolé e pergunta:
porque o Garrastazú é vô malvado?
- Ih, eu que penso.
Mas você vai querer picolé de quê?
Daí prá lá não
lembro mais... Devo ter sido inserida na doce felicidade da alienação. Só fui
começar a entender o tamanho da coisa toda já na faculdade.
Só falei do Seu Luís
e Dona Irene na viagem de volta enquanto procurávamos um posto para abastecer
perto de Rio Verde de Goiás. Os pontos da vida da gente demoram prá ser ligados
e às vezes não ligam nunca. Foi sob o comando do Médici e do Geisel que a
tortura foi intensificada.
Sim, Diane fará uma
biografia com preciosidade de detalhes e verdades.
Mas conviver dois
dias com o homem que se define como aquela pessoa de sorte porque, quando
ocorreu o golpe de 64, estava do outro lado dos mantenedores do Regime Militar
que se instalou, foi desses encontros que ficarão prá sempre. E, muitas
conversas poderiam ter acontecido e, lendo o livro fui me encontrando com ele e suas respostas às perguntas que não fiz: “Ninguém
participa dessa forma de luta a não ser movido pela consciência de que precisa
atender a uma determinada necessidade histórica”
E, se alguém lhe
perguntasse se faria de novo, ele responde antes:
- Eu repetiria todas
as minhas ações. Permaneço fiel às convicções que me forçaram a pegar em armas
para defender a democracia, a liberdade, a justiça e a paz, defender o
socialismo. (Salles, 2019, p. 117)
Antes do almoço, ele
levanta a cerveja e faz um brinde:
- Viva o Socialismo!
E eu:
- Viva o Feminismo!
E as três mulheres
que riam...
- Socialismo feminista?
- Feminismo
socialista?
- Vamos discutir
agora?
- Nãooooooo... vamos
almoçar de ano novo! Dá-lhe churrasco com mandioca e salada!
Pinheiro deu muito
pro Brasil em suas formas de resistência e revolução... mas, e, especialmente
deu sua vida não deixando a energia revolucionária morrer. Apesar de tanta
tortura sobre seu corpo e seu emocional ele é uma esperança caminhante que
denuncia e anuncia!
Ainda escrevendo esse
texto, o algoritmo me pôs o depoimento do Fito Paez sobre o seu desalento e o
desafio que foi compor “Yo vengo a ofrecer mi corazón”. Pronto! Me encontrei. E a versão com muitas vozes me dá uma esperança danada!
Não será fácil, não será simples, tanto sangue derramado... como abrir o peito e buscar a alma, a calma... ?
Eu, de minha parte,
ofrezco mi corazón y me dispongo a la emoción da verve inconformada
que brada onde vai “Ninguém pode se calar”. Seu Luís sabia disso!
Estela Márcia
Rondina Scandola, 58 anos sorvendo a vida mulherida,
publica no Rua Balsa das 10 aos domingos como convidada.

Estela Márcia, que escrita certeira, terna e cheia de memória! Obrigada por isso e pela delicadeza de um registro tão na na em um dia de domingo.... Faremos outros encontros, Pinheiro sempre lembra de vc.... Um abraço de amor ...
ResponderExcluirque bom que passei essa ideia dos afetos que vamos construindo! é essa a ideia mesmo
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