Mara trabalhou comigo há uns 20 anos atrás, lá no tal enfrentamento da violência sexual... vinha de uma ocupação urbana em Campo Grande e, sendo líder tinha sido não somente assediada por homens que estavam no mesmo grupo, mas também teve que enfrentar “alguns líderes” que violentavam as meninas e meninos. Como ela dizia: já não basta estar embaixo de lona e ainda ter que aguentar os pintudos se achando no direito de possuir as mulheres? À época nos tornamos cúmplices para fazer os casos chegarem à polícia... tempos de luta, tempos de afetos construídos e, mais que isso, confiança!
Agora, Mara trabalha no Parque dos Poderes. É terceirizada e,
mesmo conseguindo fazer faculdade, segue trabalhando na digitação. Ganha menos
de dois salários mínimos e, quando nos vimos, de máscara e tudo, reconhecemos e
nos abraçamos apesar do vírus. Quando nos olhamos, ambas estávamos com emoção saindo
e olhos marejados e seguimos de mãos dadas. Rimos sem ver os dentes e nos
encostamos em um dos carros do estacionamento.
- Mulher, que bom que lhe encontrei... preciso tanto
conversar!
- Que maravilha é encontrar você! Preciso tanto conversar!
Rimos e, quando eu já ia perguntar como estavam os filhos ela
lascou:
- Márcia morreu de Covid. Eu tô quebrada.
Engoli. Calei. Não consegui fixar os olhos nos dela. Como é
morrer a filha? O que se fala, o que se faz... que movimento se dá ao corpo? Fiquei
tesa, parecia que meus pés tinham grudado no calçamento. Lembrei do grande amor
que as unia e do quanto se alegraram quando Márcia engravidou ainda aos 16.
Ficaram felizes e pronto. E, ainda com casa só de paredes, viram a Larissa
chegar.
- Mulher, não tenho tempo prá falar que tô quebrada. Preciso
cuidar da Larissa.
- Minhas deusas, tem a Larissa! E como ela está?
- Já vai prá dois meses que a Márcia se foi... ela grudou no
namorado. E só tem 14 anos. Mulher, minha menina está perdida... a vida fez
igual rede que pega beija-flor! Acabou com a alegria, com os sonhos... e eu nem
posso ficar sofrendo. Tenho que cuidar da menina.
- Oh, Mara! Minha mãe morreu quando eu tinha treze. Eu fiquei
muito tempo perdida sem grudar em ninguém. Mas aí, quando comecei a namorar com
o Carlos, já aos 14, também grudei nele.
Um filme passou pela minha cabeça. Só quem sente é que sabe
como é cada dor. Quando mamãe se foi a nossa família ficou de quatro pessoas:
volinho, volinha, papai e eu. Papai ganhou o mundo dos bares e puteiros.
Voltava sempre muito tarde prá casa cheirando a cerveja. Volinho e Volinha
fixaram em mim os cuidados. Eram muitos os afagos, os carinhos, mas fechei em
mim a fala sobre a dor. Parecia mesmo uma falta de âncora para fixar ao chão.
Além de tudo, papai resolveu vender a serraria em Itaporã e
comprar uma loja em Dourados e mudar prá lá. Sim, somente 13 km de distância.
Eu continuava em Itaporã mesmo morando em Dourados. E, quase seis meses depois,
enquanto caminhava depois da reunião do Tupac prá casa da tia Natalina, Carlos
roçou a mão na minha. Olhei e o sorriso
lindo, encantador me imou a ele. Quando me deixou na frente do portão, quase
hora do almoço, só segurou meus dedos e me olhou. “Vamos na matinê”. Não era
voz de comando, nem de mando, nem de autoridade. Era vínculo de afeto que me
acolheu.
Namoramos quase dois anos sob os olhares rígidos de vários
adultos da família. Quase nunca ficávamos sozinhos, mas os sábados à tarde eram
nossos em Dourados e os domingos de manhã em Itaporã. Na sala de Dourados eu tinha o piano e ele
tinha o violão e juntos tínhamos muitos beijos, muitos mesmo... Eram conversas
de música, de escola, de professores, do Banco que ele trabalhava, de amigas
novas que eu fazia em Dourados... Das festas que ele ia em Itaporã... eu nunca
tinha permissão de ir.
Meu pai, não sei como consegui, levava cartas quando ia ao
Banco e trazia cartas prá mim. As missivas dele sempre terminavam com: te gosto
muito! Estou aqui. E eu sempre terminava com: saudade de você. Vem logo!
Ficamos uns três meses combinando minha festa de 15 anos e sonhávamos que
iríamos dançar muito. Na festa que teve em casa, dançamos e ainda lembro de
Champagne com o Peppino de Capri... (quando o Tio Moa traduziu, rimos
bastante... era bem sacaninha a música...). Quase todas as músicas eram
italianas... era o auge.
Quase nunca podíamos dançar. Mas Champagne foi sempre um momento de dança colada! kkkkk era assim que chamávamos as tais... O controle sobre os “perigos do
namoro” era tão babaca que meu pai chegava a perguntar prá minha tia e minha
prima o que nós tínhamos feito em frente ao portão. Ainda lembro do dia que meu
pai chegou e me viu deitada no colo do Carlos e ele tocando violão. O velho
Berto surtou, ficou roxo e entrou em casa. Só vi meu avô pegar uma cadeira e
sentar ao nosso lado... A imaginação dos adultos era bem mais fértil que as
nossas...
Às vezes eu era “lembrada” de ir ao cemitério, Carlos ia e
falava de outras coisas. Só conversávamos de morte, dores e perdas quando eu
queria. Nunca me perguntava nada, mas quando eu falava ele escutava e, sempre
segurando minha mão acarinhava meus cabelos compridos e me segurava apertada em
um abraço.
Lembrávamos sempre do primeiro beijo, às seis da tarde, em
dia de luta cheia, escondidos da minha tia... foi um juntamento de bocas tão
espontâneo, um abraço apertado que, quando nos olhamos nos olhos ele perguntou:
estamos namorando, né? E eu respondi: acho que sim, né?. Não lembro de crises e
nem de ciúmes. Nem lembro porque terminamos o namoro. Só sei que, naquele tempo
e hoje eu digo que vivi um amor com cuidado. Sim, ambos cuidávamos um do outro.
- Mara, Larissa vai ficar bem... um namoro cuidadoso salva a
gente no luto. Eu tive um namorado maravilhoso, acho que dois anos mais velho
que eu à época e era com ele que eu podia falar e ficar em silêncio, ouvir
música sem conversar... atravessar o luto em companhia.
- Mas mulher, agora o namoro não é como do seu tempo... agora
é tudo mais avançado...
- Converse, converse, faça programas só você e ela, nem que
seja comer sanduiche, tomar sorvete, caminhar na praça do papa... e acolha o
namorado na casa de vocês...
- Nem precisei falar isso... ele se abancou lá. Tô
preocupada... Mas aqueles nossos cursos do tempo da AIDS ainda tá valendo. Já
falei de camisinha e já deixei prá eles lá em casa.
- Só posso lhe falar uma coisa: namoro de adolescência é
muito, muito, muito bom. A gente não se esquece mais. Carlos segue sendo uma
presença importante na minha vida. Falo sempre dele, lembro com carinho.
- Você ainda se encontra com ele:
- Menina, morreu há algum tempo. A esposa estudou comigo,
acredita? E as filhas, conheci todas.... lindas!
- Você podia contar essa história prá Larissa, né?
- E a COVID? Merda! Vou escrever... daí ela lê!
Hoje soube que Mara teve COVID. Já saiu do hospital e, Larissa
com o namorado, 14 e 17 anos respectivamente estão cuidando dela. Os namoros juvenis são juvenis! E, quando
cuidadores apaixonados... ah, seguem aquecendo a vida!
Estela Márcia
Rondina Scandola, 58 anos sorvendo a vida mulherida,
publica no Rua Balsa das 10 aos domingos como convidada.

Lindo, encantada com sua escrita. Parabéns!
ResponderExcluirLindo, encantada com sua escrita. Parabéns!
ResponderExcluirLindo, encantada com sua escrita. Parabéns!
ResponderExcluirJane Mara, sonho que todas vamos sair escrevendo e sei que tem muitas histórias, né? vai dar um livro sobre Itaporã!
ExcluirComo sempre, ótimo!👏👏👏👏👏👏👏👏👏👏🙌
ResponderExcluirsuper obrigada! fico sempre aguardando prá saber o que pensa sobre as escritas. Essas histórias são dos nossos cotidianos e vão sempre nos trazendo mais e mais recordações.
ExcluirAmiga vc escreve história lindas e reais.
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