ENCONTROS VOCÁLICOS
Passava pela
calçada com as crianças rumo à aula de natação. Ao contornar o muro do hotel da
esquina os ruídos altos foram ficando mais nítidos e as crianças me seguraram
aflitas, querendo ajuda para quem estava dentro dos quartos cujas janelas
abertas permitiam que os encontros se manifestassem extremamente vocálicos,com
muitos AIS! UIS! UAIS e mesmo alguns Ahs
e Uhs entremeados de respirações arfantes e frases do tipo “Ai que morro”, “Meu
Deus”!!
Mãe, Socorre
a moça, mãe! E diante destes pedidos
infantis... como explicar que estes sons não demandavam socorro? Perdi o rebolado visto que a criança mais
velha nem tinha chegado aos 9 anos e a menor ainda faria 1 ano!
Neste tempo
não haviam instalado ar condicionado nos quartos e as cortinas balançavam para
fora com a brisa, e liberavam os sons em volume “natural”. Já não lembro bem da
explicação que me ocorreu “no ato”, mas nem pude fingir que ligava pedindo socorro
pelo celular, pois não havia celular na época. Lembro que neste dia a aula de
natação teve vários momentos de recriminação da parte deles, com olhares
decepcionados para mim. Afinal eu era ou não uma médica!?!?
Depois deste
episódio de ditongos e tritongos, as idas pela calçada eram marcadas por gritos
e apostas de corrida entre os 5 filhos, e vários outros encontros vocálicos substituíram
os iniciais: Eia! Uau! Vaaaaiiiiiii! Inclusive
acrescentando uns hiatos respiratórios com o uso da “traqueia”... Imagino que a alegria da corrida possa ter feito
com que me perdoassem a “falta” de atitude de socorro inicial.
Ainda hoje,
quando passo na calçada ao lado do muro me vem um riso à boca e eu o deixo sair
em homenagem às corridas a caminho da natação.
Maria Lúcia Futuro Mühlbauer
Escreve às segundas feiras

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