19 abril 2021

ENCONTROS VOCÁLICOS

 

 


ENCONTROS VOCÁLICOS

 

Passava pela calçada com as crianças rumo à aula de natação. Ao contornar o muro do hotel da esquina os ruídos altos foram ficando mais nítidos e as crianças me seguraram aflitas, querendo ajuda para quem estava dentro dos quartos cujas janelas abertas permitiam que os encontros se manifestassem extremamente vocálicos,com muitos AIS! UIS! UAIS  e mesmo alguns Ahs e Uhs entremeados de respirações arfantes e frases do tipo “Ai que morro”, “Meu Deus”!!

Mãe, Socorre a moça, mãe!  E diante destes pedidos infantis... como explicar que estes sons não demandavam socorro?  Perdi o rebolado visto que a criança mais velha nem tinha chegado aos 9 anos e a menor ainda faria 1 ano!

Neste tempo não haviam instalado ar condicionado nos quartos e as cortinas balançavam para fora com a brisa, e liberavam os sons em volume “natural”. Já não lembro bem da explicação que me ocorreu “no ato”, mas nem pude fingir que ligava pedindo socorro pelo celular, pois não havia celular na época. Lembro que neste dia a aula de natação teve vários momentos de recriminação da parte deles, com olhares decepcionados para mim. Afinal eu era ou não uma médica!?!?

Depois deste episódio de ditongos e tritongos, as idas pela calçada eram marcadas por gritos e apostas de corrida entre os 5 filhos, e vários outros encontros vocálicos substituíram os iniciais: Eia! Uau! Vaaaaiiiiiii! Inclusive  acrescentando uns hiatos respiratórios com o uso da “traqueia”...   Imagino que a alegria da corrida possa ter feito com que me perdoassem a “falta” de atitude de socorro inicial.

Ainda hoje, quando passo na calçada ao lado do muro me vem um riso à boca e eu o deixo sair em homenagem às corridas a caminho da natação.

 

                                                                                                        

                                                                                                 Maria Lúcia Futuro Mühlbauer

                                                                                                 Escreve às segundas feiras

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