25 abril 2021

SEO JORGE E A PRESSÃO ALTA


 Houve um tempo lá no Coronel Antonino que teve o médico branco baixo. O médico era querido demais pelas gentes dos movimentos populares e ele gostava de atender conversando, falando da vida. Foi aí que o Seo Jorge perguntou se ele fosse lá a gente encaixava no atendimento. Falei que o branco baixo era médico de coração e  Seo Jorge falou que desconfiava da pressão alta. 

Seo Jorge chegou numa sexta-feira, logo às 6 da manhã e, como era dia de chuva, o encaixe foi fácil. Estava alinhadíssimo: calça jeans, cinto combinando com a botina lustrada, camisa xadrez, cabelos penteados com os fios prata nas laterais. A negritude exuberava com o relógio brilhante. Falava espaçado e sempre com as concordâncias nominais do tipo "nós fomos", " se fizéssemos"... Dizia sempre que ser mestre de obras exigia que falasse fácil e correto e tanto fazia com o engenheiro, arquiteto ou com o auxiliar de pedreiro. No fórum dos usuários do SUS que se reunia ali na Diocese (anos 1990), quando era na Rui Barbosa, havia muita gente que suspirava pelo quase sessentão.  

Mariazinha, quando ele entrou no consultório, correu prá dizer que as mulheres estavam no maior conversê e que o perfume da natura tinha ficado no ar. Enfim, até a barriga do Seo Jorge era charme... claro, barriga de homem é sempre charme e de mulher é relaxo... oh vida! 

Meia hora depois veio agradecer eu e a Edna por ter facilitado o encaixe. Abriu o sorriso lindo com os dentes branquíssimos e falou que ia providenciar uma galinhada na casa dele pro pessoal da igreja e que iria nos avisar. Combinamos de nos ver no sábado - iríamos discutir a escolha dos usuários para o Conselho Municipal de Saúde. Eu falei: e a Marta, está bem? Ele respondeu que estava sempre bonita e alegre. Rimos. A esposa do Seo Jorge era uma lindeza de gente. Tinha se dedicado à criação das três crias e agora, como sempre dizia, mais descansada porque cresceram, gostava mesmo era de bordar roupas de bebê e ver o resultado do que fazia. Aceitava encomenda da peça, mas, no final, bordava mesmo o que queria.  Certa vez contei prá ela que nos anos que estávamos construindo a Associação Nacional de Assistentes Sociais, a ANAS, a Bia Abramides falava sempre: não tem problema o tipo e o nome do evento. Vocês criam o nome da conferência e a gente vai fundo e fala o que tem que falar. E ela me dizia: entendi, essa Bia é igual eu. Encomendam o que quiserem e eu coloco o bordado do jeito que eu quero... e ríamos!  Bia e Marta eram mulheres dispostas a serem singulares e desenhar o mundo. E nem se conheciam.... 

Ah, o Seo Jorge... Antes de sair do Coronel passou na farmácia e pegou o remédio. Orgulhosamente colocou no bolso da frente da camisa e disse: esse SUS é mesmo bom! Foi de ônibus para o bairro e, quando chegou no Taveirópolis, desceu em um ponto antes para encontrar o amigo dono do ponto de salgado. Iria avisar da reunião de sábado e tinha que combinar os ‘comes’ prá levar na reunião. O pessoal da pastoral iria levar o suco. À noite ainda iria na Coophavila prá lerem o regimento interno da eleição. Era muita coisa prá fazer... ainda bem que tinha conseguido a consulta, os remédios e marcado o retorno.  

No bar do amigo Assis tinha uma mesa com dois conhecidos, um pouco mais velhos e tomando a santa cerveja antes do almoço, entremeadas pelo gole de cachaça. No calor do mês de setembro, não há nada melhor que isso. E aí o amigo perguntou: deu certo lá no Coronel? 

- Tudo resolvido. Cheguei cedo, fizeram o encaixe e já saí com o remédio e tudo. 

- Mas porque você foi no médico? 

- Pressão alta. Ele falou que é baixar o peso, aliás, mais a barriga, diminuir o sal e tomar o remédio. 

- Qual é? 

Tirou orgulhosamente do bolso e mostrou. E o amigo da cerveja-cachaça riu. 

- Tá doido? vai abrir guarda pro ricardão? 

- Hum? 

- Esse remédio aí é óóó ...(e fez o sinal de pinto caído envergando o braço) 

- Como assim? 

- Isso aí afrouxa tudo... enfraquece... 

Sêo Jorge pegou os remédios, colocou no bolso da frente da calça e foi conversar com o colega do FUSUS. Combinou os combinados e foi prá casa. As duas quadras até em casa sentiu o coração acelerado, suou, coçou a cabeça e decidiu que na segunda-feira retomaria a conversa de pressão alta. Até lá não aconteceria nada.  

No sábado, já na reunião do FUSUS, Marta chegou, como sempre, alegre e saltitante. Tinha uma alegria permanente. Fizemos a dança, arrumamos a mesa de frutas, acolhemos os chegantes e tanto ela quanto eu éramos apoio: eu mais na parte da legislação e ela na comilança. Ambas éramos fundamentais pra eleição dar certo. Numa dessas, Marta falou da alegria que o Jorge tinha ido no médico e só tinha que baixar o peso e o sal. Estranhei que não falou do remédio e esperei o Seo Jorge chegar e perguntei murmurando se tinha começado a tomar o remédio. E ele disse: depois conversaremos. Calei. 

Na quarta seguinte Seo Jorge apareceu no Coronel lá pelas dez horas. O médico branco e baixo, um dos poucos cumpridor de horários estava por lá. Pediu prá falar com o médico e era coisa pessoal, coisa de família. Aí, quando era quase 11 horas ele ainda não tinha saído da conversa particular com o médico. Quando saiu o médico veio até a nossa sala e avisou ao Seo Jorge que iria conversar comigo prá depois ver o melhor tratamento. E frisou: aqui ela é nossa assistente social. Ela guarda sigilo. Eu preciso dela prá conversar sobre o que fazermos. Rimos todos. A gente se conhecia da militância do SUS e demarcar os papeis profissionais ficou engraçado, mas todos entendemos que ali se tratava de ligar o conhecimento político, técnico e os vínculos que tínhamos.  

Conversa de médico com assistente social quando é prá ser boa, perde a hora. Ficamos os três no consultório, tomamos café trazido pela Mariazinha e saímos ao meio dia combinando que iríamos conversar no dia seguinte.  

Seo Jorge havia tomado a decisão de não tomar o medicamento, o médico branco baixo de ir em busca de outros conhecimentos sobre o remédio e a atividade sexual e eu iria pensar como achar um roteiro de conversa prá apoiar Seo Jorge e o médico branco baixo. Enquanto isso, Seo Jorge iria fazer uma caminhada junto com a Marta todos os dias, diminuir ao máximo o sal e ver como conversar sobre sexo com a esposa.  

Foram dias tensos até que depois de ir umas três vezes conversar comigo lá no Coronel (havíamos combinado que diríamos que estávamos discutindo o Fórum dos Usuários do SUS... ) combinamos que eu poderia ir na casa dele, numa tarde da semana e iniciar a conversa de sexo com a esposa. Ele próprio ainda não tinha conseguido.  

Ah, o bordado da Marta... ufa! Salvou minha motivação para a visita e ainda entremeou a conversa. Bordava quase todos os dias e gostava de criar... igual a sexo, mas Seo Jorge não gostava de muita criação, não. Aliás sabia o riscado e bordava os mesmos pontos. Quando tinha a ideia de uma cor, linha ou traço diferente, logo ajustava pros pontos anteriores. Falava que o que estava dando certo não se mexia.  

  • E se você fizesse o desenho e bordasse? 

  • Vixe, vai ficar nervoso. Nós dois gostamos do bordado! 

  • Acho que todas temos um perfil de bordado. É nossa marca! Mas mesmo dentro desse perfil dá prá mudar linha, cor, traço, tipo de desenho...  

  • Oh, se dá! E ainda tem que ver se molha a linha prá passar na agulha (rimos demais!) 

  • Mas pode também só pintar sem bordar... e você pode fazer desenho bonito! 

  • Posso! Mas vai ter que ficar tudo entre quatro paredes. Não vai dar prá falar prá ninguém! 

  • Pintar é bommmmmmmm 

  • Eu sempre imagino... mas quando não finalizamos o bordado, Jorge fica frustrado. 

  • Sempre foi assim? 

  • Três, quatro vezes por semana. E, quando não borda até o final, pelo menos ficamos com linha, agulha, tecido tudo ali perto... 

Foram muitas visitas, conversas até que Seo Jorge telefonou no Coronel e perguntou se eu podia ir almoçar no dia seguinte. Refiz a organização em casa, a escola dos meninos, a reunião do Conselho Local e fui almoçar lá. Márcia (diretora do Coronel) entendeu que a situação era complexa e que o almoço seria comprido. Por isso, ficaria à disposição durante a tarde. Quando cheguei atrasada no almoço, já passando do meio dia, o médico branco baixo já estava lá também. Eu não sabia que ele iria e fiquei com cara perguntante. 

Marta tinha aberto o jogo, contado pro Seo Jorge das nossas conversas de bordados e pinturas e o homi tinha topado conversar mais. Mas ainda queria saber se precisava dos tais remédios sem falta.  

O branco baixo tinha muitas informações e também falou das exigências sexuais aos homens. Eu que nunca tinha participado de uma reunião domiciliar dessa natureza, sentada ao lado da Marta, mais ouvia que falava. Acabei falando de mim, das minhas pinturas e bordados e o baixo branco acabou se expondo também... era tímido na vida e falava sempre na terceira pessoa do singular. 

Foi uma educação em saúde em processo de permanente aprendizado. Mas já sabíamos que nossas histórias de vida, ser homem e ser mulher, os tabus da sexualidade, nossas idades... tudo ali tinha virado um caldo de possibilidades onde cada um sorveu de uma forma. E, sim, ficamos cúmplices desse tempo da nossa vida. Sempre que nos encontramos há uma fagulha de vínculo que nós nos identificamos.  

Há gentes que não entendem... aliás, há gentes que nem pintam e nem bordam bonito. E, mesmo que o façam não falam com ninguém. E, há trabalhadores em saúde... que diante da situação de pressão alta ainda fazem palestra com power point falando dos riscos da hipertensão, distribuem as cartelas de comprimidos e vão embora satisfeitos com o que denominaram de educação em saúde preventiva 

 

Depois do almoço com sopa paraguaia, da sobremesa com doce de leite e do café, sem tempo e condições para o sesteio... já não éramos mais trabalhadores em saúde e usuários. Tornamo-nos todos os quatro aprendizes e ensinantes. É possível que alguém ainda tenha ataque cardíaco por pressão alta, mas... nós já não falamos mais só de remédio, caminhada e sal... e, nossas alcovas mudaram.  

 

Estela Márcia Rondina Scandola, 58 anos sorvendo a vida mulherida, publica no Rua Balsa das 10 aos domingos como convidadaFoto de Chico Machado que saiu procurando e encontrou um modelo que coubesse na história do Seo Jorge. 

 

2 comentários:

  1. Esse e o sus que acredito. Isso sim é possível.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. se pudéssemos fazer sempre assim seria ótimo! mas a vida leva a gente prum trabalho repetitivo que parece não ter fim.

      Excluir

O que tem a dizer sobre essa postagem?

Postagem mais recente no blog

LETARGIA

  LETARGIA E foi com uma força na voz que chegou a assustar: Já passou da hora de você desmorrer. E eu com meus botões fiquei imaginando...

Postagens mais visitadas no blog