11 janeiro 2022

Essas coisas pequenas


 Maria Amélia Mano

...tudo que é forte demais parece estar perto de um fim
Clarice Lispector

    Fogos de artifício, eu sempre quis o mesmo que tu, garantir cadeira de balanço na parte que entra brisa no verão ou perto do fogo, no inverno, dormir de conchinha de dentro e de fora, boiar de mãos dadas em água morna e sem onda, cidades pequeninas, alpendre, jardim e arame de endireitar roseira torta, quintal, varal com taquara, vento nas roupas com cheirinho de mãe, cadeiras nas calçadas, banho de chuva e de mangueira no pátio, nosso reflexo nas poças, barulho de bule de coar café, casquinha queimada do bolo de milho, louça antiga trincada, pires que não combina com xícara, tacos soltos, goteira perto do sofá, colchão no chão, e aí veio ele, o gnomo que levava pilhas, chaves, a garantia do relógio e o nosso tempo, e nos ameaçou, e zombou de nós enquanto tomava chá de frutas vermelhas sentado na soleira da porta, do mundo, esse completo desconhecido, como essa alegria plena que nos invadiu, imensa, esse medo de ser feliz, esse passo a mais, o refúgio recém pintado de verde, de ruídos novos, fechadura que não sei jeitinho de abrir fácil, o outro dia do lixo seco, a outra hora da kombi de frutas, as mariposas estranhas em volta da luz estranha, o soro caseiro pra nossa desidratação, nossa hesitação, nossa dúvida, nossa insistência em buscar cheiros antigos e querê-los e respirar mais e mais fundo pra um sopro de mundo velho e conhecido invadir, dilatar brônquios, sair da crise de falta de mar, quando buscamos as flores secas que, um dia, deixamos dentro dos livros grossos, manchando página bem no verso mais lindo da poesia, o cachorro vira-lata que nos seguiu por 40 quarteirões com olhar de vender óleo essencial de lavanda ou bergamota que é pra ajudar a dormir bem e quase, quase cansamos, foi quando pousei nas tuas costas e, como brincadeira de criança, liguei sinais e cicatrizes com lápis de cor pra formar desenho surpresa, pra pendurar na sala nova, pra compensar joaninha que deixei voar no parque e essas coisas pequenas que foram, são e serão as mais valiosas e mais lembradas quando não estivermos mais aqui, mas até lá e que lá seja longe, bem longe, agora, rimos de nós, do nosso susto, mas ninguém ri assim impunemente, sumiram os pergaminhos e os saquinhos de filó com fitas, tenho certeza, ele veio atrás de nós, ele está aqui e já não ameaça, feliz, em paz, o gnomo, tomando o mesmo chá de frutas vermelhas, na frente da janela frente leste, dizendo que estamos só começando.

Ilustração: Monica Barengo

Texto parte da coletânea: Marias e Clarices, organizada por Rubem Penz

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