30 março 2022

Barbelice














 Maria Amélia Mano

Queria falar de frio e melancolia, junhos, chuvas e lamas. Todos têm uma história, uma tristeza, uma saliva, um céu, um véu, uma cor de batom, um galope, um desejo, um conto, um encanto, um encontro. Desencontos.  
É preciso lembrar do instante distante, quando Bárbara sonhou uni-versos libertos em mãos macias, abraçou todas as árvores em verões do mundo e transbordou em risada singela. Arvorisada.
Bárbara que amou Berenice, eterna na imortalidade e imoralidade, umidade, íntegra, íngreme, infinita, intensa, inteira, indecente, incandescente, lábios de imã invisível, ilusão entre luminárias azuis. Iluminárias.
Bárbara que amou Alice, povoada de pássaros, orvalhos e serenos, rendas brancas, plumas púrpuras, pó de luz, pólen de flor, pés descalços, perdição e perdão, paixão perpétua, pétalas mornas. Perpétalas.
Queria poder pesar na mão cada dor de amor sempre único e primeiro,  imensurável como um dilema, uma culpa, uma espera, um silêncio, um motivo, um adeus de verão antigo feito poesia de sol de meio dia. Poedia.
É preciso lembrar que um amor nunca se vai de vez. É coral em rocha, cicatriz, marca, madeira que se entalha, cordão cravejado, cristal incrustado, solda, junção feita de carne, canção, café, amanhecer, ventania e delírio. Ventalírio.
Bárbara que amou Berenice, que amou Alice. Barbelice.

Texto parte da coletânea em homenagem a Vinícius de Moraes: Horas Íntimas.
Organização: Rubem Penz

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