Maria Amélia Mano
Esqueça a casa com varanda que a gente sonhou em morar. O mundo já acabou, mas tudo ainda está aqui, ainda a ferver na lava, ainda a feder na rua, ainda a fugir dos olhos: os comprimidos pra dormir e viver, o veneno, o verme, o vírus, o vício, a vergonha, a verdade, o inverno, o vulcão extinto, o varal vazio, o véu escuro, a verbena morta, o pavor, a boca sem saliva, a pele feito escama, a ferrugem e a fuligem em nós.
Calce as sandálias de melancolia e mergulhe no mosaico como se deserto fosse. Denuncie, aos gritos, a falsa tempestade de areia, a falsa caravana, o falso oásis e o falso eclipse, o paraquedas que não abre, a roldana sem corda, a madrugada feita nó na garganta guardando o mistério dos dias inúteis e o mapa de infinitas fronteiras, todas enlameadas e cheias de arames farpados e fossos profundos.
Confesse todas as culpas galopando entre os dois extremos da ponte e da noite. Não despenque, apenas atravesse e contemple, adiante, do alto, a paisagem indistinta e confusa, como alguém que tenta entender as vidas no vale, as cidades entre nuvens ou somente um espelho que reflete um êxtase antigo, um frescor passado, uma leveza esquecida. O que um dia fomos, tão desatentos com as palavras de desordem.
Não se canse de querer, não deixe de sentir falta de algo que ainda não sabe. E quem sabe? Nós fomos, um dia. Agora, estou indo, partindo, partida, confusa em trecho sujeito a neblina, sabendo que só o rio tem uma única direção. Sigo com o pedaço que falta e o pedaço que sobra, vínculos, memórias, heranças, legados. E tudo nos esvazia e silencia. E tudo nos transborda e pesa.
Não me busque. Mantenha a ternura e a lonjura por um tempo. E só releia o último haicai que te fiz em caso de saudade de emergência. Agarre a primeira palavra pela ponta, puxe a corda, quebre o vidro, rompa o lacre, aperte o botão, desamarre tudo e saia, voe em direção da varanda da casa que a gente sonhou em morar. Talvez eu ainda não esteja. Nem mesmo a casa ou a varanda que não será a mesma que sonhamos.
Demore um pouquinho. Faça as pazes com a solitude e apure a escuta de algo que principia depois de um fim. Estarei curando ferida sábia, formando cicatriz singela, construindo cantos de desencontros pra me re-encantar. Pronta, guardarei meu cajado de peregrina e bruxa, sentarei na minha cadeira de balanço ao lado da tua e assobiarei uma canção para todas as tardes. Acredite enquanto espera. Uma nova varanda existirá.
Texto parte da coletânea em homenagem a Vinícius de Moraes: Horas Íntimas.
Organização: Rubem Penz
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