A epidemia da AIDS nos atacava por todos os lados... a epidemia, os preconceitos, o financiamento, as mortes... mas, algo foi fantástico: sempre tivemos o SUS! Não era tudo o que tínhamos lutado na Reforma Sanitária, mas o cotidiano nos ensinava que estávamos caminhando para sê-lo!
Os primeiros programas de AIDS tinham parte do financiamento feito pelo Banco Mundial e eram parte da dívida externa, mas a emergência da desgraceira inicial da epidemia - quando as pessoas morriam horas depois de saber do diagnóstico-, nos colocava o desafio de simplesmente concordar criticamente com os empréstimos internacionais. Sim, a precisão aquietava a luta em muitas ocasiões e essa era uma delas.
E, sem dúvida, a emersão dos movimentos GLBT do final dos anos de 1980 e toda a década de 1990 que vinham da morte clamar por direitos pautaram as duas primeiras décadas da luta contra a AIDS. Foi nesse contexto que surgiram as ONGs/AIDS..., quase que uma condicionalidade do Banco Mundial que criticava a universalidade do SUS e seu caráter público e estatal. O número de organizações pequenininhas era quase como que pontinhos pilhados em todo o Brasil. Houve até uma época que as organizações mais documentadas ajudavam as demais a conseguir os tais 30 mil reais para executar projetos.
As críticas do Carlos Montaño e do Zé Paulo Netto a gente guardava na gaveta para os debates mais acadêmicos... porque, naquele momento... - oh dureza de realidade! -, as pessoas vhivendo chegavam nas portas mais sensíveis para serem ouvidas, agruparem-se e lutarem por medicamentos, atendimentos para subsistência, discriminação... Quem tinha essa consciência passava a olhar a luta grande contra a terceirização do SUS e as demandas cotidianas não como contradição, mas como que complementares... quase como que somadas umas às outras.
Foi aí, nesses tempos de lutas e contradições que a Comissão Pastoral da Terra (CPT) e o Movimento Sem Terra (MST) elaboraram uma proposta e quem estava no IBISS-MS entrou junto e misturadas nessa empreitada de prevenir HIV/AIDS em mulheres. O Previna Mulher já tinha testado a metodologia de trabalhar com mulheres periféricas urbanas e agora se propunha a apoiar com mulheres em ruralidades campesinas. Construir autonomias, coletivos, possibilidades feministas eram nossos fundamentos.
Mas... mas...
Ligar as discussões do machismo, das sexualidades das mulheres, do SUS e ainda da relação do Estado brasileiro com o Banco Mundial era para poucas pessoas. Parecia que cada uma das organizações só discutia uma coisa sem falar da outra... as exceções, no Brasil inteiro eram poucas... sem dúvida era a ABIA, ALIA GESTOS... Nós do IBISS-MS compúnhamos uma equipe com uma caminhada coerente ligando todos os assuntos e, em 1998, participando da Rede Brasil sobre Instituições Financeiras Multilaterais, aumentamos nossa capacidade de articulação com várias organizações mais à esquerda.
Nessa pegada, tanto a CPT quanto do MST eram parceiros fundamentais porque conseguíamos fazer uma discussão mais abrangente... mas não era fácil. O machismo presente nas nossas organizações sempre foi um cotidiano pesado. Reunir mulheres, discutir sexo e sexualidade implicava também discutir as relações que estavam estabelecidas nas famílias, nos lotes, nos movimentos e na sociedade.
Por isso, nas ações com as mulheres do campo começávamos sempre apresentando o projeto e seus objetivos já na mística e, na sequência a questão do financiamento pautadas na criticidade sobre a origem do dinheiro como dívida externa, os editais e o papel da OPAS e UNESCO como terceirização da gestão, a organização financeira da entidade recebedora e finalmente como os dinheiros iam ser gastos. Enfim, a transparência financeira era um dado fundamental e uma forma de estabelecer confiança entre as mulheres, as organizações e nós, as apoiadoras temáticas.
Com as mulheres da cidade praticamente não era assim a não ser com mulheres lideranças de outras organizações. Falávamos simplesmente que era um dinheiro do SUS e a entidade que havia apresentado o projeto. Era um caminho mais curto e também menos crítico.
Naquele início da epidemia ainda tínhamos os cartazes feitos à mão em papel manilha ou então as transparências a serem utilizadas em retro-projetores. Sempre tínhamos umas duas ou três opções de demonstração de figuras ou frases para o trabalho, pois poderia haver localidades sem luz elétrica. A evolução tecnológica maior era o retro-projetor e o único problema era o preço da tal lâmpada. Quando queimava às vezes precisávamos de um novo projeto que previsse a compra porque os preços eram muito altos. A solução era voltar aos cartazes.
Pois então...
Ir para a Vila São Pedro para encontrar as mulheres lideranças do campo era um prazer político imenso e um desafio enórmico do ponto de vista das estratégias pedagógicas. E assim o foi!
Durante as boas vindas veio a primeira intervenção da Mazé:
-Mulheres, tá tudo bem combinado, já sabemos os horários do curso. Agora vamos combinar a reunião prá encaminhar a “Nota do Produtor”.
Puseram-se a falar quase todas ao mesmo tempo e combinaram: almoçariam rápido para dar tempo de discutirem o direito à “Nota do Produtor” em nome das mulheres camponesas.
No período da tarde, todas disciplinadíssimas no horário de chegada e, quando ja íamos para o intervalo...
-Companheiras, assim que terminar o nosso curso a tarde continuaremos a reunião sobre a “Nota do Produtor”!
E eu, sem ainda entender do que se tratava...
-Posso ir na reunião da “Nota do Produtor”?
-Pode sim, vai ser nossa convidada na reunião.
Às 16 horas, pontualmente terminamos a atividade. Nos grupos das mulheres camponesas, especialmente as lideranças, começar e terminar no horário é quase uma regra intransponível. Horário é horário!
Quando chegamos (éramos duas do IBISS-MS) à reunião da "Nota do Produtor" tomamos conhecimento que mesmo em início de 1999 as mulheres do campo não eram todas consideradas como trabalhadoras rurais, embora o fossem. Explicando: quando vendiam seus produtos, sejam eles produzidos no campo ou nas cozinhas delas como os doces, emite-se uma nota fiscal que se chama “Nota do Produtor”. Na Secretaria de Fazenda o nome que está registrado é o dos homens considerados “produtor rural”. Nesse caso, as mulheres são as "esposas" de trabalhadores rurais, como se fossem “dependentes” na previdência. Não eram “donas dos lotes” e, com isso, ficavam sempre a depender de seus maridos, especialmente quando havia separação ou no que se referia à doença ou acidente de trabalho e precisassem do auxílio doença.
-Gente, mas que coisa horrível! A 'Nota do Produtor' é mesmo importante!
Eu pensava que eu estava descobrindo a América, como diriam a respeito das abestadas urbanas desconhecedoras dos problemas que afetam as mulheres campesinas.
Calei-me. Era escutar e entender... Lá pelas tantas a Odete, sempre ela a falar coisas que me calavam diz:
-Então, companheira, precisamos da 'Nota do Produtor' com o nome das mulheres, senão a gente fica nas mãos dos pintudos. Vai discutir o quê com eles se a gente pode ficar sem nada, com os filhos nas costas e sem onde ir?
Naquele momento houve, em mim, uma clarificação das lutas das mulheres do campo, as pobres, evidente! Como negociar camisinha? prazer? respeito? as condições de viver no campo pode ser romantizada com o bucólico, a saudável comida, o frescor das árvores, o gosto da água sem cloro, o entardecer com melodia de viola... sim, é possível tudo isso... mas a realidade das mulheres estava longe do que eu lembrava das minhas tias Cida e Teresa na minha infância – trabalhavam e me dengavam... é... num era assim... acho que eu era criança demais prá saber o que passavam.
As mulheres trabalhadoras rurais trabalham muito, muito, muito! E as relações de trabalho estão ligadas às relações familiares – não há separação! A carga de trabalho no campo e na cozinha, somam-se ao batedor de roupa, à limpeza do quintal, ao cuidado dos animais, à limpeza da casa, educação, saúde e cuidado das crianças, dos companheiros e dos agregados... e, à AIDS... que campeava...
(Havíamos organizado 8 oficinas em assentamentos e, depois delas, três posithivas foram encontrados. Todos conversados no particular, jamais nos encontros. DSTs em penca, especialmente gonô, cancro e candidíase)
À noite, depois da janta feita por elas mesmas e eu tendo ficado a cargo da limpeza da pia e destino do lixo, sentamos na coordenação do evento para avaliar e pensar o dia seguinte. Deveria terminar às 14 horas para que todas voltassem aos sítios em segurança. Faltavam muitas conversas sobre a AIDS ainda, especialmente o acesso ao preservativo que geralmente tomava umas duas horas de trabalho... E, aí, decidimos...
Às 7 da manhã já estávamos na sala para a oficina. E a questão geradora foi: "O que a “Nota do Produtor” tem a ver com a prevenção da AIDS?”
As falas tímidas iniciais foram se acalorando e, confesso: foi um dos aprendizados mais significativos sobre as relações interpessoais, entre mulheres, a luta pela terra com os lotes e os percalços, a dívida externa e como deveria ser a intersetorialidade na garantia dos direitos.
As tais assessoras (o nome que nos dão quando entendemos de um tema) do evento não foram protagonistas de quase nada, a não ser de fazer freirianamente a reorganização pedagógica para oportunizar que as mulheres tomassem as rédeas do que efetivamente precisavam para construir autonomias.
Almoçamos às 11h30min (a comida estava semi-pronta da noite anterior) com arroz carreteiro, feijão, salada de repolho com tomate e ovo frito. Todas lavamos e guardamos as louças e panelas e retornamos às 12h30 para avaliação.
Apresentamos a programação e o que havia ficado sem conversar sobre a prevenção da AIDS e a acolhida de pessoas vhivendo. Foi acordado entre todas que levariam material prá casa, algumas mais escondido e outras menos e, que os preservativos seriam deixados somente com aquelas com mais negociação com os maridos e com filhos e filhas jovens... cada uma com sua realidade e possibilidade. As demais, caso conseguissem, pegariam na casa das outras.
Fizemos texto coletivo sobre o que foi o encontro. A partir dele elaboramos as frases chaves e, depois... num exercício de riso e nervoso criamos o lema do encontro:
É preciso lutar contra a AIDS, nunca contra as vhivendo!
E lutar para ter a nota do produtor no nome das mulheres. É uma das nossas armas prá sermos mais donas dos nossos destinos.
Viemos caladas os 200 km da Vila São Pedro a Campo Grande. Às vezes cantarolávamos... sim, o entardecer pede música da terra, de violeiras e harpas...
Estela Márcia Rondina Scandola, 59 anos, mulherecendo em tantas mulheres que mulherecem em mim. Escreve aos domingos como convidada.
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