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| Capa do livro, O Cobrador, de Rubem Fonseca |
Ernande Valentin do Prado
Na porta de vidro um cartaz com uma moça com dentes brilhantes de
tão brancos, em baixo escrito não fornecemos nota fiscal. Na sala de espera
lotada uma placa, atendimento por ordem de chegada, seja um cliente paciente.
Esperei muito, o dente doendo, a porta abria e fechava e não chegava a minha
vez, fui o último cliente, quando saí não vi mais ninguém
esperando.
Entrei no consultório, sentei na cadeira, abri a boca e disse que
meu dente doía muito. Ele já estava de luvas e enfiou um dedo e um espelhinho
em minha boca e foi logo perguntou porque eu tinha deixado os dentes apodrecer
tanto.
Só matando. Em que mundo esses caras vivem?
Vou ter que fazer um curativo provisório, ele disse, e começar o
tratamento depois que a dor passar, você já tem poucos dentes e é melhor não
arrancar — e bateu com o
espelhinho no dente ao lado do que estava doendo.
Deu uma injeção de anestesia. Depois fez o curativo e avaliou cada
um dos dentes: vai precisar de continuar o tratamento, vai fazer?, disse com
cara de nojo. São oitenta reais.
Só matando. Não vou pagar não, meu camarada, eu disse. Nã vai o
quê?
Não pago oitenta reais. Fui saindo em direção à porta.
Ele colocou-se na minha frente com máscara na cara e as mãos
enluvadas para cima. Sabe com quem está falando, disse. Era um cara alto, magro
e de mãos grandes que entravam e saiam da boca dos fodidos como eu. Minha
cara de bandido devia ser ameaçadora, já o meu tamanho não ameaçava ninguém.
Odeio dentistas, policiais, médicos, administradores, servidores públicos,
principalmente estes que deveriam estar no SUS, mas dão um nó e no mesmo
horário estão em seus consultórios particulares. Tenho vontade de me vingar de
cada um. Se estivesse armado só levantaria a camisa para ele ver o cabo do
revólver, aposto que se cagaria todo. Nem precisaria mostrar o resto, só dizer,
com todo meu ódio: que tal eu te dar um tiro no cu? Estaria cagado e branco de
susto por baixo da máscara, sem prever minha reação. Certeza: o cara ia até
oferecer o cu de bandeja. Só que eu não como cu de dentista. Queria quebrar o
consultório todo do doutor e queria que ele tentasse reagir para eu ter uma
desculpa para queimar a cara dele.
Eu não pago quem não dá nota fiscal, nem quem dá nó no serviço
público!, gritei para ele, eu quero vingança!
Empurrei o desgraçado. Devia ter ao menos cuspido na cara dele.
A calçada estava cheia de carros estacionados. Caralho, na minha
cabeça, e cada vez mais fora dela, tenho vontade me vingar! Cada coisa
errada, com a ponta do canivete sai riscando a lataria de cada um dos carros
que ocupavam a calçada. Queria que um motorista reagisse, só para furar ele,
mas ninguém fez nada. Um fodido vinha puxando um carrinho de catar papelão, o
empurro para frente dos carros. Vai tomar no cu, mundiça. Avenida Ruy Carneiro,
escola de inglês, casas de decoração, borracharias, banco, loja de china,
artesanato, dentistas, oculistas, gente com medo aos montes. A qualquer hora
não se consegue andar nas calçadas, carros e esgoto correm por elas.
Me irrita especialmente pessoas em Mercedes brancas. Sobretudo
quando estão paradas em cima da faixa de pedestres. Ontem de tardinha caminhava
na calçada pensando no que poderia fazer com uma arma com silenciador, e quando
atravessava na faixa de pedestre uma puta de Mercedes branca buzinou para mim.
Quando ouvi a buzina estava no meio da travessia da faixa. Vi que o carro
ainda estava longe e parei em pé na faixa.
Quer que eu passe por cima?, gritou a putona.
Era quase noite e outros carros passavam na pista ao lado. Ela
gesticula de trás do parabrisa. Queria estar armado, ter um machado para
quebrar o para-brisa da cadela. Peguei uma pedra, ela acelerou com o carro,
certamente com medo ou para passar por cima de mim, ou as duas coisas. Arremessei, o carro passou, os pneus queimando o asfalto. bateu na calçada,
pouco mais a frente. Não saiu do carro. Usou o telefone, fiquei olhando de
longe. O meu ódio saia pelas orelhas, vontade cair de pau.
Olhei para cima e vi, em um prédio ali na frente, uma empregada
doméstica olhando. Tentou se esconder quando viu que eu olhava para ela. Não
deve ter chamado a polícia.
Saí andando calmamente, atravessei a avenida. Tinha me sentido bem
jogando a pedra naquela mulher que se achava dona da rua. Devia ser direito
atirar em quem não respeita a faixa de pedestre.
Na lateral do mercado de artesanato, o cara da Taurus já estava
me esperando. Trouxe o dinheiro? ele disse estendendo a mão. Mão lisinha, sem
um calo, enquanto a minha estava cheia de cicatrizes, meu corpo todo estava
cheio de cicatrizes, até minha alma estava cheia de cicatrizes.
Também quero comprar um iphone, eu disse pro cara.
Enquanto ele foi buscar o celular eu examinei o Taurus.
descarregada, mas trouxe munição no bolso. Municiei.
O camarada voltou carregando o iphone. Tá novinho, ele disse.
Experimenta.
Liguei.
Tem carregador, perguntei.
Ele virou-se para pegar.
Puf. Na nuca. Deve ter morrido no primeiro tiro, mas como não
gosto de policial corrupto, dei mais dois puf, puf, só para ouvir o som do
silenciador.
Tão me devendo colégio particular, namorada, smartfone, respeito,
croissant, sorvete, PS4.
Até agora não tinha como cobrar tudo que me devem. Mas com esse
Taurus posso alimentar meu ódio e a vontade de me vingar.
Acho que amanhã vou voltar ao dentista.
[Ernande Valentin do Prado publica no Rua Balsa das
10 às 6tas-feiras]
