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15 novembro 2019

FONSEQUIANA

Capa do livro, O Cobrador, de Rubem Fonseca
Ernande Valentin do Prado

Na porta de vidro um cartaz com uma moça com dentes brilhantes de tão brancos, em baixo escrito não fornecemos nota fiscal. Na sala de espera lotada uma placa, atendimento por ordem de chegada, seja um cliente paciente. Esperei muito, o dente doendo, a porta abria e fechava e não chegava a minha vez, fui o último cliente, quando saí não vi mais ninguém esperando.  
Entrei no consultório, sentei na cadeira, abri a boca e disse que meu dente doía muito. Ele já estava de luvas e enfiou um dedo e um espelhinho em minha boca e foi logo perguntou porque eu tinha deixado os dentes apodrecer tanto. 
Só matando. Em que mundo esses caras vivem?
Vou ter que fazer um curativo provisório, ele disse, e começar o tratamento depois que a dor passar, você já tem poucos dentes e é melhor não arrancar —  e  bateu com o espelhinho no dente ao lado do que estava doendo. 
Deu uma injeção de anestesia. Depois fez o curativo e avaliou cada um dos dentes: vai precisar de continuar o tratamento, vai fazer?, disse com cara de nojo. São oitenta reais. 
Só matando. Não vou pagar não, meu camarada, eu disse. Nã vai o quê?
Não pago oitenta reais. Fui saindo em direção à porta.
Ele colocou-se na minha frente com máscara na cara e as mãos enluvadas para cima. Sabe com quem está falando, disse. Era um cara alto, magro e de mãos grandes que entravam e saiam da boca dos  fodidos como eu. Minha cara de bandido devia ser ameaçadora, já o meu tamanho não ameaçava ninguém. Odeio dentistas, policiais, médicos, administradores, servidores públicos, principalmente estes que deveriam estar no SUS, mas dão um nó e no mesmo horário estão em seus consultórios particulares. Tenho vontade de me vingar de cada um. Se estivesse armado só levantaria a camisa para ele ver o cabo do revólver, aposto que se cagaria todo. Nem precisaria mostrar o resto, só dizer, com todo meu ódio: que tal eu te dar um tiro no cu? Estaria cagado e branco de susto por baixo da máscara, sem prever minha reação. Certeza: o cara ia até oferecer o cu de bandeja. Só que eu não como cu de dentista. Queria quebrar o consultório todo do doutor e queria que ele tentasse reagir para eu ter uma desculpa para queimar a cara dele.
Eu não pago quem não dá nota fiscal, nem quem dá nó no serviço público!, gritei para ele, eu quero vingança!
Empurrei o desgraçado. Devia ter ao menos cuspido na cara dele.
A calçada estava cheia de carros estacionados. Caralho, na minha cabeça, e  cada vez mais fora dela, tenho vontade me vingar! Cada coisa errada, com a ponta do canivete sai riscando a lataria de cada um dos carros que ocupavam a calçada. Queria que um motorista reagisse, só para furar ele, mas ninguém fez nada. Um fodido vinha puxando um carrinho de catar papelão, o empurro para frente dos carros. Vai tomar no cu, mundiça. Avenida Ruy Carneiro, escola de inglês, casas de decoração, borracharias, banco, loja de china, artesanato, dentistas, oculistas, gente com medo aos montes. A qualquer hora não se consegue andar nas calçadas, carros e esgoto correm por elas. 
Me irrita especialmente pessoas em Mercedes brancas. Sobretudo quando estão paradas em cima da faixa de pedestres. Ontem de tardinha caminhava na calçada pensando no que poderia fazer com uma arma com silenciador, e quando atravessava na faixa de pedestre uma puta de Mercedes branca buzinou para mim. Quando ouvi a buzina estava no meio da travessia da faixa. Vi  que o carro ainda estava longe e parei em pé na faixa.
Quer que eu passe por cima?, gritou a putona.
Era quase noite e outros carros passavam na pista ao lado. Ela gesticula de trás do parabrisa. Queria estar armado, ter um machado para quebrar o para-brisa da cadela. Peguei uma pedra, ela acelerou com o carro, certamente com medo ou para passar por cima de mim, ou as duas coisas. Arremessei, o carro passou, os pneus queimando o asfalto. bateu na calçada, pouco mais a frente. Não saiu do carro. Usou o telefone, fiquei olhando de longe. O meu ódio saia pelas orelhas, vontade cair de pau.   
Olhei para cima e vi, em um prédio ali na frente, uma empregada doméstica olhando. Tentou se esconder quando viu que eu olhava para ela. Não deve ter chamado a polícia.
Saí andando calmamente, atravessei a avenida. Tinha me sentido bem jogando a pedra naquela mulher que se achava dona da rua. Devia ser direito atirar em quem não respeita a faixa de pedestre.  
Na lateral do mercado de artesanato, o cara da Taurus já estava me esperando. Trouxe o dinheiro? ele disse estendendo a mão. Mão lisinha, sem um calo, enquanto a minha estava cheia de cicatrizes, meu corpo todo estava cheio de cicatrizes, até minha alma estava cheia de cicatrizes.
Também quero comprar um iphone, eu disse pro cara.
Enquanto ele foi buscar o celular eu examinei o Taurus. descarregada, mas trouxe munição no bolso. Municiei.
O camarada voltou carregando o iphone. Tá novinho, ele disse. Experimenta.
Liguei.
Tem carregador, perguntei.
Ele virou-se para pegar.
Puf. Na nuca. Deve ter morrido no primeiro tiro, mas como não gosto de policial corrupto, dei mais dois puf, puf, só para ouvir o som do silenciador.
Tão me devendo colégio particular, namorada, smartfone, respeito, croissant, sorvete, PS4.
Até agora não tinha como cobrar tudo que me devem. Mas com esse Taurus posso alimentar meu ódio e a vontade de me vingar. 
Acho que amanhã vou voltar ao dentista.

[Ernande Valentin do Prado publica no Rua Balsa das 10 às 6tas-feiras]


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