22 março 2020

1968 E 2020 – A MESMA MÚSICA QUE ME PÕE NO MUNDO


Quando tio Moa chegou da Itália eu tinha seis anos.  Trouxe consigo rolos e rolos de fita com músicas. Eram grandes aparelhos para tocá-los  e, quando o sol descia, depois da janta, vó Stela e minha mãe iam lavar os pratos, vigiavam prá ver se tinha pão pro dia seguinte e limpavam as panelas prá não deixar que os restos de comida chamassem as baratas.
Eu, agraciada por ser criança, ia ver o encantamento da montagem da geringonça prá tocar os rolos de fita. Papai levava o lampião e o vô Dale ia ver se as pilhas imensas estavam prestando.  Os homens terminavam primeiro quando dava certo e esperavam as mulheres para todos começarem a ouvir música juntos.
Mamãe e papai sentavam no sofá verde e branco que tinham pés em forma de cone  que hoje dizem retrô. Eu tomada de cuidado e amor, deitava ao meio com a cabeça no colo da mamãe e pernas no colo do papai. Nessa hora papai não fumava. Eu engasgava e ele fazia essa exceção. Era amor, com certeza. A cada tempo, parava-se a música para o papai ir ao alpendre fumar e aí se conversava na sala.
Vó Stela sentava num sofá individual e vô Dale no outro. Tio Moa ou ia com o papai conversar ou ficava em sua cadeira de fio. Lá em casa eram todas de fios verdes. Ele dizia que só tinha essas cadeiras no Brasil e não as trocava por nada. Era como que natural dar o melhor lugar da casa prá ele, mas ele sempre trocava tudo pela cadeira de fio. Somente ele tinha estudado (prá padre) e sabia das coisas do mundo além do nosso.
Foi nessas noites de música que via minha avó cantarolando e meu avô fazendo muxoxo com a boca como que emocionado segurando o choro. O italiano em casa era corrente. Não sei se era certo ou meio certo, mas volinha sempre rezava ou cantava na língua materna dela. Acho que lembrava dos seus, da infância, da viagem de navio... o fato é que quando contava histórias misturava português e italiano e sempre tinha os olhos molhados.
Volinho tinha comprado muitas pilhas desde que o tio Moa tinha avisado que ia chegar e dizia que ia trazer os rolos de música. Em casa já se ouvir rádio todas as noites, mas geralmente era o volinho e a volinha e eu. Mamãe à noite usava a lamparina prá ler o missal, a bíblia ou o mensageiro, uma revista que chegava em casa mensalmente. E o papai, quando não estava viajando, sentava fora de casa para fumar.
As músicas eram variadas entre ópera e italianas em diferentes ritmos. Tudo se tornou familiar. As óperas,  primeiro foram estranhas e, depois, o tio falava a história delas e todo mundo ouvia. Ainda lembro da emoção de Carmen e Turandot (não lembro se havia outras...). Mas as músicas, ah... essas ainda  lembro de quase todas e cantarolo. Eu não sabia italiano, mas via os lábios da volinha mexendo conforme iam se desenrolando e ela cantava palavra aqui, palavra acolá e se emocionava. Lembro dos adultos todos com lágrimas nos olhos e eu olhava e sentia a emoção somada.  Sole Mio todos cantavam frases e parecia que estavam em palco. Mamãe cantava prá dentro e papai arriscava palavras. Os outros três cantavam forte.
Sempre, no outro dia, mamãe conversava com o tio sobre a letra das músicas e ele explicava. Sole Mio era a saudade da Itália e Il mondo era a necessidade de, além do amor por uma pessoa, ser alguém no mundo. O dia que ele explicou, entendi pouco.
Quando comecei ir aos bailes no Clube Social de Itaporã havia, necessariamente, uma seleção de música lenta e, dentre elas, sempre se romantizavam as várias italianas. O mundo girava no embalo dos filmes Dio come ti amo e Candelabro Italiano. Cantávamos tudo e dançávamos de rosto colado e com os amores pulsando.
E lá veio Il Mondo de Fontana. Final dos anos de 1970 e início dos 80, em Itaporã, conversava-se quase nada da ditadura e o jogar-se para mudar o mundo. Quando dançava colada com o moço lindo, rodopiava de pensamentos entre o balanço dos corpos e o dois prá lá e dois prá cá e o desejo de correr o mundo. E eu lembrava do tio Moa falando baixo com minha mãe que o mundo girava e precisava mais paixão além do casamento. Acho que falava de política, de gente que faz o mundo mudar... eu que acho!
Eu sonhava com alguém para conversar sobre isso... não, não havia. Só os hormônios funcionando na dança. “Gira o mundo, gira no espaço sem fim com os amores recentes, com os amores já terminados. Na alegria na dor das pessoas como eu. Oh, mundo! Somente agora eu olho para você”, cantavam os vocais das bandas...  que, como eu cantava em italiano (tinha decorado tudim!). Eu não sabia italiano, só algumas músicas que eu entendia. Sempre me emocionava e juntava tudo isso nos beijos molhados.

Esses dias de auto-isolamento em casa, tudo me emociona e, quando recebo as notícias das mortes na Itália fico sempre com um nó – nem choro e nem me acalmo – é uma pandemia de sentimentos. O COVID me faz pensar que o mundo gira, nem sempre para o lado que a gente quer e espera...
 E eis que Fátima, minha eterna orientadora (aquela que dizia que eu era a própria mama italiana pelo modo como brigo e amo), me envia o vídeo com Il Mondo. É uma forma de o  Brasil lembrar a Itália que deu tantos revolucionários ao Brasil. Chorei e lembrei... e, de novo senti o estar só.
Posso dançar, juntando corpos e beijando longamente, mas se para mim, viver é para além da paixão romântica por uma pessoa, mas também a paixão pelo mundo... viver no mundo, com quem conversarei sobre isso... ? e com todo o tesão que isso me transcende?

Estela Márcia Rondina Scandola, 57 na inteireza de mulherices, publica no Rua Balsa das 10 aos domingos, ainda como convidada.

6 comentários:

  1. Estelinha....encantador ouvir e ler as suas reflexões. Pra quem não dormiu direito, acordar com essa música e com essa leitura, sem dúvida, é uma dádiva divina. Seja bem vinda miga.

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  2. Ai que delicia esse comentario! Brigaduuu

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  3. Você tem um jeito harmonioso e objetivo de escrever. Deliciante!
    Abç.

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    Respostas
    1. tiro espinhos d´alma! brigadu!

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    2. Nossa! Fui lendo a sua história e me sentindo dentro dela. Revi meu vô Dale,minha vó Stela, meus tios Moacir e tio Berto.... que saudades!!!!
      Não consegui imaginar tia Derci pq infelizmente não a conheci. Porém, consegui imaginar literalmente a cena e me transportar pra ela com uma mistura de sentimentos (saudades,alegria e tristeza)

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    3. achei histórias com você dactilografada... ou seja, parece que já já você vai estar nela!

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